SÃO PAULO (meia-boca) – Max Verstappen fechou com chave de ouro a temporada de seu bicampeonato. Ganhou o GP de Abu Dhabi praticamente de ponta a ponta, chegando a 35 vitórias na carreira. São 15 na temporada – recorde que já era dele, ampliado agora. Charles Leclerc terminou em segundo e Sergio Pérez foi o terceiro. O resultado deu ao monegasco da Ferrari o vice em 2022.
Completaram a zona de pontos Carlos Sainz, em quarto, seguido por George Russell, Lando Norris, Esteban Ocon, Lance Stroll, Daniel Ricciardo e Sebastian Vettel. O alemão se despediu da F-1 com um pontinho suado. Lewis Hamilton abandonou no final.
“Podemos nos sentir muito orgulhosos”, disse Verstappen pelo rádio. No final, perguntou à equipe como tinha terminado seu companheiro Pérez. Informado de que não havia conseguido superar Leclerc, falou algo como “puxa que pena”. Não estava nem aí. E nem tinha de estar. Checo não fez uma boa corrida. Parou duas vezes pra trocar pneus, contra um pit stop de Leclerc. Max também fez apenas uma parada. Se tinha de reclamar de alguma coisa, era dele mesmo. Mas nem isso fez.
A largada em Yas Marina foi tranquila, exceto por um toque entre Sainz e Hamilton logo nas primeiras curvas, para irritação do espanhol. Os comissários analisaram as imagens e concluíram que o inglês cortou a pista para se livrar de uma batida, e na volta 5 ordenaram que ele cedesse a posição ao piloto da Ferrari. Ele o fez, e na sexta volta passou Sainz de novo.
Verstappen pulou na frente logo de cara, trazendo Pérez com ele na segunda posição. Dos 20 pilotos no grid, 17 optaram pelos pneus médios no início da prova. Quem estava no fundão inventou: Gasly saiu de macios, Magnussen e Bottas, de duros. Nenhum desses se deu bem.
Os dois carros da Red Bull abriram em sete voltas mais de 5s sobre o terceiro colocado, Leclerc. Max via Checo pelo retrovisor, mas não se sentia na obrigação de ceder a posição, até porque o mexicano, chegando à frente do monegasco, terminaria o Mundial em segundo – objetivo do time para Abu Dhabi.
Lewis não sustentou por muito tempo a quarta posição. Na oitava volta, Sainz finalmente deixou o Mercedão #44 para trás, e na seguinte foi Russell quem superou o companheiro, jogando Hamilton para o sexto lugar. Pelo rádio, o heptacampeão perguntou à equipe qual era o problema com seu carro: “Estou perdendo potência, brô!”, falou, na boa, sem se exaltar demais. Não obteve resposta.
Como o silêncio persistia, o inglês ligou o botão do rádio e seguiu comentando seus infortúnios. “Cara, tem alguma coisa errada nesse carro…”, falava. Até que alguém do outro lado lhe deu atenção. “OK, brô, estamos checando”, ouviu. E foi esse lenga-lenga até o fim da prova, que para Hamilton veio antes do esperado, como se verá adiante.
Mais para trás, as atenções estavam voltadas para Ocon, Vettel e Alonso, uma filinha de oitavo a décimo. Seb tentou várias vezes, mas o francês da Alpine não deu moleza. O alemão só ganhou a posição na volta 15, quando Esteban foi para os boxes e trocou seus pneus. A janela de pit stops estava aberta. Pérez foi o seguinte, depois Gasly, Schumacher, Norris…
Checo voltou no tráfego com pneus duros, cometeu um erro aqui e outro ali, perdeu tempo. Outro que se atrasou, mas nos boxes, foi Russell – uma parada demorada e liberação perigosa na frente de um carro da McLaren que vinha entrando; tomou um pênalti de 5s.
Verstappen demorou para parar. Foi para os boxes apenas na 21ª volta e, como os demais, colocou pneus duros. Voltou à frente de Pérez. O último da ponta a trocar pneus foi Leclerc, na volta 22. Não conseguiu superar o mexicano e voltou em terceiro, com Sainz colado nele. Em quinto e sexto, Hamilton e Russell. Naquele momento, na pista, apenas Vettel, em sétimo, Bottas e Magnussen, no fundão, não tinham feito pit stops, ainda.
