Blog do Flavio Gomes
Futebol

BARCELONA, 5 DE JULHO DE 1982

SÃO PAULO (mudamos) – Estes dias, arrumando umas coisas velhas que estavam numa mala cheia dos meus 18 anos, encontrei o exemplar de “La Gazzetta dello Sport” de 6 de julho de 1982. Não que fosse fácil achar o jornal para comprar nas bancas da cidade. Tampouco dava para baixar na internet. A internet era […]

SÃO PAULO (mudamos) – Estes dias, arrumando umas coisas velhas que estavam numa mala cheia dos meus 18 anos, encontrei o exemplar de “La Gazzetta dello Sport” de 6 de julho de 1982. Não que fosse fácil achar o jornal para comprar nas bancas da cidade. Tampouco dava para baixar na internet. A internet era algo que os criadores dos Jetsons ainda não haviam formatado direito. Talvez para a vigésima temporada da série, lá por 2012. Muito avançada para a época, aquela história de computadores interligados, ninguém iria entender direito.

Mas eu era o que se chamava de “penfriend”. Escrevia cartas para gente do mundo inteiro e recebia, também. A “Gazzetta” chegou pelo correio, com suas páginas cor-de-rosa. “Il Brasile siamo noi”, a manchete. O “JT” da foto, com a melhor capa de todos os tempos na imprensa mundial, esse eu não guardei.

E tudo começou, essa mala cheia do futebol dos meus 18 anos, quando, no início de 1982, comprei um exemplar caríssimo da “Onze” numa banca da praça Vilaboim, uma revista francesa de futebol que deve existir, ainda. Na sessão de cartas, encontrei alguns nomes e endereços de gente que queria trocar correspondência e criei minha própria rede de amigos.

O primeiro deles na Holanda, em Alkmaar, Martin Roberto Dom, nome esquisito que nunca fui capaz de encontrar décadas depois, nos googles e facebooks da vida. Martin, um dia, pegou um avião e veio para o Brasil. Adorava futebol e o Brasil. Deixou as malas na minha casa e foi viajar de ônibus pelo país. A caminho de Belém, conheceu uma menina linda com quem se casou sem ter conseguido trocar uma palavra com ela. Levou-a para a Holanda, chegamos a visitá-los em 1989, eles vieram de novo para cá, depois perdemo-nos no mundo. Espero que Martin Roberto Dom tenha uma vida feliz ao lado de sua linda menina-jambo que em três meses de Alkmaar já estava falando holandês fluentemente e cozinhando divinamente pratos da cozinha indonésia, que era a origem da família de Martin Roberto Dom.

Outro na Bélgica, de Östende, já um senhor, igualmente apaixonado pelo Brasil e pelo futebol brasileiro. Desse, que me mandava flâmulas, não lembro o nome, assim como não lembro o nome do rapaz no Japão que tinha um jornalzinho chamado “Japan Football Soccer”, na verdade uma “news letter” que ele escrevia à máquina, tirava xerox e mandava para seus “penfriends” no mundo, do qual eu era colunista — no início da minha carreira, quando mandava currículos para arrumar emprego, incluía “colunista do Japan Football Soccer” na relação de minhas atividades profissionais; é possível que tenha impressionado alguém. E tinha um menino na Itália, com quem trocava cartões postais de estádios, formei uma vasta coleção que ficava numa caixa de sapatos com divisões por países.

Holanda, Bélgica, Japão, Itália. Nesses países distantes viviam meus amigos de caneta, para quem escrevia cartas e as colocava em envelopes que tinham nas bordas pequenas faixas verdes e amarelas e, na frente (que eu sempre achava que era atrás; para mim, a frente do envelope sempre foi onde a gente coloca o remetente, é mais importante para quem recebe saber quem mandou, afinal aquele que vai receber é bem conhecido, em geral você mesmo, e foi um choque quando descobri que a frente, na verdade, é onde a gente coloca o destinatário), uma estampa azul onde se lia “Par Avion/Air Mail/Via Aérea”. E as cartas iam e vinham par avion, todas as semanas eu ia à pequena agência dos Correios na Escola Paulista de Medicina para enviar as minhas e, eventualmente, retirar algumas que chegavam em forma de pacotes embrulhados em papel pardo cheios de selos, que cuidadosamente eram removidos com o uso de uma técnica milenar, a de colocar papel higiênico molhado sobre os selos pela manhã para, na hora do almoço, descolá-los do papel pardo usando uma pinça sem rasgar nada.

