SÃO PAULO (acaba logo, 2022) – Nem precisou contar com os outros. Charles Leclerc fez a pole-position para o GP da Itália num dia em que largar na frente era, de verdade, obrigação para o monegasco. Afinal, todos os candidatos à pole, que já não são muitos, teriam de pagar punições no grid – menos ele. Mas o ferrarista não decepcionou. Para não deixar dúvidas, cravou o melhor tempo do sábado e mostrou que, pelo menos na classificação, tinha o carro mais veloz do lote. Superou Max Verstappen por 0s145. Foi a 17ª pole de sua carreira, oitava no ano. Honrou o macacão – que, neste fim de semana, é amarelo.
(Aproveitando, estatística inútil: Leclerc é o primeiro piloto a fazer uma pole com macacão amarelo desde o alemão Heinz-Harald Frentzen no GP da Europa de 1999, em Nürburgring. Ele corria pela Jordan, patrocinada pelos cigarros Benson & Hedges. A corrida foi vencida por Johnny Herbert, da Stewart – única vitória do time na história. Frentzen, acreditem, lutava pelo título. Foi o ano em que Schumacher quebrou a perna. Irvine, da Ferrari, e Hakkinen, da McLaren, eram os outros que brigavam pela taça. Naquele GP, HH foi vítima de uma infelicidade cruel. Liderava a corrida quando foi para um pit stop. A Jordan tinha um sistema “anti-stall” que precisava ser acionado quando entrasse nos boxes e desligado na saída. Isso impedia o carro de “morrer” na parada. O engenheiro de Frentzen, Sam Michael, tinha a obrigação de alertar o piloto na entrada e na saída do pit-lane. “Ligar ‘anti-stall’”, dizia primeiro, como um robô; “Desligar ‘anti-stall’”, falava assim que o pit stop estivesse concluído. Ocorre que, naquele dia, a tensão tomava conta dos boxes da Jordan. Era uma corrida decisiva – se vencesse, Frentzen chegaria às duas últimas etapas do campeonato, na Malásia e no Japão, empatado nos pontos com Irvine e Hakkinen. E o engenheiro Michael esqueceu de lembrar o piloto de desativar o “anti-stall”. Assim, quando saiu dos boxes, Frentzen acelerou e o carro entrou em ponto morto, o giro do motor subiu, e ele abandonou achando que tinha quebrado tudo. Quando o carro foi trazido de volta para os boxes, os mecânicos perceberam que o “anti-stall” estava ativado. Desligaram o sistema, deram a partida no motor e tudo funcionou perfeitamente. A equipe, para não jogar ninguém aos tubarões, atribuiu o abandono a um problema elétrico. Foi aquele tipo de evento que muda a história de um piloto e de uma equipe. Em tempo: Mika foi o campeão. Frentzen terminou o campeonato em terceiro. Imagens daquela corrida, inclusive o abandono do alemão, podem ser vistas aqui.)
Retomando, depois dessa amarelada…
George Russell, outro que não tinha contas a acertar com as autoridades da FIA, divide a primeira fila com Leclerc e parte em segundo. No cronômetro, fez apenas o sexto tempo. “Não mereço largar em segundo e não temos carro para brigar pela vitória”, falou o inglês, realista. A segunda fila terá Lando Norris e Daniel Ricciardo, da McLaren — igualmente quites com a lei. Verstappen sai em sétimo. Demorou bastante para a FIA emitir a papeleta com o grid definitivo. Até a Red Bull, depois de esperar uma hora para saber onde seus pilotos largariam, deu uma zoada com os dirigentes pelo Twitter.
Anyone know where we’re starting tomorrow? 🧐🧮 pic.twitter.com/f3OkzZgcW8
— Oracle Red Bull Racing (@redbullracing) September 10, 2022
O sábado foi de sol e calor em Monza, com os termômetros na casa dos 27°C. Antes da classificação, o povo nas arquibancadas pôde aplaudir momentos emocionantes no histórico asfalto do autódromo italiano. Emerson Fittipaldi deu umas voltas com a Lotus 72 que lhe deu o título mundial há exatos 50 anos, e outros carros da extinta equipe inglesa desfilaram sua beleza pelos quase 6 km de extensão da pista – como a Lotus turbina dourada, que só disputou um GP, exatamente em Monza, e foi proibida de correr; e a vermelha e branca com a qual Emerson estreou na F-1 na Inglaterra, em 1970.
A novidade na pista era a presença de Nyck de Vries como titular da Williams. Pela manhã, Alexander Albon passou mal e, depois de fazer exames, constatou-se que tinha sido acometido de uma apendicite – apêndice é aquele troço no corpo humano que só serve para inflamar e ter de ser retirado.