Sebastian parou na volta 26 depois de reclamar com a Aston Martin que todo mundo estava passando por ele com facilidade. “Você vai fazer só um pit stop, eles todos vão para duas paradas”, tranquilizou-o seu engenheiro. Quando voltou, foi lá para a rabeira do pelotão. E veio se recuperando bem, até.
Antes da 30ª volta aconteceu o primeiro abandono da corrida. Alonso foi para os boxes com um vazamento de água, a Alpine puxou seu carro para a garagem e acabou a vida do espanhol no time azul. Terça-feira ele estará de verde, fazendo seus primeiros treinos com a Aston Martin na mesma pista. “Ainda bem que chegou ao fim”, falou o piloto, que teve muitos problemas técnicos ao longo da temporada.
Na frente, Verstappen seguia em primeiro, Pérez não conseguia chegar nele e Leclerc se aproximava. O mexicano, vivendo num universo paralelo, entrou no rádio e disse: “Max está me segurando”. Na mureta dos boxes, os integrantes da Red Bull se entreolharam e nada disseram.
Checo fez seu segundo pit stop na volta 34. Foram apenas 18 voltas com um jogo de pneus duros, e o mesmo tipo foi colocado em seu carro para a parte final da prova. Voltou em sexto. Sainz e Russell pararam na volta 40. O primeiro colocou pneus duros. George foi nos médios.
Era uma corrida bem chata. Até um rascunho de acidente não passou disso, um toque besta de Schumaquinho em Latifi, os dois rodaram numa coreografia perfeita, mas ambos seguiram na corrida sem grandes prejuízos, exceto para sua autoestima.
Verstappen nem pensava em trocar pneus. Tinha Leclerc a 7s de distância faltando 15 voltas para o fim da corrida e esperava para saber se o monegasco iria parar de novo. A equipe perguntou como estavam as coisas com seus pneus e Max respondeu que não tinha problema algum em seguir mais um pouco. Iria até o fim.
Na volta 45, Pérez chegou em Hamilton e passou, assumindo o terceiro lugar. Lewis, com pneus esbagaçados, não aceitou calado e duas curvas depois recuperou a posição. O mexicano insistiu e na volta seguinte foi para cima, passando de novo. Seu problema passava a ser Leclerc, claro, 9s à frente. Se o ferrarista parasse mais uma vez, Pérez conseguiria o vice. Se não, teria de buscar o adversário na pista.
Na volta 50, o rádio da Ferrari entregou a estratégia que, àquela altura, era mais do que clara. Charlinho não faria um segundo pit stop. Para conseguir o segundo lugar, Checo precisaria andar o que não andou o campeonato todo. Seus pneus eram 12 voltas mais novos que os do monegasco, mas a diferença de performance não combinava com a idade da borracha de cada um. Verstappen e Hamilton também não parariam mais.
De qualquer forma, pelos cálculos da Red Bull Pérez iria chegar em Leclerc na última volta. A diferença caía a conta-gotas. Foi quando, na volta 56, Hamilton, em quarto, percebeu que suas marchas não engatavam mais e foi parando, parando… Mas nada de bandeira amarela. O inglês conseguiu levar o carro para os boxes e abandonou.
Pérez seguia tentando. Perdeu tempo atrás de Gasly, xingou o francês e foi à luta. Mas não havia mais tempo para nada. Charlinho abriu a última volta 1s9 à frente do adversário. E assim recebeu a bandeira quadriculada.
O campeonato acabou com Vettel, Leclerc, Verstappen e Pérez dando zerinhos na reta dos boxes para dizer adeus. O alemão estacionou seu carro no meio da pista, atrás dos três primeiros – que aguardaram pacientemente. Saiu do cockpit, subiu no carro, acenou para a torcida e foi um dos entrevistados por Jenson Button. “Aproveitei a corrida. Não tivemos a melhor estratégia, acho que foi a pior possível! Mas tive boas disputas, foi legal, um fim de semana especial. Não tenho muito mais a dizer, estou me sentindo meio vazio. Os últimos dois anos foram decepcionantes do ponto de vista esportivo, mas aconteceram muitas coisas na minha vida e nesse sentido tudo foi muito importante. E tem coisas muito importantes que posso fazer além de pilotar. Obrigado a todos, vou sentir falta de vocês, foi realmente um prazer.”
Foi um prazer para nós, Seb.
