Blog do Flavio Gomes
F-1

XINGLINGS (3)

SÃO PAULO (e tem mais hoje) – Querem saber? Às favas com o puritanismo. É preciso admitir: ficou divertido pacas esse negócio. Está funcionando o novo regulamento da F-1, e até as asas móveis já começam a angariar minha simpatia — embora estejam transformando o ato de ultrapassar em algo fácil; digamos que é uma […]

SÃO PAULO (e tem mais hoje) – Querem saber? Às favas com o puritanismo. É preciso admitir: ficou divertido pacas esse negócio. Está funcionando o novo regulamento da F-1, e até as asas móveis já começam a angariar minha simpatia — embora estejam transformando o ato de ultrapassar em algo fácil; digamos que é uma “rapidinha”, para manter as comparações erotizadas da semana passada.

Mas é claro que são os pneus despirocados que mais têm contribuído para que os GPs deste ano tenham mais ultrapassagens e ação do que em todas as últimas 300 temporadas juntas, desde os tempos das enfadonhas corridas de bigas nos coliseus romanos. (Despirocado é uma palavra feia, e nem sei se todos compreendem seu sentido. Lá onde eu morava, quando o cara era maluco, a gente dizia isso: despirocado.)

Os pneus são malucos. Que a Pirelli não use seu desempenho errático para vender seus produtos por aí, que ninguém vai comprar. Eu não quero um pneu doido no meu carro. Mas num carro de F-1, que mal que tem? Nenhum. São os grandes astros de 2011. São eles que têm deixado enlouquecidos pilotos & agregados. Para o bem do espetáculo, afinal.

O GP da China foi ainda melhor que o da Malásia. O tempo todo, em algum lugar, tinha alguém se esfregando. E quase sempre em condições diferentes de performance — seja por conta de uma borrachinha mais dura aqui, outra mais mole ali, ou com pneus iguais na origem, mas completamente distintos no desempenho porque ele, o desempenho, depende do carro, do pé mais pesado ou mais leve do piloto, da freada mais aguda, do acerto do engenheiro, de um monte de coisa.

Eu costumo anotar os grandes duelos ao longo de uma corrida, mas perdi a conta nessa prova de Xangai. Teve um pouco de tudo e tudo de grande qualidade, como Schumacher x Alonso, Hamilton x Button, Buemi x Alguersuari, Petrov x Heidfeld, Webber x Rapa. E teve principalmente Hamilton x Vettel pela vitória e, um pouco antes, Massa x Rosberg, x Button x Hamilton x Webber pelo pódio. Briga por vitória e pódio, na pista, nas últimas voltas? Sim, isso existe, agora.

Foi uma zona, em resumo, mas uma zona divertida que deve, sobretudo, ter deixado os pilotos felizes — apesar das incertezas que os afligem ao longo de quase duas horas dentro do cockpit. Eles, mais do que nós que ficamos assistindo, aplaudindo ou vaiando, tentando entender a bagunça, é que estão aprendendo algo neste ano: a brigar por alguma coisa. Nem que seja por uma glória fugaz, efêmera, como uma posição que logo mais será perdida, um momento mágico de deixar o outro para trás mesmo sabendo que vai durar pouco, porque dali a instantes a borracha vai apresentar a conta, ou a assustadora asa móvel vai abrir sua bocarra e te engolir impiedosamente.

Dane-se, o que vale é aquele segundo, aquele átimo, aquela manobra, aquele X, aquela humilhada, aquele passão, e depois que leve o diabo.

Claro que nesse cenário frenético alguns se destacam mais do que os outros, e portanto sempre há um vencedor, um segundo colocado e um terceiro a quem se faz necessário entregar louros e troféus e espumante. E mais aqueles que fazem pontos, os que largam atrás e chegam na frente, essas coisas. Hoje, palmas para Hamilton, que ele merece. E para Webber, Rosberg e Schumacher, os nomes da corrida. E, por que não?, para Massa e Koba-mito.

Daqui a pouco eu volto para tentar contar o que aconteceu em Xangai. Antes preciso de um café.