Blog do Flavio Gomes
F-1

EXISTE GP EM SP (18)

SÃO PAULO (29°C lá fora, 56,9°C no asfalto) – Sempre venho cedo para Interlagos em fim de semana de GP por causa do trânsito etc. Nos tempos de rádio, 6 da manhã o bonito estava de microfone na mão falando do público, do tempo, da chegada dos pilotos e das celebridades, aquelas coisas para encher […]

Saga da entrada: Ferrari, sempre a Ferrari, quebrou

SÃO PAULO (29°C lá fora, 56,9°C no asfalto) – Sempre venho cedo para Interlagos em fim de semana de GP por causa do trânsito etc. Nos tempos de rádio, 6 da manhã o bonito estava de microfone na mão falando do público, do tempo, da chegada dos pilotos e das celebridades, aquelas coisas para encher linguiça até a hora da largada, que era mais cedo.

Hoje em dia não preciso mais abrir os portões do autódromo, a corrida começa às 15h, moro mais ou menos perto, se traçada uma linha reta entre Interlagos e Bacabal, no Maranhão, esta tangenciará minha rua, saí exatamente às 8h47, conheço alguns caminhos que, se não são alternativos, ao menos me tiram da avenida Interlagos, que é sempre um problema, liguei o rádio, acendi um cigarro e fui.

Aqui vale um par de parênteses, que não serão abertos nem fechados, é só modo de falar. Desde tempos imemoriais, quando bigas davam voltas entre os lagos puxados por equinos musculosos, há uma faixa reversível para veículos credenciados que leva ao acesso ao portão 7, onde entra todo mundo, que sempre funcionou muito bem. Sucede que, de uns anos para cá, vans com vidros escuros procriaram numa taxa assustadora, proporcional aos lugares vendidos para áreas comumente chamadas de VIP, muitas delas sobre os boxes, entre as curvas, sob tendas árabes, tribunas abastecidas com acepipes e beberagem sortida. Essa gente importante gosta de ser desembarcada a poucos metros de onde se refestelará, portanto que ninguém os despeje no portão de entrada, subjugando-os a longas caminhadas que podem chegar a meia légua. Essa proliferação de furgões inviabilizou a faixa reversível, e é por isso que quando venho para cá contorno o que me parece ser um braço do rio Pinheiros, mergulho nos confins da zona sul e chego pelos fundos do kartódromo, desviando de ambulantes que vendem bonés falsificados (30 reais, segundo o Fábio Seixas), camisetas falsificadas, bebidas falsificadas, espetinhos falsificados e esperanças idem — havia um grupo de patriotas na praça Enzo Ferrari protestando contra a ascensão do comunismo ao poder, em quantidade não muito expressiva, talvez duas dezenas, pouco mais, pouco menos, é o que me disseram.

E corria tudo bem, com um total de 27 minutos até o ponto em que a avenida Jangadeiro — adoro o nome –, que circunda o autódromo, se encontra com a Senador Teotônio Vilela, justa homenagem ao menestrel de Alagoas, que, saibam vocês, é o endereço formal do complexo esportivo onde estão abrigadas a pista de corridas e algumas quadras de futebol de salão. Ali, normalmente, vira-se à direita e pronto, o lendário portão 7 se descortina e está tudo bem.

Mas a Senador Teotônio Vilela está bloqueada, o que é normal nesses eventos, então foi preciso avançar mais um quarteirão para pegar um trechinho da avenida Interlagos, direita, direita de novo e esquerda logo a seguir, e divisa-se o portão 7, mítico e acolhedor, e está tudo bem.

Não estava. Notei, ao apontar na avenida Interlagos, que a faixa reversível, que vem do outro sentido, estava apinhada de vans. Folguei de não ter de encarar aquela fila graças ao roteiro de baixo clero pelo qual sempre venho para cá. Minha entrada seria bem mais ágil. Ocorre que naquele momento, naquele exato momento, uma manada de cavalos rampantes nas cores vermelha (muitos), amarela (bastantes), preta (menos) e branca (raros) chegava ao autódromo para o que parecia ser um desfile monomarca conduzido por milionários orgulhosos de suas montarias.

Coloquei-me entre uma e outra, pois que o acesso dar-se-ia pelo mesmo portão 7, o quimérico, que nos conduziria a um túnel por baixo da pista, de onde nos observa o busto de José Carlos Pace, modesto, em nada parecido com a cabeçorra de Ayrton Senna instalada não muito longe dali, com seus três metros e meio de altura, 550 kg de massa cromada, e que em muito lembra as feições da pistoleira Carla Zambelli.

Aquele trajeto, sob o túnel até o estacionamento que fica na antiga Curva do Sol, percorre-se em tempos de paz em dois ou três minutos.

Levei uma hora.

Meu carro tem motor dois tempos, que não gosta muito de ficar parado, menos ainda debaixo de sol. É preciso acelerar o tempo todo para que as velas não encharquem, o que compromete todo o conjunto — o motor morre e para pegar de novo é preciso orar e ser gentil nas súplicas ao próprio carro, que devem ser feitas em voz baixa e tom carinhoso.

Procurei saber, com operadores do trânsito que iam e vinham a pé vestindo coletes fosforescentes onde se lia “staff”, o que se passava logo após a saída daquele túnel, que eu já tinha atravessado — e, por isso, de sua sombra não desfrutava; antes, restava sob a implacável ação solar, já que ali estávamos parados havia muito tempo. O congestionamento, supunha, já deveria alcançar a marginal do rio Tietê, talvez chegasse a Campinas, passasse por Minas atingindo a Bahia, quiçá resvalando nas franjas de Sergipe.

“Uma Ferrari quebrou”, informou o agente.

Uma Ferrari quebrou.

Uma Ferrari quebrou e nenhuma alma conseguia tirá-la de onde estancou, jumento teimoso que nada nem ninguém convencia a se mover, e por isso foi preciso providenciar um reboque, enquanto o tráfego, daquele ponto logo depois do túnel até o litoral do Ceará, permanecia imobilizado à espera da remoção.

Como na autoestrada de Cortázar (Google, queridos e queridas), dos mais belos contos jamais escritos, em determinado momento, sem maiores explicações, a fila voltou a andar, lentamente, é verdade, os carros vermelhos, amarelos, pretos e brancos se espalharam, minhas velas encharcaram, efetivamente, e demandou algum trabalho e habilidade com motores de três cilindros para conseguir chegar com meu pobre automóvel ao local onde ficará até o fim do dia, descansando da estafante jornada.

Depois fui ao paddock, encontrei alguns amigos e tirei umas fotos.

E para não dizer que não tenho informação alguma de relevância, faz sol e calor, não há nenhuma perspectiva de chuva, Emerson Fittipaldi vai dar a bandeira quadriculada 50 anos depois de disputar um GP no Brasil pela primeira vez, Tsunoda vai largar dos boxes, os pilotos estão desfilando em carros conversíveis neste momento (Pérez num Fusca, Vettel num Rolls Royce dirigido pelo Mick Schumacher) e por enquanto é tudo que sei.