Blog do Flavio Gomes
F-1

CANADA WET (2)

SÃO PAULO (um pouco tarde, admito) – Max Verstappen reinou no caos. Conseguiu a pole para o GP do Canadá hoje em Montreal em condições que costumam enlouquecer pilotos mais afoitos. Não é seu caso, claramente. O holandês da Red Bull, entre outras qualidades, sabe guiar na chuva. Sabe, também, a hora certa de ir […]

Verstappen acena para a torcida: 25 poles, cinco neste ano

SÃO PAULO (um pouco tarde, admito) – Max Verstappen reinou no caos. Conseguiu a pole para o GP do Canadá hoje em Montreal em condições que costumam enlouquecer pilotos mais afoitos. Não é seu caso, claramente. O holandês da Red Bull, entre outras qualidades, sabe guiar na chuva. Sabe, também, a hora certa de ir para a pista quando percebe que ela está ficando cada vez mais molhada. Não comete erros. Não desperdiça oportunidades. Não se apavora com pouco. Foi sua quinta pole no ano, 25ª na carreira. Como a previsão é de tempo seco para amanhã, é muito favorito a mais uma vitória no Mundial. Aqueles que deveriam ser seus adversários, hoje, brigam entre eles. Num outro campeonato.

Verstappen terá a seu lado na primeira fila Fernando Alonso. Era para ser outro, o vizinho de colchete: um herói improvável, Nico Hülkenberg, da Haas. Mas ele foi punido, coitado, horas depois da classificação. Perdeu três posições no grid. O motivo: não saber lidar com o caos. No Q3, quando faltavam sete minutos para o final, Oscar Piastri, da McLaren, bateu. Hulk tinha acabado de fechar sua volta e ia abrir outra, quando a bandeira vermelha foi acionada e interrompeu a sessão.

Hulk, Max e Fernandinho: o alemão da Haas acabou perdendo o 2º lugar

Nesses casos, os pilotos têm um delta mínimo de tempo que precisam respeitar em vários trechos da pista. Têm de tirar o pé do acelerador, em resumo. O alemão se atrapalhou e no primeiro trecho acelerou demais. Para compensar, quase parou o carro no segundo. Não tem crédito e débito de velocidade nessa situação. Em caso de bandeira vermelha, a direção de prova estabelece uma velocidade média segura para que todos voltem aos boxes. Se o cara taca o pé num trecho e estoura o limite, não pode andar em ritmo de cágado no trecho seguinte para neutralizar a infração. Ambas as atitudes são consideradas perigosas.

Como as condições eram confusas, com chuva, água para todo lado, neblina, sirenes nas encostas, navios naufragando e soltando sinalizadores, avisos sonoros na orelha do piloto e gritaria pelo rádio, os comissários julgaram que Hülkenberg tinha lá algumas atenuantes para se atarantar. E em vez de cravarem dez posições no grid para ele, pena mais comum nesses casos, deram apenas três. Caiu de segundo para quinto. O espanhol da Aston Martin, esse do sorriso mais largo na foto acima, herdou a posição.

Antes, bem antes da punição a Hulk, outro piloto já havia perdido três posições no grid, como o veterano da Haas. Foi Carlos Sainz, da Ferrari, que no Q1 atrapalhou Pierre Gasly de forma grotesca. Caiu de oitavo para 11º. O francês da Alpine teve prejuízo bem maior: não passou ao Q2. Considerando que seu companheiro Esteban Ocon larga em sexto, pode-se imaginar o tamanho da irritação de Gasly. Pelo rádio, ainda, xingou todas as gerações da família Sainz, esconjurou a Espanha e os espanhóis e berrou que ele deveria ser banido da F-1, quiçá do planeta.

Ao saber do chilique do colega, mais tarde, Sainz falou que Pierre devia estar pilhado demais e que ele mesmo, Carlos, já havia sido atrapalhado sete vezes no passado. “Nem por isso saí por aí gritando no rádio [que nem uma franga desossada]”.

(Os colchetes são parte de minha incansável jornada pelas traduções livres e interpretativas de declarações de pilotos de F-1. Aqui a verdade se eleva, doa a quem doer.)

