Blog do Flavio Gomes
F-1

EXISTE GP EM SP (19)

SÃO PAULO (foi bom, não foi?) – A Fórmula 1 tem mais um piloto para colocar na sua lista de vencedores. George Russell ganhou o GP de São Paulo e deu à Mercedes sua primeira vitória no ano. Com direito a festa completa para o time alemão: Lewis Hamilton chegou em segundo para fechar a […]

George Russell: 113º piloto a vencer na F-1

SÃO PAULO (foi bom, não foi?) – A Fórmula 1 tem mais um piloto para colocar na sua lista de vencedores. George Russell ganhou o GP de São Paulo e deu à Mercedes sua primeira vitória no ano. Com direito a festa completa para o time alemão: Lewis Hamilton chegou em segundo para fechar a dobradinha prateada. Com a Ferrari, Carlos Sainz foi o terceiro.

A prova de Interlagos foi divertida, teve toque entre Verstappen e Hamilton no início, punição ao bicampeão, recuperação bonita do inglês, papelão da Red Bull com Pérez na escolha dos pneus, atuação exuberante de Alonso – de 17º no grid para quinto no final –, duas entradas de safety-car e nada de chuva.

Vamos a ela, então.

Magnussen, fora na primeira volta: enorme decepção

Com 23,6°C de temperatura, sol e céu azul, quente mesmo estava o asfalto na hora da largada: 50,1°C. A escolha de pneus não foi unânime. Os quatro primeiros no grid foram de macios – duplas de Mercedes e Red Bull. A Ferrari optou por colocar médios nos carros de Leclerc e Sainz, assim como a Haas com seus dois pilotos. Até pneus duros foram usados, por Alexander Albon, da Williams.

Russell e Hamilton largaram muito bem, trazendo Verstappen e Pérez logo atrás. Mas já na primeira volta, na freada do antigo S pós-Laranjinha, um acidente motivou a chamada do safety-car: Daniel Ricciardo tocou na traseira de Kevin Magnussen, que rodou e bateu de volta em seu algoz. Os dois abandonaram tristemente. O australiano, porque vai se despedindo da F-1 melancolicamente; o dinamarquês, porque teve uma sexta-feira de sonho, com a pole-position mais surpreendente dos últimos tempos, e não pôde desfrutar sequer de uma volta completa no GP que entrou para sua história pessoal.

Magnussen ficou tão chateado, para não dizer absolutamente irado e inconformado, que sequer entrou no carro médico que levaria os dois pilotos de volta aos boxes. O piloto da McLaren foi sozinho. O da Haas ficou encostado no guard-rail, no meio do gramado, segurando o capacete.

A prova foi retomada no final da sexta volta. E treta de novo. Na freada para o S do Senna, Verstappen e Hamilton se tocaram e foram se esfregando até a entrada do Sol. O holandês da Red Bull perdeu parte da asa dianteira. No Laranjinha, Norris bateu em Leclerc, que rodou, bateu de leve nos pneus e conseguiu voltar à pista. Max foi para ao boxes, trocou o bico, colocou pneus médios, xingou o rival e Hamilton, que estava em segundo, caiu para oitavo.

Lewis partiu para a recuperação, enquanto na frente Russell, Pérez, Sainz e Norris se mandavam. Rapidamente o #44 passou por Schumacher e Gasly, e na volta 11 já estava em sexto, atacando Vettel. Pouco depois, os comissários anunciaram punições: 5s para Verstappen e para Norris, ambos considerados causadores de seus respectivos sinistros com Hamilton e Leclerc. “Não tinha espaço para ele”, resmungou Max pelo rádio. “Foda-se.” Na verdade, ele disse “não importa”, mas foda-se é mais eloquente. E concordo com sua irritação. Minha impressão foi de que Lewis fechou a porta acintosamente na cara do rival na segunda perna do trecho que leva o nome do brasileiro tricampeão mundial.

Alonso e Ocon: ótimos pontos para a Alpine

Na volta 16, Hamilton já aparecia em quarto, depois de deixar Vettel e Norris para trás sem muita dificuldade. Na 18ª, Sainz foi para os boxes para colocar pneus macios e caiu de terceiro para 11º. A explicação para pit stop tão precoce: uma sobreviseira enganchou no duto de freio traseiro direito de seu carro, e ele precisou parar para remover o lixo.

Com 20 voltas, Russell e Pérez seguiam em primeiro e segundo com a diferença entre os dois oscilando na casa dos 2s. Hamilton, em terceiro após a parada de Sainz, imprimia um ritmo forte para não deixar a dupla sumir de seu campo visual. Para Checo, a diferença era de 6s7. O mexicano parou na volta 24 e colocou pneus médios. Voltou em sexto, no meio do tráfego, atrás de Bottas e Norris. Perdeu algum tempo. Russell parou na volta seguinte e quando retornou, estava em segundo, atrás de Hamilton. Com a corrida na mão.

Fora da briga, lá no fundão, Verstappen fez sua segunda parada, pagou a multa de 5s e voltou apenas para cumprir tabela. A prova estava entre os pilotos da Mercedes e, eventualmente, Pérez. Hamilton, na liderança e sem trocar pneus, percebeu que nuvens escuras se aproximavam da região do autódromo e perguntou se ia chover.

Na falta de um meteorologista de plantão, a Mercedes preferiu chamá-lo para os boxes e espetar um jogo de pneus médios em seu carro na volta 29. Voltou em quarto, atrás de Russell, Pérez e Sainz, 15s atrás do líder. Alonso, Bottas, Vettel, Ocon, Gasly e Norris completavam a lista dos dez primeiros.

