Blog do Flavio Gomes
F-1

SOBRE DOMINGO DE MANHÃ

A IMAGEM DA CORRIDA SÃO PAULO (atraso perdoado?) – A foto acima é de autoria do australiano Kym Illman, cujo trabalho merece ser visitado — sua conta no Instagram é esta aqui. Veterano no ofício, repórter acima de tudo — e com a dádiva de ter vindo ao mundo com o olhar sensível e artístico […]

A IMAGEM DA CORRIDA

O adeus de Ricciardo: só falta confirmar (foto: Kym Illman)

SÃO PAULO (atraso perdoado?) – A foto acima é de autoria do australiano Kym Illman, cujo trabalho merece ser visitado — sua conta no Instagram é esta aqui. Veterano no ofício, repórter acima de tudo — e com a dádiva de ter vindo ao mundo com o olhar sensível e artístico dos grandes fotógrafos –, decidiu esperar pela saída de Daniel Ricciardo do circuito de Marina Bay. Nesta postagem da mesma rede social, ele conta que o piloto deixou a pista à 1h46 da madrugada de segunda-feira. E ele clicou a despedida.

A iminente saída de Ricciardo da F-1 causou comoção no mundinho das corridas — que inclui os fãs, claro. Por sua simpatia, carisma, camaradagem, pelo sorriso sempre largo. Ninguém tinha visto o piloto chorar. Mas depois da corrida de Singapura ele chorou. Mais de uma vez. Não deve ser fácil, não, perceber que acabou.

E acabou porque de fato desde 2022, seu segundo ano de McLaren, Ricciardo não consegue repetir na pista nada parecido com aquilo que fez dele um dos mais promissores pilotos da segunda década deste século. Tanto que, naquele ano, foi demitido com contrato em vigência para que Oscar Piastri pudesse estrear. Em 2023 a Red Bull recontratou o australiano como uma espécie de embaixador da marca. Era pura caridade. E ele acabou ganhando a vaga na AlphaTauri por conta do mau desempenho de um colega, Nyck de Vries. Neste momento, final de setembro de 2024, Ricciardo está sendo vítima da mesma situação que lhe deu a chance de retomar a carreira. Não está bem, tchau.

Medidas como essa não são novidade na empresa que Daniel conhece tão bem. A lista de pilotos precocemente descartados ou arrancados de seus carros sem aviso prévio pela Red Bull é gigantesca: Christian Klien, Vitantonio Liuzzi, Scott Speed, Robert Doornbos, Daniil Kvyat, Pierre Gasly e Alexander Albon são alguns deles. Sem contar nomes como António Félix da Costa, Jaime Alguersuari, Sébastien Buemi, Jean-Éric Vergne, Sébastien Bourdais e Brendon Hartley, uns com passagens pela Toro Rosso, outros cultivados desde a base sob promessas de promoções que nunca vieram. Todos moídos sem muito tempo para se firmarem. A maioria guarda mágoas da dupla Christian Horner/Helmut Marko até hoje.

Laurent Mekies, chefe da Quer a Sua Via?, disse no press-release oficial do time após o GP que a melhor volta da corrida foi uma espécie de presente a Ricciardo. Coisa raríssima, a possibilidade de demissão consta na texto distribuído à imprensa. “Considerando que esta pode ter sido a última corrida de Daniel, quisemos dar a ele a chance de saborear o momento”, falou.

PODIA? – Aqui cabe uma caixinha. Muita gente sem a menor noção do que é a F-1 saiu atirando na Red Bull porque mandou Ricciardo fazer a melhor volta para tirar o ponto extra de Lando Norris. Se sim, e daí? Não é vedado a nenhum piloto tentar a volta mais rápida de uma corrida. Assim como não há nada que proíba uma mesma organização de ter duas equipes. Parcerias entre times coirmãos são muito comuns na história da categoria. Pilotos da Williams não endurecem para os da Mercedes quando vão tomar volta. Os da Alfa Romeo não se furtavam a dar uma mãozinha para os da Ferrari. Comparar o que Ricciardo fez com a pilantragem de Nelsinho Piquet e da Renault em 2008 beira o absurdo. É a tal de falsa equivalência. Tenham dó.

