A IMAGEM DA CORRIDA
SÃO PAULO (acontece) – Desculpem a repetição, normalmente não uso no nosso rescaldão imagens já publicadas no domingo. Mas não encontrei outra melhor para falar deste GP da Espanha. Claro que a vitória de Verstappen e a reação da Mercedes poderiam estar aí em cima, mas gosto das pequenas tragédias esportivas. No caso, a quebra de Leclerc antes da metade da corrida, quando liderava com alguma tranquilidade e poderia empatar o placar de vitórias com o holandês em 3 a 3.
Saiu da Catalunha perdendo por 4 a 2. Primeiro abandono do ano, e uma vantagem que já tinha sido de 46 pontos a favor depois da terceira etapa do campeonato reduzida a pó. Pior, virou desvantagem. O monegasco, agora, está seis pontos atrás na classificação: 110 x 104 para o rubro-taurino.
Como se diz, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Não tem outro jeito.
ESPANHA BY MASILLI
Nosso genial cartunista Marcelo Masili se pergunta, a cada rádio que vai ao ar na transmissão da TV, se esses meninos estão reclamando de barriga cheia ou se têm razão quando saem falando pelos cotovelos com seus engenheiros. A resposta, como sempre, é: às vezes sim, às vezes não.
Fiz várias anotações no meu caderninho para este “Sobre ontem…”, a maioria delas desconexas, e por isso recorrerei às práticas — e preguiçosas — caixinhas policromáticas para desovar tudo que deixei de escrever domingo no impecável textão sobre o GP da Espanha.
BATATA ASSANDO – Daniel Ricciardo largou em nono. Chegou em 12º. Lando Norris, com amigdalite, todo arrebentado fisicamente, largou em 11º. Chegou em oitavo. Norris tem 39 pontos, está em sétimo no Mundial e pontuou em quatro das seis corridas até aqui. Ricciardo tem 11, está em 11º, marcou em apenas dois GPs, está atrás, na tabela, de um piloto da Haas, um da Alfa Romeo, um da Alpine. Empatado com Tsunoda, da AlphaTauri. “Não sei o que aconteceu, trocamos de pneus três vezes, andei em quatro condições diferentes de pneus, mas eu simplesmente estava muito lento”, disse o australiano. Alguém aí aposta em sua saída no fim do ano? Se apostar, ganha.
CASO PÉREZ – O mexicano tentou estancar a sangria da crise quando explicou que seu “OK, mas não é justo” se referia à estratégia de duas paradas que a Red Bull preparou para ele. A de Verstappen era de três pit stops. No fim, Checo acabou fazendo, ele também, uma terceira parada — o que lhe garantiu o ponto extra da melhor volta da corrida. A frase foi dita quando o time pediu que saísse da frente de Max para não atrapalhar sua vitória. “O clima é o melhor possível na equipe, estamos muito unidos. Falei aquilo no calor do momento e era sobre a estratégia, não sobre ordens de equipe”, garantiu.
CASO PÉREZ 2 – Pelos sorrisos no pódio, parece que Pérez percebeu que não adianta mesmo reclamar muito. E nem faz muito sentido, porque é óbvio que quem luta pelo título é Verstappen. Ainda assim, os puristas criticam a Red Bull. Argumentam que, se vencesse, Checo poderia ter 92 pontos agora, contra 103 de seu companheiro. E estaria na briga para ser campeão. Mas alguém acredita mesmo nisso? Sendo assim, segue o jogo. Fiquemos com a frase de Christian Horner, que não quer saber de muita conversa. “Não podemos correr esse tipo de risco”, disse. Ele fala do alto da experiência de quem ganhou três campeonatos com margens mínimas na tabela. Em 2010, Vettel bateu Alonso por quatro pontos. Em 2012, por três. No ano passado, a disputa entre Max e Hamilton foi até a última corrida do ano. Se puder evitar disputas tão cardíacas, a Red Bull vai fazê-lo.
DEZ ANOS – A Williams lembrou, neste fim de semana, o décimo aniversário da vitória de Pastor Maldonado, última da equipe na F-1. Foi no GP da Espanha de 2012. O venezuelano foi convidado para ir à corrida, gravou depoimentos, distribuiu abraços e matou a saudade da F-1. Até aí, festa. Mas quando se constata que o time completou 200 GPs sem vitórias, não há motivo nenhum para comemorações.
TUDO ESTRANHO – “Quando eu largo em quinto, sexto, não consigo pontuar, nem termino as corridas. Hoje larguei em último e cheguei entre os dez primeiros. Está tudo de cabeça para baixo, mesmo, nesta Fórmula 1.” Assim Fernando Alonso descreveu seu nono lugar em Barcelona. Depois de quatro provas zerado, o espanhol voltou a marcar pontos.
MALDIÇÃO – Leclerc não se debulhou em lágrimas após o abandono no GP da Espanha. Preferiu ver o que chamou de “lado positivo” do fim de semana: “Nós conseguimos administrar melhor os pneus e estávamos em ótimas condições para vencer. Essas coisas acontecem”, falou. “Vamos para a próxima.” O problema, para ele, é que a próxima é em casa. Em Mônaco, o retrospecto de Leclerc é horrível. Em 2017, abandonou as duas provas da F-2. Em 2018, já na F-1 pela Alfa Romeo, também. Da mesma forma, não chegou ao final do GP em 2019, agora pela Ferrari. Em 2021, fez a pole e quebrou indo para o grid. E há alguns dias ainda bateu uma Ferrari clássica de Niki Lauda em voltas de exibição pelas ruas que conhece tão bem.
A FRASE DE BARCELONA
“O ritmo dele foi impressionante. Era para ter lutado pela vitória!”
Toto Wolff
O entusiasmo do chefe encontrou eco nos pilotos da Mercedes. Ambos concordaram que os carros melhoraram muito e, hoje, Russell falou que em três ou quatro corridas a equipe estará brigando por vitórias.
Talvez afirmar que Lewis teria chance de vencer seja um pouco exagerado — no fim ainda perdeu o quarto lugar porque tinha um vazamento de água que poderia resultar num superaquecimento. Ele mesmo, no começo da prova, sugeriu até abandonar o GP para poupar um motor: “Lembrei de Jedá, achei que seria impossível chegar nos pontos. Estava mais de trinta segundos atrás de todo mundo. Mas estou feliz que não abandonamos. Isso mostra que a gente não deve desistir nunca. A equipe me disse que daria para chegar em oitavo. Na hora achei meio otimista demais. Mas graças a Deus ficamos na pista. Acho que, em circunstâncias normais, daria para lutar com a Red Bull, sim.”
O NÚMERO DA ESPANHA
333,6
…km/h foi a maior velocidade registrada domingo em Barcelona. E foi de Hamilton. A equipe vinha tendo muitas dificuldades nas retas, porque o carro pulava demais. Assim, em velocidade final, perdia para quase todo mundo. O jogo parece ter virado. Em tempo: Verstappen atingiu 327,4 km/h no mesmo ponto de aferição.
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS do sétimo lugar de Esteban Ocon, que vem se mostrando muito eficiente em 2022. Com 30 pontos, é o nono colocado no campeonato e só deixou de pontuar uma vez em seis corridas. Vem dando um banho em Alonso, seu companheiro, quatro pontinhos na tabela.
NÃO GOSTAMOS de ver Pierre Gasly de novo se arrastando na corrida, completando três provas fora da zona de pontos. Enquanto isso, Tsunoda vai se virando. Terminou em décimo e foi a 11 pontos no campeonato. O francês tem apenas seis. É uma das decepções do ano.
