Blog do Flavio Gomes
F-1

ALL NIGHT LONG (3)

SÃO PAULO (reta final) – O placar informa: Max Verstappen 331, Lando Norris 279. O inglês da McLaren venceu de ponta a ponta o GP de Singapura com o holandês da Red Bull em segundo. Foi a terceira vitória de sua carreira, todas neste ano. A diferença que era de 59 pontos caiu para 52. […]

Vitória de Norris: terceira no ano, com muita folga

SÃO PAULO (reta final) – O placar informa: Max Verstappen 331, Lando Norris 279. O inglês da McLaren venceu de ponta a ponta o GP de Singapura com o holandês da Red Bull em segundo. Foi a terceira vitória de sua carreira, todas neste ano. A diferença que era de 59 pontos caiu para 52. Faltam seis corridas para o fim do campeonato. Três delas com Sprints, que distribuem mais pontos.

Vamos aos cálculos. A pontuação máxima que um piloto pode alcançar com seis GPs + três Sprints + seis melhores voltas é de 180. Digamos que Norris consiga a façanha. Chegaria a 459 pontos no final do campeonato. Mas digamos que Verstappen fique em segundo em todas, também, incluindo as Sprints. Somaria mais 129. E fecharia o ano com 460.

Resumindo a ópera matemática, Max não precisa mais vencer na temporada. E a Norris não basta fazer todos os pontos disponíveis, porque se o rival ficar na sua cola o tempo inteiro, já era.

Claro que as duas situações – Norris ganhando tudo e Verstappen em segundo – são altamente improváveis. As cifras acima servem apenas para ilustrar o momento deste ótimo Campeonato Mundial. Uma conta mais simples é 52 dividido por 6. Dá 8,66…, uma dízima periódica, se bem lembro o nome disso. Ou seja: para ser campeão, Norris precisa, a cada etapa, somando os pontos das corridas longas e curtas, além dos eventuais pontos extras, fazer 8,66 pontos mais que Verstappen. Arredondando para cima, já que não há dízimas periódicas na F-1, nove.

Verstappen, segundo: fazendo contas até o fim do ano

Não é fácil. Mas não é impossível. Verstappen está num cenário que não lhe concede a opção de cometer erros. Nem a ele nem ao seu time. Que, aliás, já jogou a toalha do Mundial de Construtores. Com o resultado de hoje em Marina Bay, que ainda teve Oscar Piastri no pódio, a McLaren disparou na tabela e será campeã entre as equipes. Foi a 516 pontos, com os 40 anotados por sua jovem e talentosa dupla de pilotos. A Red Bull marcou apenas 19 do segundo lugar de Verstappen e do décimo de Sergio Pérez. Está com 475, 41 atrás dos papaias.

A pausa de três domingos sem corridas até a próxima etapa, marcada para o dia 20 de outubro em Austin, nos EUA, poderá ser útil para os rubro-taurinos se recomporem. É preciso encontrar alguma forma de fazer com que seus carros recuperem pelo menos um pouco do viço do início do ano, quando ganhou quatro das cinco primeiras provas da temporada. Max não vence desde a Espanha. Já são oito provas em jejum. A McLaren, por sua vez, ganhou quatro das últimas seis. É o melhor carro de todos os tempos da última semana, e tem de aproveitar que está por cima. Mas não pode deitar na fama. Ferrari e Mercedes são duas equipes que, neste ano, têm tido alguns espasmos de competitividade a ponto de vencerem GPs e fazerem poles. Não por outro motivo esta temporada é apenas a terceira na história que contabiliza três vitórias ou mais de quatro equipes diferentes. Isso só aconteceu antes em 1974 e 1977.