Como os comissários puniram mais dois pilotos com três posições no grid (Lance Stroll por atravancar Ocon no Q2; Yuki Tsunoda por prejudicar Hulk no Q1), julgo pertinente publicar de imediato o grid corrigido para orientar nossa leitura a partir de agora.

O grid para o GP do Canadá, já com as punições: algumas surpresas

Notem que a imagem foi surrupiada de um site de língua espanhola, pois só no idioma de Cervantes, Mujica e Fidel usa-se “dorsal” para “número da porra do carro”. Mas gosto de “sanción”, por isso escolhi o quadro que alguns haverão de julgar pouco atraente do ponto de vista estético. Refuto categoricamente as críticas. Era assim que a gente fazia na arte da “Folha” há mais de 30 anos, usando grisè — que vinha a ser uma película adesiva cinza translúcida, talhada no estilete para separar linhas em gráficos como esse. Sejamos gratos ao grisè pelos serviços prestados.

Foi um sábado babélico, este de Montreal. Por causa da chuva, basicamente. Já no terceiro treino livre ela veio com alguma intensidade, embora não tenha causado grandes transtornos. O único que bateu de jeito foi Sainz, na metade da sessão. Verstappen, como vem acontecendo há séculos, terminou a prática em primeiro.

A classificação começou com a pista bem molhada, também, mas sem a chuvarada de horas antes. Por isso, o uso dos pneus intermediários foi mandatório. Tirando uma bandeira vermelha causada por breve soluço de Guanyu Zhou na saída dos boxes — o carro acabou pegando e ele conseguiu voltar à garagem sem contar com ajuda externa –, pouco de especial aconteceu no Q1. Sim, houve o justo faniquito de Gasly, mas nada que alterasse o câmbio do dólar canadense. E, também, um interessante duelo de tempos entre Verstappen e Alonso, os dois únicos que pareciam se entender com o asfalto molhado naquele momento. No fim, Max ficou na frente: 1min20s851.

Tolhidos foram nessa parte da classificação, por obterem tempos ordinários, Tsunoda, Gasly, Nyck de Vries, Logan Sargeant e o recém-citado chinês da Alfa Romeo, na última colocação.

Veio então o Q2, que foi a parte mais divertida da classificação. Isso porque a pista começou a secar, com um trilho formado pela passagem frequente de carros velozes com pneus gigantescos. E alguém resolveu arriscar os pneus macios para pista seca. Esse alguém foi Alexander Albon, da Williams, que para espanto geral fez uma volta em 1min18s725, causando alvoroço nos boxes.

Foi uma loucura, todos os pilotos pedindo pneus slicks para seus carros, ordenando a troca imediata, implorando por pressa dos mecânicos, enquanto engenheiros no pitwall se apavoravam com imagens dos radares meteorológicos que anunciavam, para dali a alguns minutos, um dilúvio de assustar Noé.

Mesmo assim, muita gente colocou os pneus lisos e se virou bem, como Verstappen, Lando Norris e Oscar Piastri, que ficaram atrás do episódico tailandês da pior equipe do grid. Outros, no entanto, enfrentaram um drama. Refiro-me a Charles Leclerc, educadíssimo piloto da Ferrari.

Com toda serenidade do mundo, o monegasco solicitou a colocação de tais pneus em seu flamejante automóvel. “A pista está seca, ragazzi“, anunciou, o tom de voz aveludado e tranquilizador. Pelo rádio, ouviu as primeiras ponderações. “Veja, Charles, o conceito de seca é bem relativo. Já leu Graciliano Ramos?” “Amici, não sei quem é Graciliano Ramos, estou falando do asfalto. Secou.” “Pois”, seguiu o engenheiro fazendo uma breve pausa. “Quando falamos de uma represa que abastece uma grande cidade, por exemplo, e o regime de chuvas é anômalo, muitas vezes usamos a mesma expressão que você: a represa secou. Mas basta ir à represa para notar que ela não secou. OK, há pouca água. Menos do que deveria haver. É um risco para a população, sem dúvida. Mas seca, mesmo, não está. Atire uma pedra e ela fará tchibum. Por isso, é preciso relativizar sua definição de seco. Que tal desenvolvermos o tema?” Nesse momento, a cortesia habitual de Leclerc foi deixada de lado e ele gritou “seu filho da puta, enfia a represa no cu, coloca a merda desses pneus macios na bosta do meu carro e vá à puta que o pariu junto com o Sergio Ramos!”, no que foi corrigido (“é Graciliano, não Sergio, quem é Sergio?”, rebateu o engenheiro, sem se alterar), e quando colocaram os pneus macios em seu carro, a ilha de Notre-Dame já estava submersa.

