
SÃO PAULO (péssimo) – Não sei direito a quem a F-1 quer enganar com o anúncio feito hoje sobre a supressão das quintas-feiras da programação de um fim de semana de GP. A justificativa é aliviar o trabalho das equipes, esgotadas com a quantidade exagerada de corridas por temporada — serão 23 neste ano. Ora, ora, ora… Recentemente batizaram as quintas como “Media Day”. Pasteurizaram o dia em que os pilotos flanavam pelo paddock com alguma liberdade e sem grandes compromissos. Quando a gente podia conversar com as pessoas. Então inventaram as entrevistas quadradinhas a distância, por causa da pandemia. Agora, nem isso. Conversas com os jornalistas, só a partir da sexta.
O que, evidentemente, não significa que na quinta-feira os que mais trabalham não irão trabalhar. Falo dos mecânicos, claro, que continuarão com a mesma rotina de sempre: montar motorhomes (isso nos dias anteriores) e carros, deixar tudo preparado para o dia seguinte. Eliminar as quintas do cronograma de um GP alivia apenas para os pilotos e chefes de equipe, que não precisarão mais falar com a imprensa. Para quem pega no pesado, não muda nada.
É mais um passo na direção de, sem meias palavras, eliminar a imprensa da sua vida. Se na quinta você não pode falar com ninguém, faz o quê? Vira setorista de rede social. “Ah, mas isso é legal, uma ligação direta dos ídolos com os fãs, não precisamos mais de vocês, eu sigo os perfis do Lewis e do Lando, tudo que eu quero está ali!”
Sim, muito legal. Muito legal este mundo em que figuras públicas dizem o que querem sem que haja contestação, questionamento, indagação. Só versões oficiais. O mundo cor de rosa dos stories e dos emojis, dos comentários “zerou a vida”, “é tudo pra mim”, “fulano fez [não sei o quê] e eu tô como”, “quebrou a internet” e por aí vai.
Quinta-feira era quando eu chegava nos países onde aconteciam as corridas, com exceção de Mônaco — que já tem treino na quinta. Era o dia de se instalar na sala de imprensa, bater papo com as pessoas no paddock, ver as novidades nos boxes, prosear com os pilotos, acompanhar algumas coletivas pessoalmente, preparar a cobertura, aquecer os leitores/ouvintes/telespectadores para o que viria a partir do dia seguinte.
Com a extinção da função dos repórteres na quinta, para deleite da galerinha que acha que rede social — e só ela — informa poderiam batizar o dia de “Social Media Day”. Todos ficarão curtindo fotos dos pilotos chegando aos autódromos sorrindo e mandando coraçõezinhos, e jamais saberão o que realmente está acontecendo no mundo real. Vai ver é isso que querem, mesmo.
A boa notícia, para quem gosta de carro na pista, é que os treinos livres da sexta voltam a ter 90 minutos de duração. Com carros novos, é necessário. Os detalhes sobre todas essas decisões estão aqui.