Blog do Flavio Gomes
F-1

SOBRE ONTEM DE MADRUGADA

A IMAGEM DA CORRIDA SÃO PAULO (tá valendo) – Li e ouvi muita coisa sobre um certo “boom” da F-1 na China depois de cinco anos sem corrida. Que o público antes não era grande coisa, que neste ano tudo foi incrível, divino e maravilhoso. Devagar com o andor. Um enorme setor de arquibancadas segue […]

A IMAGEM DA CORRIDA

Zhou diante de seu público: fofo

SÃO PAULO (tá valendo) – Li e ouvi muita coisa sobre um certo “boom” da F-1 na China depois de cinco anos sem corrida. Que o público antes não era grande coisa, que neste ano tudo foi incrível, divino e maravilhoso. Devagar com o andor. Um enorme setor de arquibancadas segue fazendo a função de outdoor gigante lá pelos lados da grande reta. Não vi na transmissão oficial nenhum anúncio pirotécnico de recorde de público. Não sei quantas pessoas estiveram no autódromo, mas pelo que consegui encontrar na imprensa chinesa de língua inglesa, em texto sem citação de fonte, foram cerca de 60 mil torcedores. Interlagos recebe mais gente.

Estava mais cheio do que a gente consegue se lembrar? Aparentemente sim. E a razão é Guanyu Zhou, o moço da Sauber que, ao final da corrida, depois de um discretíssimo 14º lugar, ganhou dos organizadores e dos puxa-sacos da Liberty a primazia de estacionar no grid para saudar o público. Ironia, Lando Norris, o segundo colocado, parou nos boxes — esqueceu que tinha de levar o carro para o meio da reta, como fazem sempre os três primeiros em cada GP.

Zhou é o primeiro chinês da F-1. Consequentemente, o primeiro chinês a correr na China, como também o primeiro chinês a correr em todos os outros países do calendário. Não é nada de mais, nem de menos. Um piloto apto a estar na categoria, provavelmente melhor do que um ou dois no grid atual. Mas é chinês. E em todos os países, especialmente aqueles mais distantes do universo do automobilismo ocidental, os torcedores locais se orgulham de ver um representante na pista.

É o caso da China, que não tem corrida de coisa nenhuma, até outro dia nem automóvel fabricava — quando estive lá pela última vez, em 2008, só tinha Santana na rua; sim, Santana da Volkswagen, como os nossos. As coisas acontecem de modo muito acelerado na China, hoje são os maiores fabricantes de carros elétricos do mundo, empresas multinacionais se instalam lá, cidades brotam do nada, estão dominando o planeta graças à Shein e à Shopee. Por isso, um piloto chinês chegar à F-1 é mesmo uma façanha pessoal, e todo o crédito a Zhou, que 20 anos atrás, garotinho, viu a categoria em seu país pela primeira vez. É uma bela jornada, sem dúvida.

Temos o mau hábito de tratar com desdém pilotos de países que nós, ocidentais branquinhos e cheirosos, consideramos exóticos. Principalmente se não falam inglês e têm olhinhos puxados. Tem sido assim, historicamente, com todos os japoneses. Mas nos esquecemos que o Japão tem um automobilismo forte e já produziu pilotos bons, sim. Da mesma maneira, do Japão saíram Honda, Bridgestone, Yamaha, Toyota, Kawasaki, Nissan, Suzuki, marcas envolvidas até a raiz no esporte a motor. OK, tivemos uns caras meio barbeiros, como Taki Inoue, Yuji Ide, Toranosuke Takagi, Sakon Yamamoto. Mas, até onde me lembre, Nicholas Latifi, Logan Sargeant, Nikita Mazepin e Mick Schumacher não bebem saquê quente, nem comem arroz com hashi. É tudo farinha do mesmo saco. Panko.

Quanto a Zhou, ele cumpre de maneira correta suas funções. E a homenagem a ele no grid não foi apenas uma atitude fofinha. A China é um mercado importante para a F-1. Por isso, não se espantem se ele ficar na Sauber-que-vai-virar-Audi no ano que vem.

Aliás, é onde a turma de Ingolstadt mais vende carros no mundo.