Que não se tome, porém, Ricciardo como um mau piloto. Seu currículo é dos melhores e os números que amealhou desde a estreia na HRT em 2011 são expressivos, melhores do que os de muitos campeões do mundo e de pilotos em atividade ou do passado que normalmente são colocados nas primeiras prateleiras da categoria. Em 257 largadas, venceu oito corridas (mais que Charles Leclerc, John Surtees, Gilles Villeneuve e Clay Regazzoni, por exemplo), subiu ao pódio 32 vezes (empatado com Jim Clark e à frente de Jack Brabham, Bruce McLaren, James Hunt, Jacques Villeneuve, Keke Rosberg e George Russell), fez três poles e 17 melhores voltas.

Correu dois anos pela Toro Rosso (2012 e 2013), fez cinco temporadas na Red Bull (de 2014 a 2018) e pelo time chegou em terceiro no Mundial duas vezes (em 2014, à frente do recém coroado tetracampeão Sebastian Vettel, e em 2016), foi para a Renault (2019 e 2020, quinto colocado no ano da pandemia) e depois para a McLaren (2021 e 2022, vencendo um GP no primeiro ano, em Monza, e acabando com um jejum de vitórias de nove anos da equipe). Não é pouca coisa.

Ricciardo merece respeito, e não a enxurrada de bobagens que andei lendo em redes sociais de influencers neo-comentaristas que acham que a F-1 começou com “Drive to Survive”. Deixa seu nome marcado na história não como um dos melhores de todos os tempos, claro, mas como alguém que conduziu sua carreira com dignidade e talento.

Foi escolhido pelo amigo internauta, sensível, como Piloto do Dia em Singapura.

O NÚMERO DE SINGAPURA

2

…vezes Ricciardo impediu, na última volta, que um piloto conseguisse o que se chama de Grand Chelem (ou Grand Slam) na F-1. A saber: pole, vitória, melhor volta e todas as voltas na liderança. Norris tinha tudo isso até o australiano colocar pneus macios e partir para a volta mais rápida. Isso tinha acontecido também no GP de Abu Dhabi de 2020, quando ele defendia a Renault. Também cravou na última a melhor volta da corrida. A “vítima” naquele dia foi Max Verstappen.

Ainda sobre esse tema, Ricciardo disse que se Verstappen ganhar o Mundial deste ano por um ponto, “ainda que eu não torça contra Lando”, como fez questão de destacar, terá sido um belo presente de Natal a alguém que considera muito. “Max foi a única pessoa que me mandou uma mensagem depois do Japão perguntando se eu estava bem e me dizendo para seguir em frente, de cabeça erguida, apesar de tudo”, contou. Em Suzuka, para quem não lembra, Daniel abandonou a corrida na primeira volta depois de um acidente com Albon.

A FRASE DE MARINA BAY

“Esse é o tipo de coisa que me faz, sim, pensar em abandonar este esporte.”

Max Verstappen

Verstappen soltou o verbo depois da corrida, ainda sobre o assunto “não pode falar palavrão que titio Sulayem fica bravo”. Resumindo, falou que não tem paciência para essas bobagens. E que no estágio em que se encontra na carreira não precisa lidar com essas coisas.

Não acho que vai parar de correr amanhã porque o palerma do presidente da FIA vomita seus discursos moralistas e racistas cada vez que abre a boca. Mas que sua carreira pode ser encurtada por tais disparates, isso pode. Uma hora o cara cansa, já ganhou tudo que tinha de ganhar, vai pra casa e pronto.

