Blog do Flavio Gomes
F-1

AUSTRÍACAS (2)

SÃO PAULO (chega logo!) – A pole foi de Verstappen, a notícia do dia foi a renovação de Hamilton com a Mercedes por mais dois anos, mas o sábado ensolarado em Zeltweg teve dois personagens que carregam enorme significado neste momento da Fórmula 1: os ingleses Lando Norris e George Russell. Ao lado de Charles […]

Norris, P2: McLaren de volta à primeira fila depois de quase nove anos

SÃO PAULO (chega logo!) – A pole foi de Verstappen, a notícia do dia foi a renovação de Hamilton com a Mercedes por mais dois anos, mas o sábado ensolarado em Zeltweg teve dois personagens que carregam enorme significado neste momento da Fórmula 1: os ingleses Lando Norris e George Russell.

Ao lado de Charles Leclerc, que já fez suas poles e ganhou suas corridas com a Ferrari, eles são os dois mais bem acabados representante disso que se chama de “nova geração” da categoria. Forjados na F-2, chegaram à F-1 muito jovens e em equipes que hoje trafegam em faixas diferentes da estrada. Mas brilham todo fim de semana. Perto deles, todos os outros parecem “cringe”.

Norris, 21, é o queridinho da McLaren, recentemente renovou seu contrato por “vários anos”, como informou o time em comunicado, está em quarto lugar no Mundial, pontuou em todas as corridas desta temporada e, hoje, conseguiu um excepcional segundo lugar no grid para o GP da Áustria. Ficou a meros 0s048 de Verstappen. Desde o GP do Brasil de 2012, há quase nove anos, que a equipe não largava na primeira fila. Naquela corrida, ainda prateada, a McLaren fez a pole com Hamilton e a segunda posição com Button.

Williams: primeira vez no Q3 desde 2018

Russell, 23, piloto Mercedes alocado na Williams desde 2019, classificou seu carro para o Q3 pela primeira vez desde que chegou à equipe. A última vez que a Williams tinha levado um carro até a fase decisiva de uma classificação fora no GP da Itália de 2018, com Lance Stroll. De lá para cá, o time despencou ladeira abaixo, quase faliu, foi vendido pela família a um fundo de investimentos americano e começa, lentamente, a deixar o fundo do brejo.

Hoje, foi com estilo. Usando pneus médios no Q2, Russell foi o décimo colocado e deixou para trás, com macios, Ricciardo (13º) e Alonso (14º), por exemplo. Os dois carros da Ferrari também ficaram atrás de Jorginho: Sainz em 11º e Leclerc em 12º, ambos com pneus médios. Alonso tem a desculpa de ter sido atrapalhado por Vettel — falaremos disso adiante. Ricciardo já não tem mais desculpa nenhuma. A Ferrari não queria largar de pneus macios de jeito nenhum, poderia até ficar na frente da Williams se usasse esses compostos no Q2, mas não custa reforçar: Russell fez sua volta no Q2 de médios, é com eles que larga amanhã, e bateu os dois carros vermelhos usando a mesma borracha. No Q3, ainda subiu uma posição e conseguiu o nono lugar no grid. Uma proeza.

Era preciso dar o devido destaque à dupla britânica antes de começar a falar do que aconteceu em Spielberg neste sábado. Agora vamos aos (demais) fatos do dia.

Hamilton, mais dois anos: na camiseta, “lealdade”

Os trabalhos estavam começando no autódromo da Red Bull quando a Mercedes divulgou comunicado informando que Lewis Hamilton vai ficar mais dois anos na equipe. O piloto publicou em sua conta no Twitter a foto acima, assinando o contrato. Na camiseta está escrito “lealdade”. Ele está em seu nono ano no time. Se chegar ao final do compromisso, terá completado 11 anos de Mercedes. Lewis, que estreou na McLaren em 2007 e lá ficou até 2012, nunca dirigiu um carro de F-1 com outro motor que não Mercedes — OK, já andou com o McLaren-Honda de Senna dos anos 80, vão lembrar os mais fanáticos, mas vocês entenderam o que eu quis dizer.

Em meio à troca costumeira de elogios do piloto e dos dirigentes da equipe no press-release, ficou no ar a dúvida: quem será o companheiro dele nas temporadas de 2022 e 2023? É a grande pergunta que resta ser respondida neste ano. Hamilton prefere Bottas — não incomoda, faz seus pontinhos, é garantia de tranquilidade no ambiente interno. Mas o que Russell vem fazendo torna difícil para a Mercedes justificar a permanência do finlandês. Ele, certamente, é alguém que garante um futuro promissor para a equipe. Valtteri, não. E, em algum momento, os alemães terão de encarar essa realidade, mesmo sabendo que uma dupla Hamilton-Russell é potencialmente explosiva.

Verstappen: sétima pole na carreira, quarta no ano

Apesar do primeiro lugar ontem nos treinos livres, a Mercedes sabia que teria muitas dificuldades para fazer a pole hoje. Hamilton mesmo disse que a equipe da casa tinha alguma coisa guardada, e isso ficou claro no terceiro treino livre com o domínio de Verstappen. Para piorar, o dia estava mais quente do que ontem, 25°C com 52°C no asfalto, o que prejudica a performance dos carros tedescos. O holandês confirmou o favoritismo já no Q1, fazendo o melhor tempo sem dificuldade. Os eliminados foram Raikkonen, Ocon, Latifi, Schumacher e Mazepin.

