A IMAGEM DA CORRIDA

SÃO PAULO (continua no próximo capítulo…) – A foto, esteticamente, não é grande coisa. Mas é a única que me chegou da batida que fará esse GP da Áustria ser lembrado no futuro. Depende um pouco, sua perenidade, de como serão as relações entre Verstappen e Norris daqui para a frente. E se eles serão, no porvir, rivais inconciliáveis. Em caso positivo, a memória dessa corrida será sempre resgatada: foi aí que tudo começou.
As discussões sobre o episódio seguem quentes, especialmente nas redes sociais. Dispenso. Mantenho tudo que disse ontem, aqui e no nosso programinha ao vivo no YouTube. Acontece. Bastante. De vez em quando o caçador abate a caça. Às vezes a presa se livra. É frequente que ambos saiam feridos. A turminha que está aprendendo a ver corrida agora e acha que a vida é igual a um videogame um dia vai entender.
Detalhe que não abordamos ontem. Norris tinha sido punido com 5s por ter excedido os limites da pista mais de três vezes. Se não cumprisse na corrida, perderia posições no grid em Silverstone. A McLaren foi rápida e esperta. Quando ele parou para abandonar, com o carro todo estropiado, ficou no cockpit. Por 5s, ninguém encostou no automóvel. Passado o tempo da punição, saiu do carro e abandonou. Mas como cumpriu mais de 90% das 71 voltas, Norris oficialmente terminou a prova. Quando um piloto cumpre esse percentual, é considerado “classificado” e tem uma posição registrada, ainda que pare antes do número total de voltas. Formalmente, não é um abandono — o que pode ser importante em casos de desempate; nos anais da categoria, Norris foi o 20º colocado na Áustria, e não aparece como DNF (“did not finish”).
Assim, a punição foi cumprida.
E o que aconteceu com a Red Bull, afinal, que estava tão tranquila na corrida e de repente se viu na iminência de ser atropelada pela McLaren de Norris?
Aconteceu que a equipe tinha guardado, para a prova, três jogos novos de pneus: um médio e dois duros. Essa era a estratégia diante da perspectiva de um domingo quente e ensolarado, como foram a sexta e o sábado, com temperaturas esbarrando nos 50°C no asfalto: largar de médios, para ter boa aderência na partida e fazer bons tempos nas primeiras voltas, e depois trocar para os duros nas duas paradas.
Mas o domingo foi menos quente do que o time esperava, e os pneus duros não funcionaram como deveriam com temperaturas mais baixas. Tanto que o segundo stint de Verstappen foi pontuado por reclamações do piloto. Para a segunda troca, usar o outro jogo de pneus duros novos estava fora de questão. E a equipe teve de colocar pneus usados médios no carro de Verstappen. Já Norris tinha borracha nova.
Ainda assim, a vantagem de 7s que Max tinha antes do segundo pit stop seria administrável nas últimas 19 voltas da prova, desde que Norris ficasse longe da zona de acionamento da asa móvel. Max teria de mantê-lo a mais de 1s de distância. Só que a parada da Red Bull foi ruim, o que é raro. Deu problema numa roda e a troca foi concluída em 6s5. Normalmente, o time realiza a operação em 2s. Na saída do box, Verstappen ainda perdeu tempo numa fritada de pneus e Lando encostou. Daí a reduzir a diferença para menos de 1s o caminho foi bem mais curto. E começaram os ataques na fase final da corrida.
Por isso que Max disse, depois do GP, que “foi tudo uma merda” — a estratégia, os pneus, o pit stop. Inclusive a batida. “Ninguém gosta quando essas coisas acontecem.”
A FRASE DE SPIELBERG
“Se não admitir que errou, vai perder o respeito que sempre tive por ele.”
Lando Norris
Norris disse ontem que o prejuízo da batida com Verstappen não se resume à perda dos pontos e da possibilidade de vitória no GP austríaco. Falou que seu carro ficou bastante danificado, e que talvez não tenha algumas peças novas para a corrida de domingo na Inglaterra.
Falando nisso, como será a recepção dos torcedores ingleses a Verstappen no próximo fim de semana? Melhor ficar de olho nisso.