PONTOS – Aí estão as tabelas de pontuação da temporada depois de cinco etapas. E preparem-se: ano que vem, os 12 primeiros de cada GP deverão pontuar. Hoje são, como se sabe, os dez primeiros — sistema adotado em 2010, com ponto extra da melhor volta a partir de 2019 e pontos da corrida curta, a Sprint, a partir de 2021. A ordem é 25, 18, 15, 12, 10, 8, 6, 4, 2 e 1. O novo sistema prevê a mesma pontuação do primeiro ao sétimo. Do oitavo ao 12º teremos 5, 4, 3, 2 e 1. Para quê? Motivar mais carros no grid a buscarem pontos para não dependerem das posições “zeradas” para desempate. Atualmente, um piloto que faz um único ponto e abandona 23 corridas na temporada termina o campeonato à frente de outro que, por exemplo, termina 24 vezes em 11º. E acho que isso tem a ver com a possível chegada de mais uma equipe. O negócio da Andretti esfriou, mas o grupo acaba de inaugurar uma fábrica muito bonita na Inglaterra. Vão acabar se acertando. Acho.

SEM-VITÓRIA – Nico Hülkenberg tornou-se, na China, o piloto com mais GPs disputados sem conseguir uma vitória na F-1. Ele, agora, está empatado com Andrea de Cesaris (1959-2014). São 208 provas no lombo e nenhum triunfo. O italiano, pelo menos, conseguiu cinco pódios na carreira. O alemão, nem isso. Seus melhores resultados foram três quartos lugares — Bélgica/2012 e 2016 pela Force India e Coreia do Sul/2013 pela Sauber. Apesar do currículo pouco emocionante, Hulk segue sendo cotado pela Audi para liderar seu projeto na F-1 caso as negociações com Carlos Sainz empaquem de vez.

PANELA VELHA – Fernando Alonso fez a melhor volta de um GP pela 25ª vez na carreira, empatando com Mika Hakkinen no top-10 da história nessa estatística. Estava empatado com Niki Lauda. O recordista é Michael Schumacher, com 77. Entre os pilotos em atividade, quem tem mais é Lewis Hamilton, 65.

O NÚMERO DA CHINA

26

…é o número de pistas diferentes nas quais Max Verstappen venceu na F-1. O recordista é Hamilton, que ganhou GPs em 31 circuitos. Das pistas que fazem parte do calendário atual, Max só não ganhou em Singapura.

Verstappen: vitórias em 26 circuitos

A FRASE DE XANGAI

“Aparentemente sou um idiota e foi culpa minha. Isso faz meu sangue ferver. Estou me segurando para não dizer, mas vou: foda-se esse moleque!”

Daniel Ricciardo, sobre Lance Stroll
A batida de Stroll em Ricciardo: australiano não se conformou

Ricciardo até que fazia uma corrida honesta, com alguma chance de chegar nos pontos, quando foi abalroado por Stroll durante o safety-car. Não tem muito o que discutir: o canadense da Aston Martin estava desatento e fez barbeiragem — mais uma. Levou punição de 10s, assim como Magnussen, que bateu em Tsunoda, e Sargeant, que fez uma ultrapassagem sob safety-car. Lance cumpriu num pit stop, enquanto os outros dois tiveram o tempo acrescido ao final da corrida. Ricciardo, coitado, vai carregar três posições no grid da próxima etapa, por ter feito uma ultrapassagem com safety-car na pista. Como não terminou a prova, terá de cumprir o pênalti em Miami.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS do segundo lugar de Lando Norris, que fez apenas uma parada e conseguiu administrar muito bem o desgaste de pneus. O inglês da McLaren também foi bem no sábado ao fazer a pole para a Sprint, embora não tenha aproveitado muito — chegou em sexto. De qualquer forma, terminou o fim de semana com 21 pontos, o mesmo que Pérez e menos apenas do que Verstappen, que marcou 33. Piastri, seu companheiro, fez só seis. Não à toa, Norris ganhou o prêmio de Piloto do Dia do amigo internauta.

NÃO GOSTAMOS da Ferrari, que pela primeira vez no ano não chegou ao pódio, embora tenha conseguido uma boa pontuação (31, contra 54 da Red Bull) graças à Sprint. A equipe esperava mais. De qualquer forma, segue em segundo na classificação com alguma folga: 151 pontos, contra 96 da McLaren, a terceira colocada.