SÃO PAULO (se você dormiu, não perdeu nada) – Foi ruim pacas, essa corrida. Como minha memória quase sempre, na F-1, é bastante recente, vou cravar: o pior GP do Brasil que já vi na vida.
Para além do fato de não decidir nada (vice não é nada), não houve disputa relevante nenhuma. Tirando duas ultrapassagens de Verstappinho, por fora no S do Senna (sobre Pérez, na volta 31, e Nasr, na 58), rigorosamente nada de interessante aconteceu. A coisa foi tão feia que só os quatro primeiros terminaram na mesma volta — os demais preferiram andar um pouco menos, pelo jeito.
Vejam: Rosberguinho em primeiro, Comandante Amilton em segundo a 7s7, Tião Italiano em terceiro a 14s2 e Kimi Dera Fosse a Última em quarto a 47s5. Do quinto ao décimo, todos uma volta atrás: Sapattos, Hulk, K-Vyado, Grojã, Verstappinho e Maldanado. Blergh.
Ah, Massacrado terminou em oitavo. Mas no início da noite a FIA desclassificou o brasileiro da Williams. O pneu direito traseiro de seu carro estava com a temperatura acima do permitido, quando medida no grid.
Não choveu, fez calor, teve um minuto de silêncio pelas vítimas de Paris e pelos milhares de mortos em acidentes de trânsito todos os anos no mundo, teve moços e moças bonitas decorando o grid com as placas (e patrocinados pela marca de café que Bernie Ecclestone está produzindo no Brasil, Celebritie Coffee), teve um público apenas razoável, teve uma micro-invasão da pista ao final da prova gritando “olê-olê-olê Senná, Senná”, uma coisa meio jeca na opinião deste modesto blogueiro, e só não teve mesmo corrida.
Na largada, as posições originais foram mantidas quase que integralmente. Hamilton ameaçou uma tentativa por fora sobre Rosberg logo na entrada do S do Senná, mas ficou na ameaça. Dali em diante, escoltou o companheiro até o final, alternando períodos de aproximação (como entre as voltas 18 e 24, quando a diferença foi inferior a 1s) com outros de marasmo total. Nenhum ataque, vantagem aumentando, e nas últimas dez voltas, o britânico mais de 5s atrás, foi só esperar pela bandeirada para acabar logo com aquilo.
Nico ganhou a segunda seguida em Interlagos, quinta no ano, 13ª na carreira. Com o resultado, assegurou matematicamente o vice-campeonato. Hamilton, meio que de férias, tentou animar um pouco a tarde de domingo no pódio, com seu boné amarelo-amo-o-Brasil. Na entrevista conduzida por Martin Brundle (era para ser Piquet, mas acabaram mudando), mandou um “olá, Brasil!” para a torcida, mas não houve sequência no diálogo com o povo, que seguia evocando o deus Senná.
Hamilton contou que pediu à equipe para pensar em alguma estratégia diferente para tentar passar Rosberg, porque a corrida estava um saco. “É muito difícil ultrapassar aqui”, falou. Mas nem é tanto, como sabemos. Houve várias manobras nos pelotões de trás, muitas vezes com alguém colocando volta em outro alguém, ou disputando posições distantes em momentos de pneus se acabando de um dos envolvidos. E até aí tudo bem, o que o público quer ver é gente passando gente, ainda que não valha muita coisa.
Mas foi ruim, mesmo assim. Massa, por exemplo, correu sozinho o tempo todo. “Foi frustrante, um fim de semana pra esquecer”, disse, antes de saber que teria de esquecer também a desclassificação. OK, vamos esquecer. Mas não esqueci que Vossa Senhoria me prometeu umas camisetas de nomex e umas luvas pra eu usar nas corridas do ano que vem. Vamos cobrar.
Já Felipe II chegou a dar algum motivo de júbilo para a pachecada no começo, ao passar Grosjean na freada para o S do Senna. Conseguiu até aparecer em quarto lugar quando quase todo mundo já tinha parado e ele não, mas depois foi perdendo rendimento e acabou, no final, sendo ultrapassado por quatro carros em duas voltas, para terminar em 13º seu primeiro GP do Brasil. “Fiz o que pude.” Não pôde grande coisa.
A imensa maioria dos pilotos optou por fazer a corrida com três paradas, por conta do calor que levou a um grande desgaste dos pneus. Não houve nenhum drama nos pit stops, nenhuma mudança de posição significativa, tudo normal demais até da conta. Nem mesmo Alonso nos deu alguma alegria. Terminou em 16º sem quebrar, fumar, se espreguiçar, roubar troféu do pódio, nada. Aguardemos alguma zoeira em Abu Dhabi.
O resultado de Interlagos assegurou, além do vice de Rosberguinho (297 pontos, contra 266 de Vettel), o terceiro lugar entre os construtores para a Williams, que foi a 257 pontos e não pode mais ser alcançada pela Red Bull. Vale uma boa grana.
Resumindo, um mau espetáculo no fechamento das cortinas de uma temporada previsível e com algumas corridas boas. Não por acaso, talvez pela primeira vez desde que Adão e Eva resolveram povoar o planeta, a Globo perdeu no Ibope para alguém numa transmissão de GP do Brasil. Os dados preliminares apontam média de 10,5 pontos, contra 11,8 da Record com os (para mim) desconhecidos “Hora do Faro” (quem é Faro?) e “Domingo Show”.
Não é um dado muito alentador, nem para a emissora, nem para a F-1. Precisa melhorar esse negócio aí.
