A IMAGEM DA CORRIDA
SÃO PAULO (domingo acaba) – Não gosto de eleger como imagem da corrida um “frame” da transmissão da TV, mas tem a ver com o “day after” do GP dos EUA. Ou o “hours after”, no caso, porque foram necessárias cinco horas para que os comissários esportivos punissem Fernando Alonso, tirando dele o sétimo lugar na corrida algo heroico depois de sua decolagem no carro de Lance Stroll.
A punição parece correta quando se olha apenas para o que motivou o protesto da Haas: o espelho retrovisor estava se soltando e era perigoso. A Alpine, então, não poderia tê-lo devolvido à pista. Mas os comissários tiveram voltas e mais voltas para observar o risco de o espelho se soltar. Poderiam ter usado a bandeira específica para isso, preta com bola laranja no meio. Não o fizeram. Foram admitir, cinco horas depois, que deveriam ter alertado a equipe. É ridículo punir o piloto, ainda mais que, ao fim e ao cabo, nada aconteceu — o espelho se soltou, mas não acertou ninguém.
E se acharam OK uma punição com efeito retardado, por que Pérez não sofreu sanção nenhuma? Fez a primeira parte da corrida com um pedaço da asa dianteira se soltando, que poderia atingir outro piloto da mesma forma que o espelho de Alonso. E, no caso do mexicano da Red Bull, o protesto da Haas não foi aceito.
A Haas está na dela em protestar o resultado. Seu argumento é que o time sofreu punições duas vezes neste ano por situações semelhantes. É justo que peça um tratamento equânime. A Alpine vai recorrer dos 30s que Alonso tomou, atirando-o para a 15ª colocação e sacando pontos importantes da equipe. A FIA promete julgar o caso na quinta-feira anterior ao GP do México. O time francês também está na dele. Se Pérez saiu imune, não faz sentido meter a foice no espanhol.
O fato é que as decisões dos comissários e diretores de prova da FIA neste ano, para dizer o mínimo, têm sido inconsistentes demais. Quase dá saudade de Michael Masi.
A FRASE DE AUSTIN
“Fiquei pensando no acidente o tempo todo. Tudo que queria era que a corrida terminasse logo.”
Fernando Alonso
Assunto devidamente abordado, falemos agora dos grandes vencedores do fim de semana. E eles são, claro, Max Verstappen e sua equipe, a Red Bull. Fazem uma temporada impecável, em que pese o fato de que ainda terão de responder pelo estouro do teto de gastos no ano passado.
Mas isso é tema para os próximos dias. Por ora, fiquemos com os ecos de mais uma exibição de gala.
O NÚMERO DOS EUA
13
…vitórias no ano alcançou Max Verstappen, igualando o recorde para uma mesma temporada que tem ainda dois detentores empatados com ele: Michael Schumacher, em 2004, e Sebastian Vettel, em 2013. O número, pois, é 13.
Um dos grandes momentos do GP dos EUA foi o final da última volta, a disputa maravilhosa entre Magnussen e Vettel, vencida no fim pelo alemão da Aston Martin. Pareciam dois novatos lutando pela primeira vitória, mas valia apenas o oitavo lugar — que virou sétimo com a punição a Alonso.
O dinamarquês derreteu-se em elogios a Vettel. “Não parecia um piloto que vai parar de correr no fim do ano. Ter uma disputa dessas é algo que a gente não esquece nunca. Incrível o nível de pilotagem dele, foi uma das coisas mais legais da minha carreira”, falou o piloto da Haas, único a terminar a corrida com apenas uma parada. “Pena que perdi, claro que a gente fica puto quando perde, mas foi daqueles momentos que ficam para sempre.”
O resultado de Austin levou a Aston Martin aos 51 pontos, apenas um atrás da Alfa Romeo na luta pelo sexto lugar entre as equipes. Nas últimas dez corridas, o time ítalo-suíço de Bottas e Zhou marcou um único pontinho. A esquadra verde de Silverstone fez 35. A briga pela quarta colocação segue intensa, com a Alpine seis pontos à frente da McLaren: 144 x 138. Por isso que os franceses vão lutar para reconduzir Alonso à sétima posição. São pontos importantes.
Na McLaren, a discrepância entre Norris e Ricciardo é gigantesca. O inglês tem 109 pontos na classificação. O australiano, 29. Daniel saiu de Austin deprimido. “É muito duro viver o que estou vivendo. Não sei o que acontece, nada do que fazemos dá certo”, falou. Na corrida, entre os que terminaram, Ricciardo ficou à frente apenas de Latifi. Lando terminou em sexto.
Como se sabe a Red Bull garantiu o título de Construtores matematicamente, com 656 pontos. Verstappen tem 391 e tem boas chances de, sozinho, marcar mais, ao final da temporada, que a Mercedes — que está em terceiro com 416. Os alemães eram campeões em sequência desde 2014. Oito anos seguidos, a maior hegemonia da história da F-1.
Chegou ao fim. Tudo chega.
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS muito dos três “velhinhos” ontem em Austin. Hamilton, 37, lutou pela vitória até o fim. Vettel, 35, foi buscar os pontos depois de cair para 13º por causa de um pit stop problemático da Aston Martin. Alonso, 41, decolou na traseira de Stroll, pousou com violência, seguiu em frente, correu atrás e, igualmente, chegou entre os dez primeiros — desconsideremos a punição. Três grandes exemplos de desportistas que, como disse Fábio Seixas em sua coluna no UOL, são comprometidos com suas histórias e sua profissão. Lewis ainda viveu o drama de ver seus freios remontados no grid. Um show dos veteranos. Não por acaso, juntos somam 13 títulos. 13 de novo.
NÃO GOSTAMOS de ver o CEO da Apple dando a bandeirada ao final da corrida. Tim Cook, o nome da figura. Como escrevi ontem, animado como se estivesse indo fazer exame de sangue. Não vou nem reproduzir a foto. Vejam no post do domingo.