QUANDO? – Em 1974, o Mundial teve 15 etapas e foi conquistado por Emerson Fittipaldi, da McLaren – que também ganhou o título de Construtores. Naquele ano, quatro equipes ganharam pelo menos três GPs. Foram quatro vitórias da McLaren e três de Ferrari, Lotus e Brabham. E, de quebra, a Tyrrell ainda venceu duas vezes. Já em 1977 foram seis equipes diferentes a vencer GPs. Shadow e Ligier, apenas uma vitória para cada. Lotus (cinco), Ferrari (quatro), McLaren e Wolf (três cada) foram as quatro com três ou mais vitórias. O campeão daquele ano foi Niki Lauda, da Ferrari, também campeã entre as equipes.

Scheckter na Argentina em 1977: equipe Wolf estreou com vitória

O maior aliado de Norris e, por conseguinte, grande atrapalhador de Verstappen será Piastri. A equipe já definiu que até o fim do ano o australiano terá de trabalhar pela causa maior que é o possível título do inglês. Algo que já deveria ter sido feito antes. Norris perdeu dez pontos bobos por entregar a vitória na Hungria ao seu companheiro – que tinha cometido um erro e por isso perdeu a liderança após um pit stop – e por não ter sido dada uma ordem de inversão de posições entre os dois em Monza. Podem fazer falta, no fim.

Tem muita água para rolar ainda debaixo dessa ponte. A F-1 vive um grande ano. E vamos ao GP de Singapura, que não foi lá essas coisas.

Largada em Marina Bay: Norris pula na frente e vai embora

Quando as mantas térmicas foram retiradas dos pneus antes da largada, causou espécie a escolha inusitada de Lewis Hamilton, terceiro no grid: pneus macios. O outro que escolheu a goma mais melequenta foi Daniel Ricciardo, lá atrás. Quatro pilotos optaram pelos duros: Kevin Magnussen, Lance Stroll, Valtteri Bottas e Guanyu Zhou. Os demais foram para o papai-e-mamãe: médios na largada para colocar duros na parada única prevista para as 62 voltas da prova.

Pela primeira vez na vida Norris conseguiu fechar a primeira volta em primeiro depois de largar na pole. Desta vez o inglês partiu bem, decidido, e não deu chances a Verstappen. Que, por sua vez, segurou a segunda posição mesmo com Hamilton de pneus macios atrás dele. A melhor largada de todos foi de Franco Colapinto, que ganhou quatro posições, pulando de 12º para oitavo. Verdade que logo foi ultrapassado por Charles Leclerc e caiu para nono. Alexander Albon, em compensação, despencou para 15º. E já reclamou pelo rádio do companheiro. “O Franco mergulhou que nem um hincha maluco do Racing ou do San Lorenzo! Ele é louco? Está pensando o quê? Só porque nasceu no mesmo país do papa? Onde vamos parar? É esse doido que vocês acham que é o futuro da Fórmula 1? O que tem naquele mate que ele bebe? Vocês não desconfiam de quem toma bebida quente nesse calor? Hein? Hein?” A resposta da Williams foi o silêncio.

Piastri, terceiro: grande aliado de Norris daqui em diante

As primeiras dez voltas da prova foram percorridas no modo vamos-ver-se-acontece-alguma-coisa, com todos se estudando e evitando ataques ou atos de heroísmo. Norris tinha 3s de vantagem sobre Verstappen, que também não era acossado por Hamilton, em terceiro. George Russell, Piastri, Nico Hülkenberg, Fernando Alonso, Leclerc, Colapinto e Pérez eram os dez primeiros. Que coisa, esse jovem argentino. Até outro dia corria na F-2. Na décima volta do GP de Singapura estava atrás de uma Ferrari e à frente de uma Red Bull.

O ritmo de Norris era muito forte. A McLaren não queria surpresas e na volta 15 o #4 já abria mais de 9s em cima de Max. O primeiro carro de ponta a parar tinha sido o de Sainz, na volta 14. Carro de ponta, posição de fundo, diga-se. O espanhol, desde o início, estava empacado em 12º atrás de Yuki Tsunoda. Havia largado mal, depois de bater no Q3 e ficar apenas em décimo no grid.

