Blog do Flavio Gomes
F-1

TORTA HOLANDESA (3)

POÇOS DE CALDAS (quem diria…) – O jogo virou, como se diz. Lando Norris ganhou o GP da Holanda, em Zandvoort, e Max Verstappen, o segundo colocado, precisou de uma luneta ao final da prova para enxergar o carro do rival. A McLaren, definitivamente, tem o melhor carro da F-1 neste momento. Foi a segunda […]

O abraço do pai: Norris vence pela segunda vez na carreira e no ano

POÇOS DE CALDAS (quem diria…) – O jogo virou, como se diz. Lando Norris ganhou o GP da Holanda, em Zandvoort, e Max Verstappen, o segundo colocado, precisou de uma luneta ao final da prova para enxergar o carro do rival. A McLaren, definitivamente, tem o melhor carro da F-1 neste momento. Foi a segunda vitória da carreira do inglês – a outra aconteceu em maio, em Miami. A equipe papaia venceu pela terceira vez no ano. O pódio foi fechado por Charles Leclerc, da Ferrari.

No campeonato, as coisas começaram a apertar para a Red Bull. O time austríaco vê sua vantagem na classificação do Mundial de Construtores derreter. Era de 42 pontos sobre a McLaren antes da etapa de hoje, a 15ª de 2024. Agora, são 30 — 434 x 404. Faltam nove provas para o fim do Mundial. Entre os pilotos, Max também começa a se preocupar. Tinha 78 de frente para Norris. Agora são 70 – 295 x 225. Dá para Landinho ser campeão? Uai, dá! É bem difícil, precisa ganhar tudo, torcer contra Verstappen, esperar que Mercedes e Ferrari ajudem e tirem pontos do holandês, ainda tem três Sprints pela frente, não é impossível.

Verstappen não é bobo e sabe que vai precisar de cabeça fria para administrar a gordura que acumulou nas primeiras provas do ano. Mas o fato é que a McLaren já está no retrovisor e piscando o farol alto. A Red Bull precisa juntar seus cacos. Começou a temporada amassando a concorrência. Corre o risco de terminar chorando lágrimas de energéticos.

Em Zandvoort, num domingo de sol e sem ameaça de chuva, a largada do piloto da casa foi, como sempre, de almanaque. Daqueles caprichados, impressão boa, papel de qualidade. A do pole-position Norris, como de hábito, ruim como um panfleto mimeografado com cheiro de álcool e teor inelegível. Incrível como esse moço larga mal. Max, que era o segundo no grid, pulou na frente e imediatamente tratou de abrir mais de 1s sobre o rival, para evitar ataques com asa móvel quando ela fosse liberada.

Russell também começou bem e passou Piastri, se colocando em terceiro. Pérez caiu para sexto. Hamilton – que largou com pneus macios, assim como Tsunoda e Bottas; Magnussen foi de duros e os demais, com médios – começou a escalar o pelotão de grão em grão, passando em 12º na quinta volta.

O problema de Max, que completou seu 200º GP, era escapar da McLaren. No começo do ano, seu carro permitia abrir uma vantagem confortável o bastante para determinar o ritmo da corrida e fazê-lo com todas as variáveis possíveis sob controle – gestão dos pneus, consumo de combustível, temperatura do ar-condicionado, volume do rádio, sinal do celular. Agora, a realidade é outra. Os rivais chegaram e a Red Bull estacionou. Com dez voltas, ele não tinha conseguido construir uma diferença segura sobre Norris: 1s5, apenas.

Norris passa Max na volta 18: fim de corrida ali

Verstappen, Norris, Russell, Piastri, Leclerc, Pérez, Sainz, Gasly, Alonso e Stroll eram os dez primeiros nessa altura da prova. Pelo rádio, engenheiros e pilotos trocavam impressões sobre as estratégias disponíveis para troca de pneus. “Oscar, o que você acha do plano A?”, perguntou o cabra da McLaren. “Creio que o B é mais adequado, meu querido”, respondeu o piloto. Lando também assuntava com seu pessoal técnico. “Se usarmos o plano A, pode ser que dê certo. Mas o B e o C também são bons. O D e o E, neste momento, não nos parece grande coisa. Você sempre achou o F interessante, acha que devemos arriscar?” Norris, meio confuso, falou para escolherem qualquer um.

Verstappen viu a diferença para Lando começar a cair a partir da volta 15. No rádio, em vez de discutir planos, o holandês reclamava. “Na curva 10 o carro não vira! Na reta, não anda! Parado, esquenta! O pneu morreu!” E o britânico chegou de vez. Na volta 17, fez o primeiro ataque. Não conseguiu. Na 18ª, na reta dos boxes, abriu a asa e assumiu a liderança. Max nem viu por onde ele passou.

Era uma corrida dos dois, Norris e Verstappen. Russell, em terceiro, vinha bem atrás. A Red Bull quebrava a cabeça para encontrar um jeito de buscar a McLaren. Não seria fácil. Na volta 22, Landinho já tinha mais de 2s5 de vantagem. Na 24ª, 3s7. “Mais que isso não consigo”, lamentou o tricampeão. “O carro não responde a nada que eu faço.” E a prova, na real, acabou ali.