Já nas hostes mercêdicas, só festa. A segunda vitória da carreira de Russell foi daquelas inesperadas e muito bem-vindas. O inglês contou que quando Toto Wolff disse a ele pelo rádio “nós podemos ganhar essa, George!”, quase bateu o carro. “Me deixem dirigir, cacete!”, respondeu, gritando.
Foi a primeira vitória da Mercedes desde o GP do Brasil de 2022, em Interlagos. Também de Russell.
O NÚMERO DA ÁUSTRIA
300
…GPs com pontos completou Hamilton na Áustria, dos 343 que já disputou. Isso dá uma taxa de 87,5% de eventos pontuando de alguma forma — nas corridas e Sprints. Mas ele continua sem saber o que é uma vitória desde o GP da Arábia Saudita de 2021. O jejum chegou a 56 corridas.
SORRISOS & ABRAÇOS – A reação dos três primeiros à batida entre Verstappen e Norris foi, primeiro, de espanto. Depois, Sainz, Russell e Piastri deram boas risadas na salinha pré-pódio. Oscar, então, se tocou que não pegava bem se divertir com a desgraça do companheiro. “A gente não tinha de rir disso”, censurou os amigos. Lá embaixo, indo para o pódio, o sempre simpático Frédéric Vasseur, chefe da Ferrari, amigo de todo mundo, foi abraçar Toto Wolff.
CAMPEÃ DA SEMANA – Ao final do GP da Áustria, o terceiro com Sprint neste ano, a Mercedes se sagrou “campeã” da semana. Marcou 45 pontos, mais do que todas suas rivais. A Red Bull fez 25, a Ferrari marcou 21 e a McLaren, 31. Na classificação, porém, segue em quarto com 196 pontos. Red Bull (355), Ferrari (291) e McLaren (268) seguem à frente.
CAMPEÃO DA SEMANA – E o piloto que mais pontuou na Áustria foi Russell: 30. Piastri veio a seguir, com 25, e Verstappen, apesar de tudo, marcou 18. Para ele, cair de primeiro para quinto na corrida não fez muita diferença quando se considera a disputa com o (distante) vice-líder. Norris marcou apenas seis. A diferença de 12 é maior do que ele faria se tivesse vencido, com Lando em segundo. A conta é simples. O inglês perdeu 18 pontos de um eventual segundo lugar. Max faria 25 se ganhasse, e acabou ficando com 10 da quinta posição. Perdeu 15, pois.
MERCADÃO – “Quero desfrutar dos pódios, porque não sei quando terei de novo”, disse Carlos Sainz depois do terceiro lugar com a Ferrari. O espanhol sabe que seja qual for seu destino em 2025 — Alpine, Sauber/Audi ou Williams –, vai ficar longe das taças por um bom tempo. Para atualizar a situação do mercado: tudo depende daquilo que Sainz decidir. O cenário mais provável neste momento é sua transferência para a Alpine, que lhe ofereceu um ano de contrato e a possibilidade de sair se surgir uma chance na Mercedes ou na Red Bull em 2026. A Audi quer três anos e acorrentá-lo em Igolstadt. A Williams está cada vez mais longe e conversa com Ocon e Bottas. A Haas tem um lugar vago e também fala com ambos. A grande interrogação é a Audi. Como já contratou Hülkenberg, não descarta a possibilidade de ter um piloto jovem ao seu lado. Lawson, Drugovich e Doohan têm sido citados.
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS da Haas, claro! A equipe tinha feito 12 pontos na temporada passada inteira. Ontem marcou os mesmos 12 com Hulk em sexto e Magnussen em oitavo. Ayao Komatsu tem feito um bom trabalho como chefe da equipe. A gente adorava as travessuras de Günther Steiner, mas o fato é que ele tinha perdido a mão.
NÃO GOSTAMOS da Aston Martin, que nas últimas quatro corridas deixou de pontuar em três. Stroll e Alonso se arrastaram nas últimas posições. O espanhol ainda acertou Zhou e foi punido. Fez a melhor volta no final, com um jogo de pneus macios. Mas como ficou longe dos dez primeiros, nem ponto extra levou. A equipe desandou.