Uma vez, vi num “Guerín Sportivo” que o italiano mandou um anúncio da luva de goleiro Uhlsport preta com borracha amarela, uma espécie de fetiche, era da mesma marca que o Zoff usava e eu jogava no gol. Lembro que o anúncio dizia “guanti da portiere”, e fiquei doido por aquela guanti da portiere, recortei o anúncio e mandei num envelope para o Martin Roberto Dom junto com alguns dólares que comprei com os trocos que tinha numa casa de câmbio no centro da cidade, rezando para que as divisas não fossem interceptadas pela Interpol. Meses depois veio um aviso da Receita Federal informando que havia chegado um pacote com uma guanti da portiere para mim enviado da Holanda, e é claro que os fiscais ficaram intrigados com aquilo e me convocaram a dar explicações.

Dei as explicações, mas a Receita não se convenceu e decidiu que eu teria de pagar um incalculável valor à guisa de impostos, e com lágrimas nos olhos, porque não tinha dinheiro, mandei que devolvessem o par de guanti da portiere à sua origem sem que ao menos pudesse vê-las, tocá-las, sentir seu cheiro de borracha e seu gosto de Sarriá.

É porque Sarriá já tinha acontecido, Barcelona, 5 de julho de 1982. Meses depois Martin Roberto Dom me trouxe as luvas, quando veio ao Brasil. Já éramos adultos. Sei lá, 20 anos. Eu já tinha carro e dirigia. Levei-o de carro à rodoviária, onde pegou o ônibus da linda garota de Belém.

Sarriá foi o jogo que me fez chorar pela primeira vez com o futebol, frase que li e ouvi várias vezes hoje das gentes da minha geração. Seleção brasileira era algo que nos empolgava, porque toda aquela turma jogava aqui. Sócrates, Zico, Falcão, Cerezo, Valdir Perez, Oscar, Leandro, Júnior, Serginho, Éder, esses caras eu xingava semanalmente pela TV ou na arquibancada. Mas em 1982, com Telê no banco, ramo de café no novo escudo da CBF e Topper na manga, eram eles que estavam na Espanha para, finalmente, mostrar o que nossa gente bronzeada era capaz de fazer.

Pela primeira vez, já quase maior de idade, tinha uma turma para ver os jogos da seleção bebendo e soltando rojões. Esse de 5 de julho foi numa pequena chácara que meu pai tinha em Valinhos, e sobre a TV Sharp da sala colocamos um rádio com o Silvio Luiz, porque odiávamos o Márcio Guedes e o Luciano do Valle era meio mala, aquele negócio de monopólio, e salvo engano foi a primeira Copa que a Globo teve com exclusividade, não era nada simpático.

O gol de Falcão, o empate que iria redimir o mundo de uma injustiça colossal, foi um dos momentos mais belos e breves da minha vida, as veias saltando de seus braços, o planeta aliviado, até que Paolo Rossi nos atirou no abismo, por que o Júnior estava dentro do gol?, e tudo acabou, a alegria acabou, o futebol acabou, o mundo acabou.

Atônitos, juntamos nossas lágrimas a pequenos copinhos de cachaça barata e cerveja já não muito gelada, e havia um campinho na chácara e resolvemos que, bêbados, iríamos purgar todos os pecados da humanidade jogando bola e mostrando como é que se fazia, como se aquele jogo do Sarriá ainda não tivesse terminado e coubesse a nós empatar de novo e, se possível, virar. Alguns já tinham carros, já tinham feito 18 anos, os carros de nossos pais também estavam ali na chácara, anoitecia em torno do campinho, e colocamos os carros todos em volta do gramado com os faróis acesos para, quem sabe, daquela forma, iluminar nossos caminhos, que ficaram tão escuros naquele 5 de julho de 1982.