Os pit stops começaram. Primeiro Hamilton, que já estava em oitavo. Depois, Leclerc. Na sequência, Russell. Todos colocando pneus duros, para ir até o final da corrida. Max parou na volta 28, quando seu atraso em relação a Norris já passava dos 6s. Para não correr riscos, o inglês parou na volta seguinte. Fez a troca sem problemas e voltou à frente de Verstappen, em quarto – os três primeiros, Piastri, Pérez e Sainz, anda não tinham feito seus pit stops. A vitória estava na mão.

Piastri ficou na liderança até seu pit stop, na volta 34, devolvendo a ponta ao companheiro de equipe. No entra e sai dos boxes, quem se deu bem foi Leclerc, subindo de quinto para terceiro. A Ferrari, uh-lalá!, acertou uma ao chamar Charlinho antes dos demais.

Leclerc: estratégia da Ferrari deu certo

Com todo mundo de pneus duros, na metade da corrida, Norris, Verstappen, Leclerc, Russell, Piastri, Pérez, Sainz, Hamilton, Hülkenberg e Magnussen eram os dez primeiros. O dinamarquês da Haas era o único sem pit stop. Gasly e Alonso, que andaram toda a primeira parte da prova nos pontos, caíram bem e teriam de remar tudo de novo para voltar ao grupo dos dez primeiros.

Max desistiu de brigar pela vitória sem muito pudor. Viu que não dava, ficou esperando o tempo passar. Norris desaparecera na frente. Na volta 40, a diferença era de 10s. Quem ainda tinha o que fazer era Piastri. Partiu para cima de Russell e passou, assumindo o quarto lugar. Sua meta era o pódio, no mínimo. Um segundo lugar para fazer uma dobradinha da McLaren, talvez. Para isso, primeiro teria de atacar Leclerc – que tinha pneus mais desgastados por conta da parada precoce.

Oscar foi se aproximando da Ferrari até reduzir a diferença para menos de 1s, na volta 45. Isso permitiria a abertura da asa móvel, facilitando a ultrapassagem. Enquanto isso, mais para trás, quem podia se virava para ganhar uma coisinha ali, outra ali. Sainz passou Pérez e foi para sexto. Hamilton, na volta 50, parou pela segunda vez para colocar pneus macios em busca do ponto extra da volta mais rápida.

Piastri demorava para atacar o monegasco, o que ajudava muito Verstappen. Em segundo, o holandês seguia em ritmo de tartaruga – para os padrões rubro-taurinos, claro. Quando mais o australiano enrolasse para passar a Ferrari #16, menos tempo teria para buscar alguma coisa sobre o #1 da Red Bull. Na volta 53, Charlinho já tinha se livrado da ameaça da asa móvel, voltando a ficar mais de 1s à frente do carro papaia #81.

O pódio que parecia perdido para Leclerc tornou-se uma realidade novamente. Russell, como Hamilton, fez uma segunda parada e colocou pneus macios. Não parecia uma estratégia muito eficaz por parte da Mercedes. O inglês voltou em sétimo, atrás de Pérez, mais de 17s atrás. Precisaria tirar mais de 1s por volta do mexicano para recuperar o lugar. O gênio do time alemão que inventou isso deveria ser demitido.

Quadriculada para Norris: 22s8 sobre Verstappen

Na volta 60, a 12 do final, Norris e Verstappen, em primeiro e segundo, só esperavam pela bandeirada. Leclerc ainda suava para se segurar em terceiro, mas a verdade é que Piastri não parecia ter força para buscar seu trofeuzinho. Sainz, Pérez, Russell, Hamilton, Gasly e Hülkenberg fechavam o top-10. Desses, quem corria algum risco era o alemão da Haas, agora ameaçado por Alonso, em 11º. Valia um pontinho, afinal. Fernandinho acabou passando, na 64ª. Todo o esforço do incrível Hulk para não sair de Zandvoort zerado deu em nada, coitado.

A diferença de Norris para Verstappen ao final da corrida foi um retrato do momento que a F-1 vive nesta altura da temporada. A relação de forças se inverteu. O que a Red Bull fazia nas primeiras provas do Mundial sobre as rivais agora é a McLaren que faz. Landinho recebeu a quadriculada 22s8 à frente de Max. Tinha tanta sobra no carro que ainda fez a melhor volta com pneus duros velhos, somando mais um ponto aos 25 da vitória. Leclerc, como já sabemos, se sustento em terceiro. A turma dos pontos teve ainda, pela ordem, Piastri, Sainz, Pérez, Russell, Hamilton, Gasly e Alonso.

Conformado, Verstappen disse que depois de ser ultrapassado por Norris no começo da prova só se preocupou em chegar em segundo. Era o que tinha para hoje. Lando, sem euforia excessiva, foi igualmente realista. “Percebi que Max perdeu desempenho nas primeiras voltas e que daria para ultrapassar”, falou.

Semana que vem tem mais. A F-1 se despede da Europa em 2024 com o GP da Itália, em Monza. A notícia da semana, antes da corrida, será o anúncio de Kimi Antonelli na Mercedes. Vai chamar a atenção, claro. Mas a disputa pelo título, convenhamos, é mais atraente. Principalmente porque ninguém esperava que pudesse acontecer.