SÃO PAULO (e agora?) – Muito provavelmente a Caterham não corre nos EUA e no Brasil. E se não corre essas duas, não há muitos motivos para acreditar que estará em Abu Dhabi para o encerramento do Mundial. O time pediu e obteve uma autorização para faltar aos próximos dois GPs sem retaliações.
Mas não há salvação para a Caterham. Quem comprou diz que o vendedor não lhe passou as ações, e quem vendeu diz que o comprador não pagou. A organização entrou em regime de intervenção externa. O destino é o fim.
A Caterham hoje ocupa as instalações que foram da Arrows e da Super Aguri em Leafield. É uma região bela e bucólica, perto de Oxford e não muito distante de Silverstone. Muitas equipes estão instaladas nas redondezas: a Red Bull em Milton Keynes (antiga sede da Stewart, depois Jaguar), a Mercedes em Brackley (onde ficava a BAR, depois Honda, depois Brawn), a Force India em Silverstone, a Lotus em Enstone, a Williams em Grove, a Marussia em Banbury. É uma espécie de cinturão da F-1 no entorno do autódromo onde a categoria nasceu.
A fábrica de Leafield é arrumadinha e funcional. Estive lá anos atrás, quando Tom Walkinshaw era o dono da Arrows e Pedro Paulo Diniz defendia a equipe. Lembro do Jaguar campeão mundial de Marcas (ou Esporte Protótipos, como queiram) de 1987 pendurado numa parede. Coisa linda. Vai fechar, e o espólio será provavelmente vendido e/ou leiloado.
Não vejo, de verdade, nenhuma possibilidade de sobrevivência para a Caterham, que estreou como Lotus em 2010 e depois mudou de nome porque a antiga Renault também passou a usar a denominação Lotus em 2011 — e por conta disso tivemos um campeonato esquisito com duas Lotus.
Será a segunda nanica das três que estrearam em 2010 a fechar as portas, e muita gente acredita que o fim da Marussia será o mesmo. A F-1 está em crise e precisa reconhecer seu mau momento. Há uma boa chance de o campeonato do ano que vem ter apenas nove times, com 18 carros no grid, o que seria um vexame inimaginável. E ainda tem a Sauber no bico do corvo, o que pode piorar ainda mais as coisas. Já imaginaram um GP com apenas 16 participantes?
Há que se pensar em algo. Três carros por equipe, ou então as grandonas com times B, por mais que isso possa parecer maluquice pelos custos envolvidos. Mas há uma forma de minimizar o problema, se a FOM destinar mais dinheiro às equipes e aceitar uma redução significativa nos seus lucros. Em outras palavras: se Bernie Ecclestone topar ganhar menos.
Ah, mas Bernie nunca faria isso, vocês dirão. Pode ser, generosidade não é a maior característica do chefão. Mas na sua idade, 84 anos na semana que vem, talvez seja o caso de pensar seriamente no futuro do negócio que ele montou. Bernie não dura muito à frente da F-1 — é horrível falar isso, mas é uma realidade que deve ser encarada. Do jeito que as coisas andam, ele pode deixar uma categoria falida como legado. Ou, se resolver ser generoso, talvez consiga salvá-la do fim antes que ele mesmo se retire do comando, algo que mais cedo ou mais tarde vai acontecer.