SÃO PAULO (falta alguma coisa…) – Ficou todo mundo olhando para Max Verstappen e Lando Norris. E a Ferrari ganhou. O time italiano fez uma inesperada dobradinha no GP dos EUA, com Charles Leclerc em primeiro e Carlos Sainz em segundo. Foi a terceira vitória do monegasco no ano, oitava na carreira. A equipe de Maranello chegou à sua 87ª dobradinha na história. Verstappen foi o terceiro e Norris, o quarto. Na pista, quando a prova terminou, as posições dos dois estavam invertidas. Mas o inglês da McLaren tomou uma punição de 5s por passar Verstappen, no fim da corrida, por fora da pista. Os comissários consideraram que ele levou vantagem por isso, embora o piloto da Red Bull também tenha saído dos limites da pista quando se defendia. Mas estava na frente. Não ganhou posição; perdeu.
Max, assim, ampliou sua vantagem no Mundial mais um pouco. Chegou a Austin 52 pontos à frente de Norris. Ontem, ao vencer a Sprint, essa diferença subiu para 54. Agora são 57. Faltam cinco etapas para terminar o Mundial. Para ser campeão, Lando precisa, a cada fim de semana restante, marcar 11,5 pontos a mais que o rival. São 146 pontos em jogo, ainda, já que duas etapas serão “duplas”, por assim dizer, com Sprints: Interlagos e Catar.
Não acabou, a matemática não autoriza tal vaticínio. Mas tirar o tetra de Verstappen, nesta altura do campeonato, está mais para milagre do que para tarefa complicada.
O GP dos EUA, disputado com sol e céu azul, foi decidido na largada. Enquanto Verstappen e Norris, na primeira fila, se preocupavam um com o outro, Leclerc passou os dois e assumiu a ponta. Sainz veio na balada e foi para terceiro. Landinho caiu para quarto. Endiabrado desde ontem, o espanhol da Ferrari partiu para cima do holandês rubro-taurino e os dois trocaram insultos e centímetros ao longo dos mais de 5,3 km do circuito numa primeira volta muito bonita.
Hamilton, que tinha largado muito bem, ganhando cinco posições, rodou na terceira volta. Sozinho, sem ter nada ou ninguém para responsabilizar. Atolou na brita e pediu desculpas à equipe. Se disse, depois, “devastado”. A direção de prova acionou o safety-car. Para o inglês da Mercedes, acabava ali um fim de semana, como dizem, para esquecer. E foi o primeiro safety-car da temporada desde o GP do Canadá, nona etapa do Mundial, mais de quatro meses atrás.
A relargada aconteceu na quinta volta. Leclerc, Verstappen, Sainz, Norris e Oscar Piastri eram os cinco primeiros. Charlinho conseguiu, em uma volta, abrir mais de 1s sobre Max. Era importante, para se livrar das ameaças com asa móvel. A Ferrari tinha um bom ritmo de corrida, como já mostrara na véspera, na Sprint. Verstappen ficou mais para Sainz, o terceiro, que para Leclerc, o líder.
Na nona volta, porém, Carlos informou pelo rádio que estava sem potência nas saídas de curva. E relatou um estranho cheiro de gasolina no cockpit. A Ferrari disse que não tinha o que fazer. “Mas tá cheirando muito forte!”, voltou a reclamar Sainz. Nisso, Verstappen foi se desgarrando dele.
(Lembrei de episódios semelhantes com meus automóveis clássicos. O último vazamento foi no Twingo azul. Escapou uma braçadeira da mangueira que vinha do tanque, problema resolvido em coisa de minutos, com o uso de uma providencial chave de fenda que sempre levo comigo.)
Os engenheiros de Maranello se debruçaram sobre a questão e mandaram Sainz girar algum botão no volante. “Delta 16”, orientaram. Isso feito, informaram: “Agora está bem melhor”. Se disseram que sim, quem somos nós para questionar? Carlos retomou a labuta e foi em frente. Não falou mais de cheiro de gasolina.