A terceira corrida seguida da Haas nos pontos levou Nico Hülkenberg à primeira página do Mundial de Pilotos. Ele foi a 24, deixando Lance Stroll para trás nos critérios de desempate. A equipe americana também sonha em passar a Meu Cartão Tá Bloqueado pelo sexto lugar entre os construtores. O placar aponta 34 x 31 para o time B da Red Bull.

Algumas caixinhas, agora.

McLaren festeja: duas vitórias seguidas

FAZIA TEMPO – Graças ao trabalho de Oscar Piastri no Azerbaijão e de Lando Norris em Singapura, a McLaren conseguiu duas vitórias seguidas depois de muito tempo sem o que os ingleses chamam de “back-to-back”. A última vez tinha sido nas duas corridas finais de 2012, com Lewis Hamilton nos EUA e Jenson Button no Brasil.

SEM FORÇAS – O forte calor da noite de Singapura deixou muitos pilotos fisicamente debilitados ao final da prova. George Russell saiu trôpego de seu carro. Lewis Hamilton também se queixou de fraqueza. Por isso a Mercedes cancelou as entrevistas dos dois pós-GP. E os jornalistas não ouviram de Lewis as reclamações pela burrice da equipe de colocar pneus macios em seu carro para a largada. “Minha corrida acabou ali”, disse no dia seguinte o heptacampeão. “Nossa estratégia foi errada”, admitiu Toto Wolff.

EU TAVA NERVOSO – Logo depois da largada, Albon entrou no rádio para chamar Franco Colapinto de maluco, pelo mergulho que deu na primeira curva — ganhando quatro posições, inclusive. Depois, o tailandês da Williams desculpou-se. “Eu teria feito o mesmo”, disse.

CIPA – Desde sua primeira edição, em 2008, todos os GPs de Singapura tinham tido alguma intervenção de safety-car. Foram 14 seguidas. Domingo isso não aconteceu pela primeira vez na corrida disputada na cidade-estado do Sudeste Asiático. Já são nove GPs sem safety-car nesta temporada, em 18 etapas.

REDONDINHO – Registrem-se aqui as marcas alcançadas por Carlos Sainz e Lewis Hamilton em Marina Bay. O espanhol, que faz seus últimos GPs pela Ferrari, largou numa corrida pela 200ª vez. Já o inglês da Mercedes bateu nas 350 provas disputadas. Lewis passou Kimi Raikkonen nas estatísticas. O líder é Fernando Alonso, com 395. A F-1 teve 1.119 GPs até hoje. Fernandinho participou de 35,3% deles.

Bem, não podemos deixar de falar alguma coisinha do vencedor, não é mesmo? Norris ganhou a corrida com 20s945 de vantagem para Verstappen. Uma luneta, como a gente diz no automobilismo. Uma curiosidade é que Max, no ano passado, também chegou muito atrás do vencedor em Singapura, no caso Carlos Sainz: 21s441. O detalhe é que entre ele e o espanhol ainda passaram antes pela quadriculada Norris, Hamilton e Leclerc. O holandês terminou a prova em quinto, e foi a única corrida que a Red Bull não venceu em 2023.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS de ver como a McLaren cresceu no campeonato até assumir, em Baku, a liderança entre as equipes. Se dividirmos a temporada em três partes de seis GPs cada, o time papaia marcou 124 pontos na primeira, 171 na segunda e 221 na terceira.

NÃO GOSTAMOS de ver como a Red Bull está se desmanchando nesta temporada. Não só nos pontos — como se vê acima, na comparação com a McLaren, foram 239, 134 e 102 pontos nos três períodos de seis corridas cada deste ano. Mas em sua estrutura, também. A equipe já perdeu o mago Adrian Newey para a Aston Martin. Há alguns dias, quem anunciou a saída para ser diretor esportivo da Audi foi Jonathan Wheatley, que estava na equipe desde 2006. Agora quem está indo embora é o estrategista Will Courtenay, para a rival McLaren. A coisa está feia.