SÃO PAULO (impressionante) – Max Verstappen igualou hoje em Ímola um recorde que já tem 35 anos na F-1. Fez a sétima pole-position em sete corridas neste ano e chegou a oito consecutivas, contando a última da temporada de 2023, em Abu Dhabi. A marca de oito seguidas só tinha sido conseguida uma vez na história da categoria, por Ayrton Senna. O brasileiro, então na McLaren, fez a sequência entre os GPs da Espanha de 1988 e dos EUA de 1989.
O holandês, de quebra, igualou outra marca bem duradoura, de sete poles nas sete primeiras corridas de um campeonato. O dono isolado desse recorde, agora dividido com Verstappen, era Alain Prost. Pela Williams, o francês conseguiu o feito em 1993.
Foi uma linda classificação, essa para o GP da Emilia-Romagna. Porque mostrou como uma equipe e um piloto são capazes de virar um jogo que parecia perdido na véspera. Verstappen e a Red Bull começaram muito mal o fim de semana, andando mais de meio segundo atrás da Ferrari e da McLaren, sem grandes perspectivas de mudança. Max, nos dois treinos livres da sexta e também no primeiro de hoje, comeu o pão que o diabo amassou. Teve de domar um carro instável e imprevisível, cometeu erros incomuns, quase bateu mais de uma vez, mas no último instante foi buscar o que lhe era de direito. Das 39 poles de sua carreira, talvez tenha sido a mais difícil de todas.
Então, vamos contar mais um capítulo da incrível carreira desse rapaz que é uma máquina de correr de carro.
O sábado ensolarado de Ímola apontava nos termômetros 24°C e 43°C no asfalto, temperatura que sempre preocupa um pouco por causa das janelas limitadas de funcionamento dos pneus.
O Q1 foi interessante. Se é verdade que Verstappen e a Red Bull melhoraram bem em relação aos treinos livres, era claro também que teriam concorrência, desta vez. McLaren e Ferrari vinham mostrando velocidade desde os primeiros treinos e não negaram fogo. Os carros vermelhos ainda se deram ao luxo de sair com pneus médios. E fizeram voltas bem convincentes, a menos de 0s2 dos líderes Norris, Piastri e Max — os três, com pneus macios, disputaram os melhores tempos.
Ao final do primeiro segmento da classificação, Bottas, Zhou, Magnussen, Alonso e Sargeant foram os eliminados. E Nico Hülkenberg apareceu nos últimos segundos com uma volta espetacular para assumir a primeira colocação. Logo depois Verstappen o superou por 0s079, com 1min15s762. Leclerc também passou o alemão da Haas e foi para segundo, ainda com pneus médios. Por conta da diferença de borracha, o monegasco colocava-se como candidato à pole, com seu companheiro Sainz correndo por fora. Tsunoda em quarto e Gasly em oitavo foram as outras surpresas do Q1. E Hamilton bateu na trave, passando em 15º.
Nota de rodapé para Alonso: o espanhol bateu no último treino livre e a Aston Martin trabalhou loucamente para aprontar seu carro a tempo para a classificação. Ele conseguiu ir à pista faltando seis minutos para o fim do Q1 e já na primeira tentativa foi parar na brita. Parecia um novato ansioso para mostrar serviço. No fim, não conseguiu nenhuma volta decente e vai largar na última fila. É a terceira vez no ano que larga atrás de seu companheiro Stroll, que não é lá essas coisas. No ano passado, ele tomou tempo do parceiro três vezes no campeonato inteiro.
No Q2, a primeira volta voadora de Verstappen foi cronometrada em 1min15s386. Um espanto, considerando o tanto que o RB20 estava indócil ontem. Leclerc conseguiu bater o holandês por 0s058 e, na sequência, creiam, Tsunoda também. Como estavam todos muito próximos, tudo indicava que ia ter briga, mesmo: de Leclerc, o líder até ali, a Piastri, o quarto, apenas 0s079 de diferença.
Mas, no final, Verstappen passou a régua de novo e virou 1min15s176, deixando Charlinho em segundo e Tsunoda em terceiro. O vexame, sempre tem um, foi de Pérez: abriu a fila dos degolados em 11º, seguido por Ocon, Stroll, Albon e Gasly. “Que tragédia”, disse o mexicano pelo rádio, depois de uma volta tenebrosa voando por cima de todas as zebras de Ímola e perdendo tempo em todas elas.
Na mureta da Red Bull, todo mundo concordou com ele em silêncio.
Com a Aston Martin distante da briga e Checo decepcionando, o grupo dos dez primeiros que avançou ao Q3 contou com as duplas de McLaren, Ferrari, Mercedes e Se Der Pra Parcelar Eu Quero. Red Bull e Haas seguiram adiante com um piloto cada. Aqui, vale uma menção a Hulk. Os executivos da Audi devem estar muito felizes. Acertaram no alvo ao contratar o veterano já para o ano que vem, quando começa a transição da Sauber para a montadora das quatro argolas.
Verstappen foi o primeiro dos favoritos a sair dos boxes no Q3. Fez 1min14s869, um temporal. Norris ficou perto, a 0s073 dele. A Ferrari, de quem muito se esperava, não impressionou: Leclerc em terceiro, Sainz em quinto. Na segunda leva de voltas rápidas, ambos teriam de operar algum milagre. Milagre que Max já tinha feito, diante da desgraça que estava seu carro na abertura dos trabalhos em Ímola.
E o tricampeão repetiu a dose. Baixou seu tempo mais ainda, para 1min14s746, em sua segunda volta voadora. Contou com um vácuo camarada de Hülkenberg que pode ter sido decisivo. A Ferrari não chegou nem perto. A McLaren, sim. Piastri ficou em segundo, com Norris em terceiro. O australiano, a apenas 0s074 do #1 da Red Bull; o inglês, vencedor da última corrida em Miami, a 0s091. Leclerc ficou em quarto, 0s224 atrás do pole. Foi seguido por Sainz, a 0s487. Depois vieram Russell, Tsunoda, Hamilton, Ricciardo e Hülkenberg fechando o top-10.
Pouco depois da classificação, Piastri foi punido por atrapalhar Magnussen no Q1 e perdeu três posições no grid, caindo para quinto. Norris, Leclerc e Sainz ganharam uma posição cada.
Max, que não costuma comemorar poles com muito entusiasmo, vibrou mais do que o normal ao sair do carro. Sabia que ele e sua equipe tinham sacudido a poeira e dado a volta por cima graças à criatividade de seus engenheiros e ao talento assombroso de seu piloto.
“Realmente o fim de semana estava muito difícil até hoje de manhã”, admitiu Verstappen. “Eu não esperava [a pole]. Mexemos em algumas coisas antes da classificação e deu certo. Foi tudo muito no limite. É um grande começo de temporada e é muito especial igualar essa marca [de Senna] aqui, 30 anos depois do acidente. É uma honra fazer o mesmo que ele, que era um piloto muito bom em classificação.”
Resumindo, Max hoje esteve à altura de Senna naquilo que o brasileiro tinha de melhor: buscar uma pole com a volta perfeita, ainda que improvável, às vezes. Foi o que fez Verstappen. Um monstro.