Com todos de pneus trocados e punições pagas, foi aquele momento em que a prova se acomodou um pouco. Russell tinha mais de 5s sobre Pérez, que por sua vez via Sainz a mais de 3s de distância, diferença parecida entre o espanhol da Ferrari e Hamilton. O sol tinha desaparecido, como notara Lewis pouco antes, e a temperatura caíra para 22°C. Chuva, porém, nada.

Sainz fez sua segunda parada na volta 37, colocou pneus médios e voltou em quarto. Se nada de errado acontecesse com ele, a meta era um pódio assim que Hamilton parasse de novo, também. Quem estava preocupada era a Red Bull, com o ritmo pouco entusiasmante de Pérez, em segundo: Russell se afastava dele, na liderança, e Hamilton se aproximava, em terceiro. “Plano B”, decidiu a equipe. Qual era exatamente, o futuro diria.

Fosse qual fosse o plano B, teria de ser colocado em prática logo. Na abertura da volta 45, Hamilton passou pelo mexicano na reta dos boxes e assumiu a segunda posição. Russell estava 9s9 à frente dele. Registre-se que, nesse momento, Verstappen, de quem já havíamos nos esquecido, estava em sexto.

A Red Bull chamou Pérez para a derradeira parada na volta 48. Mas colocou médios em seu carro, não macios. Hamilton parou na seguinte e a Mercedes optou pelos macios. Voltou à frente do mexicano. Por fim, na volta 50, Russell fez seu último pit stop. Macios, também.

Russell, Sainz, Hamilton e Pérez eram os quatro primeiros para a fase final da prova. Os dois da Mercedes com pneus macios, o ferrarista e o rubro-taurino com médios. O espanhol sofreria mais que os outros, porque tinha pneus mais desgastados – seu segundo pit stop fora feito bem antes.

Max para cima de Pérez: treta na equipe

Aí Lando Norris quebrou, parou no Bico de Pato e um safety-car virtual foi acionado, na volta 54. Sainz aproveitou e trocou pneus pela terceira vez no dia. Caiu para quarto, mas pelo menos teria uma borracha mais veloz para buscar, ao menos, um pódio. A dobradinha da Mercedes estava desenhada. E a direção de prova resolveu dar emoção à corrida, colocando na pista o safety-car de verdade enquanto o McLaren de Norris era recolhido ao pátio. A volta: 56.

O safety-car foi excelente para Hamilton, que estava mais de 10s atrás de Russell. E para Sainz, com pneus melhores que Pérez. O pelotão se juntou e George perguntou pelo rádio quais seriam “as regras”. Em outras palavras: “Gente, eu mereço ganhar, não?”. A Mercedes respondeu apenas que ele e seu companheiro estavam livres para fazer o que bem entendessem. Desde que fossem “respeitosos”.

OK, então.

Russell, Hamilton, Pérez, Sainz, Bottas, Leclerc, Vettel, Ocon, Alonso e Verstappen eram os dez primeiros na fila indiana se preparando para a relargada. Candidatos à vitória à parte, Valtteri era o cara da corrida, em quinto com seu bigodão de ator pornô. E Ocon x Alonso era um duelo promissor.

As bandeiras verdes foram mostradas na abertura da 60ª volta e Jorginho não deu moleza. Relargou como um foguete e escapou do assustador parceiro. Alonso, que trocou pneus no safety-car, veio jantando quem via pela frente e ganhou três posições em uma volta. Pérez se sustentava à frente das duas Ferrari do jeito que dava.

E não deu por muito tempo. Sainz passou na 63, por fora, no Lago. Foi para terceiro. Leclerc também superou o mexicano e subiu para quarto. Verstappen, recolocado na corrida graças ao safety-car, se divertia passando gente – uma ultrapassagem dupla sobre Ocon e Bottas foi daquelas para colocar no DVD de melhores momentos.

Com seus inexplicáveis pneus médios, Pérez foi superado em seguida por Alonso, que fazia um corridão, e, creiam, Verstappen. O plano B da Red Bull para Checo foi brilhante: de terceiro para sétimo em quatro voltas. E o mexicano ainda pediu para Max lhe dar a posição de volta, em nome da briga pelo vice-campeonato. O holandês se recusou. Amanhã trago detalhes no “Sobre ontem…”.

Primeira dobradinha inglesa desde Canadá/2010: God save the King

Com muita personalidade, Russell não deu a menor chance a Hamilton de tentar alguma coisa e viu a bandeira quadriculada ser agitada por Emerson Fittipaldi para vencer o GP de São Paulo. Lewis terminou 1s5 atrás e Sainz fechou o pódio. Leclerc, Alonso, Verstappen, Pérez, Ocon, Bottas e Stroll completaram a zona de pontos.

Russell chorou com a equipe pelo rádio e ao abraçar seus mecânicos, e quando tirou o capacete estava com os olhos vermelhos. Na primeira entrevista pós-vitória, se disse “sem palavras”. “Vem tudo à cabeça, as lembranças, o tempo no kart, meu pai e minha mãe, as oportunidades que tive com a Mercedes, a Williams, é muito emocionante”, falou.

Russell é o 113º piloto a ganhar uma corrida na F-1 e o 20º britânico a entrar na lista. Hamilton segue correndo por um tempo, já se sabe, mas é igualmente sabido que a coroa da Mercedes já tem sucessor. George é muito, muito bom. Em sua primeira temporada pelo time que o mantém sob contrato desde 2017, se mantém à frente de um heptacampeão mundial desde a segunda etapa da temporada. Não é para qualquer um.

A temporada de 2022 acaba domingo que vem em Abu Dhabi. Ufa.