Colapinto à frente de Pérez: “Muito bom!”, disse o mexicano

Um rádio chamou a atenção lá pela volta 16. Pérez: “Ele é muito bom, Colapinto. Difícil de ultrapassar”. Raro, raríssimo. Não era um piloto xingando o outro porque estava fechando a porta ou mudando de direção. Era um elogio! Repito: “Ele é muito bom, Colapinto”. Foi o que disse Pérez. Na Argentina, redes sociais printavam a imagem com a frase na tela para gerar memes infinitos. No mesmo momento, Albon abandonava a corrida com o radiador fervendo e a Williams ficava apenas com Franco na pista e a missão de pontuar – dava para pensar nisso, como não? No fim não deu, por pouco.

Hamilton, com seus pneus macios, parou na volta 18. Colocou duros e voltou em 13º. A corrida não era boa. Embora o circuito de Marina Bay tenha quatro zonas de abertura de asa móvel, as ultrapassagens são bem difíceis. E isso se refletia na pista. Quando a prova chegou à volta 25, as posições da largada permaneciam praticamente inalteradas. “É muito frustrante isso aqui! Quanto tempo teremos de ficar nesse lenga-lenga?”, perguntou Leclerc pelo rádio depois de passar horas atrás de Alonso. “Calma, meu filho”, recomendou o engenheiro da Ferrari. “Você nem paga a F1TV, não reclama.”

Norris voava. Em 25 voltas, 20s de diferença para Verstappen. Um massacre. Max, por sua vez, tinha 12s de folga para Russell, o terceiro. O holandês não estava nem aí. Não imaginava mesmo que pudesse vencer. Dependia de uma largada melhor que a de Lando, para deixar o rival assustado. Como não aconteceu, ficou na dele.

As paradas de quem largou com pneus médios começaram com Alonso na volta 26. Russell foi para os boxes na 28ª e se deu bem. Na primeira parte da prova estava atrás de Hamilton. Voltou à frente do companheiro. Uma ultrapassagen, oh!, aconteceu na volta 29: Leclerc sobre o valente Hulk pelo quarto lugar. Pérez, que tinha desistido de atacar o muito bom Colapinto, parou na 30ª. Então…

Então Norris teve algum problema. Pelo rádio, informou alguma intercorrência, algo na asa dianteira. A Red Bull imediatamente chamou Verstappen para os boxes. Ele estava um ano atrás do inglês da McLaren. A volta anterior de Lando foi 4s pior que a média que ele vinha virando. Pelo sim, pelo não, Norris parou na volta 31. Voltou em primeiro, tranquilamente. Retomou o ritmo. Era alarme falso. Pelo rádio, a equipe tranquilizou seu piloto: “Tivemos um pequeno probleminha na asa, meu caro. Nada sério”. Sério tinha sido a tal volta 4s pior. O que aconteceu não foi nada na asa. Foi um erro, mesmo. O líder da corrida, por muito pouco, não terminou de forma patética estampado no muro. Safou-se.

Norris quase no muro: momento tenso em vitória fácil

Nas paradas, Pérez ganhou a posição de Colapinto. Foi o chamado “undercut”. Sainz também já tinha passado nos boxes, porque fizera seu pit stop muito cedo. Contra isso o argentino nada tinha a fazer. Se posicionou em 12º após a parada e precisaria que algo extraordinário acontecesse até o final para fazer pontos de novo. Mais à frente, Russell, em quinto, pedia pelo rádio: “Preciso que alguém me encoraje. Que me incentive a fazer algo fora do normal. Que tal frases de autoajuda? Há bons livros sobre o assunto. Na internet podem ser encontradas, também. Porque isso me ajudaria a…”. Naquele momento Toto Wolff, como de hábito, mandou George calar a boca.

Depois de tentar passar Leclerc, Russell acabou ganhando a quarta colocação com a parada do monegasco, na volta 37. Dos primeiros, o único que não tinha trocado pneus era Piastri, que veio para os boxes na 39ª. Não conseguiu voltar à frente de Hamilton e retomou a lida em quinto, onde estava na primeira parte da prova.

