Blog do Flavio Gomes
F-1

AQUI NÃO PODE (19)

SÃO PAULO (até o próximo) – Eu costumava chegar bem cedo a Interlagos em GPs do Brasil na época em que trabalhava em rádio. Entrávamos no ar às 7h e só encerrávamos as transmissões perto das 16h, porque era a hora em que começava o futebol. Depois tratava de mandar meus textos para os jornais […]

Interlagos, 6 da manhã: o começo de um dia inesquecível

SÃO PAULO (até o próximo) – Eu costumava chegar bem cedo a Interlagos em GPs do Brasil na época em que trabalhava em rádio. Entrávamos no ar às 7h e só encerrávamos as transmissões perto das 16h, porque era a hora em que começava o futebol. Depois tratava de mandar meus textos para os jornais que recebiam minha cobertura. Costumava sair da sala de imprensa bem tarde, para chegar em casa e desmaiar de cansaço.

Foi-se essa época, porém. O horário de largada da corrida foi mudando ao longo dos anos, e hoje voltei um pouco no tempo quando meu despertador tocou às 4h30, o dia longe de amanhecer. Foi por necessidade. A classificação de ontem foi cancelada, marcaram para as 7h30 de hoje, era preciso sair cedo para não correr o risco de chegar atrasado.

A foto acima foi tirada por um amigo exatamente às 6h, quando entrei no autódromo para cobrir um GP na capital paulista pela 32ª vez. Desde 1990, quando a corrida voltou para a cidade, só não estive em duas edições — a de 2021, porque estava morando na Bahia, e do ano passado, porque não tive credencial.

Uma de minhas diversões é escolher um carro bacana para usar no fim de semana da F-1. Já vim de DKW, Lada, Trabant, Wartburg, Karmann-Ghia, Vemaguet, Variant, Passat, meu velho e bom A3… Este ano trouxe o valente Gol GT, 38 anos nas costas, sonho de consumo de quando era moleque que parecia inatingível.

Isso não tem importância nenhuma para ninguém, exceto para mim. Fantasio que quando ele voltar para meu pequeno galpão, provavelmente amanhã, terá assunto para conversar com os outros — que já viram Senna, Prost, Mansell, Barrichello, Schumacher, Hill, Vettel, Button, Alonso, Hamilton, Massa, títulos sendo decididos, corridas com sol, chuva, frio, calor, um pouco de tudo.

O Golzinho testemunhou de seu posto privilegiado de observação uma das atuações mais brilhantes de um piloto na história da categoria. A F-1 realizou hoje seu 1.122º GP, e apenas cinco vezes alguém venceu largando de 17º ou mais. Foi o caso de Verstappen, que praticamente garantiu o tetracampeonato.

Deixo o autódromo feliz por ter visto de perto tal façanha. É legal ter história para contar, embora a cada dia que passa tenha a impressão de que há menos gente interessada naquilo que conto. Saio sem saber direito se, do ponto de vista jornalístico, as milhares de letrinhas batucadas no teclado do computador e postadas nesta plataforma já considerada obsoleta, um blog, tiveram importância para alguém.

Não escrevo mais para jornais, veículos em extinção, nem trabalho em rádio. Resisto, talvez por preguiça, certamente por não dar muita bola, às mídias instantâneas e superficiais que hoje distribuem o que se chama de “conteúdo”. Não se trata de um conflito com a modernidade, aquele papo de “no meu tempo era assim”, “antigamente era assado”. Acho apenas tudo muito descartável e desinteressante.

Gosto de escrever. Foi o que vim fazer aqui. E enquanto alguém ainda ler, é o que continuarei fazendo.

Aqui ainda pode.