Blog do Flavio Gomes
F-1

DIVILA, 74

RIO – Foi em 1998 que encontrei esses carros aí, jogados numa oficina em Interlagos. As fotos, tirei com uma câmera analógica. Já devo ter contado essa história algumas vezes aqui no blog. Eu trabalhava, entre outros, para o “Lance!”. A descoberta desencadeou um movimento que acabou, anos depois, resultando na restauração de alguns carros […]

RIO – Foi em 1998 que encontrei esses carros aí, jogados numa oficina em Interlagos. As fotos, tirei com uma câmera analógica. Já devo ter contado essa história algumas vezes aqui no blog. Eu trabalhava, entre outros, para o “Lance!”. A descoberta desencadeou um movimento que acabou, anos depois, resultando na restauração de alguns carros da Copersucar pela Dana. Esse aí, inclusive. Salvo engano, é o FD-01.

F de Fittipaldi.

D de Divila.

Divila morreu hoje aos 74 anos na França.

Ricardo morava em Magny-Cours. Já tinha um tempo que ele vinha pelo menos uma vez por ano ao Brasil, e sempre que isso acontecia meu amigo e irmão Luiz Salomão organizava um chopinho. Era sempre no Armazém Paulista, um bar bacana de Moema que, creio, ainda existe.

Sentávamos por horas para ouvir as histórias do Divila. Que andava sempre com seu laptop a tiracolo, colocava sobre a mesa e começava a nos mostrar seus projetos. Dizia coisas que, na maior parte das vezes, eu não entendia direito. Mostrava fluxos de ar. Posição de radiadores. Centro de gravidade. E vinha música. E filosofia. E sabedoria. Falava de tudo com uma paixão estonteante. Ficávamos bestas, eu e Saloma.

Magny-Cours, Ricardo? Mas por que diabos você foi morar em Magny-Cours? Ah, eu fico sossegado lá. Tenho uma casa ótima, ouço meus CDs, tomo meu vinho, ninguém me enche o saco, respondia.

A Copersucar era capítulo da vida sobre o qual falava com prazer, orgulho e alegria. Tinha menos de 30 anos quando projetou o primeiro e único carro brasileiro de Fórmula 1. É verdade que a caixa de direção era do Chevette, Ricardo?, eu perguntava, como se soubesse muito do assunto. Sim, era a melhor que tínhamos por aqui, respondia, como se fosse a coisa mais natural do mundo um carro com caixa de direção de Chevette disputar o mesmo campeonato que a Ferrari, a Lotus e a McLaren.

Trabalhou para a Minardi, a Ligier, a Fondmetal. Teve equipe de F-3000. Era um deus em Le Mans, onde o encontrei em 2012 trabalhando num carro que nem lembro qual era. Era reverenciado no Japão, a quem emprestou sua genialidade à Nissan.

Magro, alto, longos cabelos lisos, quase sempre de óculos escuros, um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones. Amava as corridas e a engenharia. Amava os pilotos e a aerodinâmica. Amava a vida e os carros. Todos os carros. Achava todos fantásticos. Achava o mundo um lugar fantástico e incrível. Amava seu cantinho em Magny-Cours, onde ouvida seus CDs e via os girassóis crescerem.

A última vez que estive com o Ricardo foi em 2016. Tivemos a chance de levá-lo no “Nitro”, nosso programa lá na Fox. Depois me mudei para o Rio, faltei aos encontros anuais com o Saloma, até que alguns dias atrás chegou a notícia do AVC e do câncer. Ele tá indo embora, me disse meu amigo.

Hoje ele se foi.

Saloma, quando tudo isso terminar vamos ao Armazém.