Um bom nome da corrida, na altura da 12ª volta, era Liam Lawson. Largara em último e já ocupava a 11ª colocação. Andava bem o carro de sua equipe, a conhecida Tá Sem Sinal a Maquininha Você Tem Pix?, com Yuki Tsunoda em oitavo. O neozelandês, substituto de Daniel Ricciardo, travara um bom duelo com Fernando Alonso, que tem idade para ser seu avô, e se saiu melhor. Por outro lado, a Mercedes era uma vergonha só, com Russell – que largara do pit lane depois de destruir o carro na classificação – suando sangue para ultrapassar Valtteri Bottas, o que só conseguiria na volta 14.
Foi nesse momento que os torcedores de Verstappen suspenderam a respiração. Pelo rádio, a Red Bull avisou que tinha alguma coisa errada em seu carro. “Estamos tentando resolver, toca o barco aí”, falou Gianpiero Lambiase, seu engenheiro. Max nem perguntou o que era.
A prova entrou em modo tédio, com pouquíssimas disputas. Russell – punido por empurrar Bottas para fora da pista – escalava o pelotão e conseguia uma ou outra ultrapassagem. Tsunoda se defendia de Sergio Pérez e Nico Hülkenberg. Então, na volta 19, começaram os pit stops. Pierre Gasly, que era o sexto colocado, parou. Yuki fez o mesmo. Idem para Kevin Magnussen. Quem largou de pneus médios (quase todo mundo) colocou duros. Lá na frente não acontecia nada: Leclerc, Verstappen, Sainz, Norris e Piastri nas cinco primeiras posições. Pérez, com as paradas dos que estavam à sua frente, aparecia em sexto.
Sainz, da turma da ponta, foi o primeiro a parar para colocar pneus duros. Voltou em quinto. Era uma ameaça a Verstappen, que quando parasse poderia perder o segundo lugar para a Ferrari #55. A ideia do time italiano era justamente essa, o tal undercut. Max não se preocupava muito com isso. Seu objetivo continuava sendo um só: chegar à frente de Norris, o que estava conseguindo. O possível problema relatado pelo rádio antes desapareceu. Mas Lando estava se aproximando, agora em terceiro.
Então a Red Bull chamou Verstappen para os boxes, na volta 26. Como se imaginava, Sainz passou e assumiu o quarto lugar, desenhando uma dobradinha da Ferrari – Norris e Piastri, segundo e terceiro, não tinham parado ainda. O líder Leclerc parou na volta 27. Voltou em terceiro. Na pista, McLaren fazendo 1-2. Por pouco tempo, porque ambos estavam devendo seus pit stops.
E estava demorando para a equipe papaia chamar seus pilotos. O britânico só foi para os boxes na 32ª volta. Olho na pista para ver se Verstappen recuperaria a posição. Assim foi. Lando voltou atrás do #1 da Red Bull. A diferença era superior a 6s. Finalmente veio Piastri para a troca, na 33ª volta. Com os cinco primeiros já de pneus trocados, a ordem agora era Leclerc, Sainz, Verstappen, Norris e Piastri. Russell, Lawson e Franco Colapinto, sexto, sétimo e oitavo, ainda não tinham parado.
Lando tinha pneus seis voltas mais novos que Verstappen. A pergunta era: será que essa borracha teria uma diferença tão grande de performance a ponto de permitir um ataque? A vantagem de Max não era muito confortável. Na volta 36, caíra para 4s4. E Norris acelerando. Verstappen entrou no rádio. “Estes pneus estão muito ruins!”. Seus tempos de volta mostravam que era verdade. Norris virava 1s mais rápido que ele.
Na volta 40, a 16 do final, Leclerc liderava tranquilamente com 6s de vantagem sobre Sainz. Ali estava tudo resolvido. Verstappen, em terceiro, já via Norris, o quarto, no retrovisor. A diferença era inferior a 3s. Piastri, Russell (sem pit stop), Pérez, Colapinto (também com os mesmos pneus da largada), Hülkenberg e Lawson eram os dez primeiros. O neozelandês fazia uma ótima corrida. Fora um dos últimos a parar e, mesmo tendo largado no fundo do pelotão, já entrava na zona de pontos.