O holandês, assim, depois de treinar ontem com o carro da Aston Martin, ganhou a chance de fazer sua estreia na F-1 em GP. E por que De Vries? Porque ele é contratado da Mercedes e a Williams usa os motores alemães – sempre é bom esclarecer as coisas; Nyck, inclusive, é forte candidato à vaga no time inglês se Nicholas Latifi realmente sair.
Com nove pilotos punidos por trocas diversas de componentes fora do limite permitido, quase metade do grid, tudo que se esperava era mesmo uma pole de Charles Leclerc. Estava fácil. “Ão-ão-ão/a pole é obrigação!”, berravam nas arquibancadas as organizadas Mancha Vermelha, Cavalos da Fiel e a recém-criada Raça Rubro-amarela.
A lista dos punidos está abaixo, apenas para vocês se localizarem na bagaça e entenderem por que o pessoal da FIA demorou tanto para juntar as peças do quebra-cabeça.
Mas Leclerc não tinha necessariamente o carro mais rápido do fim de semana. Pelo menos até o Q3, quem vinha dando as cartas com tempos arrasadores era, mais uma vez, Verstappen. Já no Q1 o líder do Mundial foi o primeiro a entrar na casa de 1min20s, cravando 1min20s922 na primeira volta em que acelerou de verdade. Fechou o segmento em primeiro.
Os cinco eliminados foram Latifi, Vettel, Stroll, Magnussen e Schumacher. Péssimas, Aston Martin e Haas. Já o canadense conseguiu a façanha de tomar tempo de De Vries, que tinha debaixo do capacete apenas dois treinos com a Williams – um hoje, mais cedo, e outro na Espanha meses atrás.
Nyck impressionou. Passou ao Q2 em 14º, com uma folga de 0s4 para a zona de degola. Na sessão livre de pouco antes, já tinha sido mais rápido que o simpático – mas lento – Latifi. É o que se chama de aproveitar a chance inesperada. Na vida é assim.
A primeira saída da pilotaiada no Q2 foi marcada pelo que é habitual em Monza: todo mundo querendo tirar uma lasquinha do vácuo do outro. Vácuo “chupa” o carro que está atrás, mas também faz com que pontos de frenagem e aproximação de curvas mudem um pouco, prejudicando os registros mentais dos pilotos. Por isso, erros acontecem. Leclerc, pressionado pelas uniformizadas, foi um que atravessou na primeira tentativa. Mas reagiu e, na segunda, fez uma volta razoável e anotou o segundo tempo, atrás do companheiro Sainz.
Nem todo mundo foi para uma segunda volta rápida no Q2, por absoluta desnecessidade. Alguns tinham punições tão elásticas que nem precisavam aparecer no autódromo para a classificação. Poderiam aproveitar a linda tarde ensolarada na Lombardia para tomar um vinho e comer uma massa daquelas sagradas, ravioli trufado, por exemplo, numa mesinha na calçada em alguma viela medieval nas imediações – Monza tem disso, sim, e não é pouco.
Cortados foram, na segunda parte da classificação, Ocon, Bottas, De Vries, Zhou e Tsunoda.
Da turma que foi ao Q3, quatro pilotos teriam punições a pagar: Sainz, Pérez, Hamilton e Verstappen. Assim, a disputa pela pole ficou restrita a seis carros: os de Leclerc, Russell, Alonso, Norris, Ricciardo e Gasly. Se Charlinho não conseguisse enfrentando esse elenco aí, a coisa ia ficar feia. “Se Leclérque num ganhá/olê-olê-olá/o pau vai quebrá!”, passaram a cantar os ogros nas arquibancadas, emendando com coros dirigidos ao chefe da equipe: “Binotto! Cuzão! Ferrari é tradição!”, xingavam.
Na primeira bateria de voltas rápidas, Sainz, puxado pelo vácuo de Leclerc, fez 1min20s584 e ficou com o primeiro lugar provisório. O companheiro, em segundo. Se acabasse daquele jeito, pole para ele – ufa! Mas é melhor não dar sopa para o azar. A segunda saída aconteceu nos mesmos moldes de sempre, todo mundo atrás de um vácuo maroto. E o ferrarista nem precisou. Fez uma volta muito boa em 1min20s161 e garantiu a pole de fato e de direito, sem precisar herdar posição nenhuma.
A classificação final no Q3 teve Leclerc em primeiro, seguido por Verstappen (a 0s145), Sainz (a 0s268), Pérez (mais de 1s atrás), Hamilton, Russell, Norris, Ricciardo, Gasly e Alonso. Encerrados os trabalhos, o grid teve de ser montado considerando todas as punições. A espera durou uma eternidade, até que por volta das 17h de Brasília, cinco horas após o fim da classificação, o grid oficial foi divulgado. Os critérios para a aplicação de cada punição não pareceram muito claros.
De qualquer modo, as posições de largada ficaram definidas assim:
Algumas versões anteriores a essa colocavam Verstappen na segunda fila, em quarto. Se ele largasse em quarto, venceria a corrida fácil. Largando em sétimo, também.