Destaque negativo para o francês da Alpine, 16º colocado, enquanto Alonso fechava a primeira parte da classificação em terceiro. “Não sei o que está acontecendo”, disse Ocon, cabisbaixo, à repórter Mariana Becker, da TV Bandeirantes. O rapaz está perdidinho da silva. Outro que desapontou redondamente sua equipe foi Ricciardo, em 15º — Norris ficou em segundo no Q1. É outro que não tem a menor ideia do que se passa. De longe, a maior decepção do ano.

Alonso é atrapalhado por Vettel: irritado, descartou pontos amanhã

No Q2, quem acreditou no próprio taco saiu de pneus médios, porque quem começar a prova de amanhã com os macios terá obrigatoriamente de fazer duas paradas, uma estratégia fatal num circuito curto e veloz como o austríaco. Verstappen baixou de 1min04s pela primeira vez no fim de semana, deixou Hamilton em segundo a 0s331 e mostrou que só não faria a pole se cometesse algum erro crasso no Q3. Foram eliminados Sainz (por 0s006), Leclerc, Ricciardo, Alonso e Giovinazzi.

O espanhol da Alpine saiu de seu carro cuspindo marimbondos, depois de ter a volta atrapalhada por Vettel. “Era para largar em quinto ou sexto no grid”, reclamou. “Agora, largando em 14º, não vai dar nem para fazer pontos amanhã.” Fernandinho poupou o alemão de críticas. “Não foi culpa de Seb, quem tinha de avisar que eu vinha numa volta rápida era a equipe. As consequências para a gente foram enormes.”

Vettel, Sainz e Bottas foram chamados à direção de prova por dirigirem lentamente entre as curvas 9 e 10, atrapalhando os outros. Até o momento em que escrevo este textão, nenhuma punição foi anunciada, mas elas não estão descartadas. Para registrar: seis dos dez que foram ao Q3 usaram pneus médios. Vettel, Stroll, Tsunoda e Gasly terão de largar com macios e vão ter de trocar o calçado depois de poucas voltas.

Russell, nono no grid: larga com médios e luta por pontos amanhã

No Q3, logo de cara Verstappen virou em 1min03s720, deixando na primeira saída Norris em segundo a 0s238 e Hamilton em terceiro a 0s294. O inglesinho da McLaren se colocava como protagonista da classificação e, na segunda volta rápida, baixou seu tempo, ficando a 0s048 de Max. O holandês não conseguiu uma volta melhor e reclamou com a equipe, que o mandou para a pista sem ninguém na frente — e sem chance de pegar um vácuo. “Não foi uma volta perfeita, quase perdi a pole. Vamos conversar sobre isso”, falou, com a cara fechada apesar da pole.

Foi a sétima dele na carreira e quarta no ano. “Max vai ganhar fácil amanhã”, vaticinou Hamilton, que também não melhorou seu tempo e ainda perdeu o terceiro lugar para Pérez. Lewis larga em quarto. “Vitória está fora de questão. O ritmo deles é bem melhor. Temos de chegar na frente de Pérez e fazer o maior número possível de pontos. A Red Bull melhorou seu carro de novo. Nós precisamos buscar mais performance. Essa é a situação de momento.”

Bottas ficou em quinto, seguido por Gasly, Tsunoda, Vettel, Russell e Stroll nas dez primeiras posições. A AlphaTauri segue forte e consistente e a Aston Martin, claramente, está andando para a frente depois de um mau início de campeonato.

O grid para o GP da Áustria: prova promete ser boa no segundo pelotão

O prognóstico de uma vitória fácil de Verstappen só não se confirma amanhã se a corrida for disputada com chuva, possibilidade ainda aberta — embora as chances tenham diminuído, de acordo com a meteorologia. É que no molhado, como digo sempre, tudo pode acontecer. Mas mesmo se chover Max é favorito, porque anda muito bem debaixo d’água. Apenas terá de ficar mais atento. Em condições normais, porém, Hamilton tem razão: o garoto de ouro da Red Bull leva sem nenhuma dificuldade.

Norris, em que pese o segundo lugar no grid, não será uma vedete improvável na luta pela vitória. Pelo pódio, sim. Vai ser interessante acompanhar seu esforço na busca de mais um trofeuzinho, com três carros velozes logo atrás dele — o de Pérez e os dois da Mercedes. O rapaz vai ter de pagar um dobrado para chegar entre os três primeiros. Checo é muito bom de corrida e a dupla Hamilton-Bottas está mordida. Não nos esqueçamos que eles terminaram em segundo e terceiro na semana passada.

Os organizadores do GP da Áustria permitiram a presença de mais público neste fim de semana, desde que todos estivessem vacinados e com testes de Covid-19 em dia. A isso se chama “civilização”. Enquanto aqui um cabo da PM de Minas tenta vender 400 milhões de doses inexistentes de vacina ao Ministério da Saúde — que pede propina para comprá-las –, lá a vida começa a voltar ao normal porque, entre outras coisas, nenhum governante sabota políticas de saúde. Como se vê na foto, inclusive, não há jacarés na arquibancada. Norris brincou que a torcida pintada de laranja estava lá apoiando a McLaren, cujos carros são pintados da mesma cor. O moleque, como eu disse ontem, é engraçado.

Tenho dito que quem sair dessa corrida na liderança será campeão mundial. Parece lógico que sejam Verstappen e a Red Bull, e por isso já dá transformar o palpite em previsão com ares definitivos. A Mercedes pode virar o jogo? Acho muito difícil. Muito mesmo. Hoje, os rubro-taurinos são meio segundo por volta mais rápidos que os mercêdicos — cálculo grosseiro para pistas um pouco mais compridas que o Red Bull Ring. É duro tirar isso em meio campeonato. Seja como for, é um ótimo roteiro para a gente acompanhar até o fim do ano.

Hoje às 19h tem “Fórmula Gomes” no YouTube para discutir tudo isso, apareçam!