Colapinto parou na volta 40 e Russell foi o último a trocar pneus, na 41ª. Era uma corrida de apenas uma parada, para surpresa de muita gente. A fase final da prova seria definida pelo desgaste de pneus de cada um. O mais ameaçado era Verstappen, em terceiro. Norris se aproximou rapidamente e na volta 43 a diferença era de 1s3 para o líder do campeonato. O ataque era inevitável e Max não teria muito o que fazer. Jogar tachinhas no asfalto? Óleo? Soltar fumaça? Suspirar desconsolado e engolir o choro?
Norris pôde abrir a asa móvel a partir da volta 44, quando se viu menos de 1s atrás do rival. Não se precipitou. Teria tempo de estudar as linhas de Verstappen para escolher o melhor momento para a ultrapassagem. Certo?
Errado.
Max é um mestre em se defender e dificultou o quanto pôde a ação do concorrente sem recorrer a manobras agressivas, apenas impedindo a aproximação da McLaren nos pontos onde seria mais difícil evitar um “passão”, gerindo muito bem o nível de suas baterias que dão potência extra ao motor.
Mas faltavam muitas voltas para o final, seria praticamente impossível sustentar a posição por tanto tempo, certo?
Errado.
O que se viu nas nove voltas seguintes à primeira abertura da asa móvel de Norris foi uma aula de Verstappen. “Praticamente impossível” não é “impossível”, e assim o holandês conseguiu se manter à frente do carro #4 até a volta 53, quando finalmente o inglês tomou uma atitude e passou. Mas fê-lo por fora dos limites da pista. Imediatamente Max reclamou. “Ele tem de me devolver a posição”, falou, calmamente, pelo rádio. Lando, como se respondesse diretamente a ele, explicou aos seus que tinha sido forçado pelo adversário para a área de escape. Ambos, no fundo, excederam os limites da pista. Os comissários abriram uma investigação.
A última briga da corrida foi a disputa entre Pérez, sexto, e Russell, sétimo. George tinha pneus bem mais novos. E conseguiu passar na última volta. Lá na frente, a Ferrari fechou a prova sem sobressaltos, Leclerc em primeiro, Sainz em segundo. E antes mesmo da bandeirada veio o aviso da punição para Norris: 5s por levar vantagem ao exceder os limites da pista na ultrapassagem sobre Verstappen. Lando recebeu a quadriculada em terceiro, mas caiu para quarto com o ajuste do tempo. Max herdou o pódio.
Piastri, Russell, Pérez, Hülkenberg, Lawson e Colapinto fecharam a zona de pontos. Que não passem em branco os resultados dos dois últimos: novatos, pontuaram à frente de companheiros com muito mais quilometragem no lombo. A Red Bull achou seu menino para o futuro – na filial, para ganhar casca, ou para a matriz, se achar que já dá para mandar Pérez passear. A Williams vai continuar tentando colocar o argentino na Sauber/Audi. Se ele não tiver um carro no ano que vem será um desperdício de talento.
A McLaren não reclamou histericamente da punição a Norris. Mas não gostou, claro. O inglês já tinha excedido os limites da pista outras vezes e estava, digamos, “pendurado” pelos comissários. Mas foi punido, mesmo, por ganhar vantagem por fora da pista. O piloto até se queixou, mas disse: “Não sou eu quem faz as regras”. Andrea Stella, chefe do time, ficou zangado. “O jeito que os comissários interferem nos resultados não é adequado”, disse.
O que chamou mais a atenção, ao menos deste que vos bloga, foi a falta de decisão de Lando para atacar Verstappen com tantas voltas pela frente a partir do momento em que colou nele. É verdade que a diferença de equipamento não era tão grande assim — a McLaren não emocionou ninguém durante o fim de semana. Mas o inglês tinha um carro um pouco mais rápido. E a necessidade de passar para manter acesas as esperanças de título. Quando resolveu fazer, fez tudo errado.
Se as coisas ficaram mais claras no Mundial de Pilotos com Verstappen abrindo um pouco mais de Norris e menos provas pela frente, o Mundial de Construtores está abertíssimo. A Ferrari ficou animadinha com a possibilidade de ser campeã. Por que não? Na classificação, a McLaren ainda lidera com 544 pontos. A Red Bull foi a 504. Já a Ferrari saltou para 496. Os italianos, no Texas, marcaram 55 pontos, contra 28 dos papaias e 29 dos rubro-taurinos.
Dá para sonhar.