Hülkenberg, nono: Haas nos pontos pela terceira vez seguida

Na volta 40, com todos já de pneus trocados, Norris seguia na liderança com 23s de vantagem para Verstappen. Russell era o terceiro. E, finalmente, uma ultrapassagem relevante. Com borracha mais fresquinha, Piastri passou Hamilton e foi para quarto. O inglês da Mercedes tinha trocado seus pneus muito antes. Não teve como se defender. Sainz era o sexto. Leclerc passou Alonso e foi para sétimo. Hulk e Pérez fechavam a turma dos dez primeiros, com Colapinto em 11º.

Piastri passou a ter o carro mais rápido da pista naquele momento e partiu para cima de Russell para beliscar um pódio. A equipe mandou ir para cima. “Chegar é uma coisa, passar é outra”, respondeu Oscar, sem assumir grandes responsabilidades e citando famoso narrador de TV. Mas na 45ª volta passou, e foi fácil. George não teve como se defender. Entrou no rádio e reclamou do calor. “Isso aqui parece uma sauna, parceiro”, disse. Nos boxes, Toto Wolff bufou. “Quer ar-condicionado, querido?” Virou-se para o jovem Kimi Antonelli, ao seu lado, e aconselhou o rapaz que no ano que vem será titular da Mercedes: “Nunca peça ar-condicionado no futuro. Isso me irrita”.

Na volta 50, a 12 do final, Norris, Verstappen, Piastri, Russell e Hamilton eram os cinco primeiros. Com os pneus totalmente desgastados, Lewis foi ultrapassado por Leclerc e caiu para sexto. Um péssimo resultado para quem começara a noite em terceiro no grid. Sainz, Alonso, Hülkenberg e Pérez continuavam formando o top-10. Se alguma briga ainda era possível nas voltas derradeiras, ok, duas eram possíveis: Pérez x Hülkenberg e Leclerc x Russell.

Mas apesar das tentativas pouco convictas de Leclerc, George segurou o quarto lugar. Da mesma forma, o mexicano não conseguiu passar o alemão. Norris venceu com 20s945 de vantagem para Verstappen. Piastri fechou o pódio. Russell, Leclerc, Hamilton, Sainz, Alonso, Hulk e Pérez colocaram seus pontinhos na mochila. E a melhor volta ficou com Ricciardo, chamado para os boxes no final para colocar pneus macios e tirar o ponto extra que estava nas mãos de Lando. Quem convocou nem foi sua equipe, a Quer Sua Via?, e sim a Red Bull, a matriz. O australiano cumpriu a missão. E ainda foi escolhido pelo amigo internauta como Piloto do Dia. Nessa altura do campeonato, qualquer pontinho que puder ser tirado de Norris ajuda Max.

Ricciardo chora depois da corrida: pode ter sido sua despedida

Os pilotos saíram ensopados de suor de seus carros. A prova foi disputada sob um calor equatorial de 31°C e umidade relativa do ar na casa de 75%. Verstappen disse que teve uma corrida solitária e achou “bom” o segundo lugar. Norris, ao ser entrevistado por David Coulthard, disse que estava muito cansado, que o carro foi “ótimo” o fim de semana todo e levou um banho de água gelada do ex-piloto escocês para se refrescar.

A semana pode começar amanhã com revelações importantes no mercado de pilotos, como a iminente substituição de Ricciardo por Liam Lawson. Daniel, ao fim da corrida, ficou alguns instantes dentro de seu carro e, depois, chorou diante das câmeras. “Sei que pode estar acabando”, disse o australiano. “Eu apenas queria desfrutar de alguns instantes no cockpit…” Foi um momento tocante. E as lágrimas não deixam muitas dúvidas de que já em Austin o neozelandês estará no carro da filial da Red Bull.

Espera-se algo, também, em relação à única vaga aberta para 2025, na Sauber/Audi. Como foi amplamente noticiado nos últimos dias, Bottas ganhou força na disputa e dois novatos, Colapinto e o brasileiro Gabriel Bortoleto, correm por fora.