Leclerc: confusão na Ferrari

Leclerc ficou no Q2, seguido por um apatetado Sergio Pérez, um aparvalhado Lance Stroll, um atônito Kevin Magnussen e um desatilado Valtteri Bottas. Todos, exceto Bottas, humilhados por seus companheiros de equipe, que avançaram diligentemente para o Q3.

Charles não se calou diante da derrocada, mais uma, da Ferrari. Em Barcelona, lembremo-nos, ficou em penúltimo no grid e até agora ninguém sabe o que aconteceu no carro. “Temos de ser melhores que isso”, falou o piloto. “Não foi a primeira vez. Sobre os pneus, eu dei a minha opinião. A pista estava seca. Mais do que isso, não posso fazer. Temos de conversar. Tá tudo errado. Quero minha mãe.”

Max, rei da chuva: mais uma pole

O Q3 foi de Verstappen. Puxou a fila sabendo que ser o primeiro a fazer volta quando a chuva aperta é sempre melhor, porque a tendência, óbvio ululante, é de piora da pista na medida em que mais água se deposita no asfalto. Fez 1min27s059 na primeira — já seria a pole –, 1min25s858 na segunda, Piastri bateu, a sessão foi interrompida, poucos conseguiram dar mais de uma volta como o piloto da Red Bull e a fatura estava liquidada, porque quando a pista foi liberada já não havia mais condição de baixar os tempos.

Max ainda deu uma volta com pneus de chuva extrema, só para sentir o desempenho com esse modelo (na foto acima, está com eles), voltou aos boxes e foi abraçar a equipe, como tem feito com frequência.

Como já visto no quadro de tempos lá no alto, Alonso larga em segundo e a dupla da Mercedes forma a segunda fila, com Lewis Hamilton e George Russell. Hülkenberg, deslocado para quinto, terá Ocon ao seu lado em sexto com Norris, Piastri, Albon e Leclerc fechando as dez primeiras posições. Albon, que brilhou no Q2, ficou sem tempo porque ia abrir sua volta quando veio a bandeira vermelha da batida de Piastri.

Não deve chover amanhã, segundo os pajés locais. Por isso, imagens como as do ensaio abaixo, batizado de “I’m singing & racing in the rain”, não se repetirão. No seco, Verstappen é grande favorito. No molhado, caso chova, também. Mas no molhado sempre pode acontecer alguma merda. Sem água, raramente. Ao menos com ele. Max deve, amanhã, se igualar a Ayrton Senna com 41 vitórias na carreira. E a Red Bull, ganhando, chega a 100 vitórias na F-1.

São marcos importantes, de ambos. Ninguém há de negar.

JACQUES, O MALA – Sexta-feira, Leclerc foi para o primeiro treino livre com um capacete igual ao de Gilles Villeneuve. Foram poucas voltas. No intervalo para o TL2, Jacques, filho de Gilles que está trabalhando como comentarista, foi a Leclerc e disse que ele não podia usar um capacete igual ao do pai sem antes falar com a família. Charles não usou. Mas telefonou de noite para Melanie, irmã de Jacques que cuida dos direitos de imagem do ex-piloto canadense, ídolo ferrarista morto em Zolder em 1982. E pediu autorização. Que foi dada, claro. Além disso, a Ferrari convidou Melanie e a mãe, Joann, para ir ficar nos boxes durante o GP. Jacques, mala que só ele, seguiu resmungando. “Não se pode associar uma marca a outros patrocinadores assim, sem mais nem menos. Foi só isso que disse a ele. Agora as coisas foram esclarecidas.” Vá à merda, Jacques.