Blog do Flavio Gomes
F-1

QUEM É O ALBERT? (1)

SÃO PAULO (sol, seco, 23°C no lindo ambiente, 38°C no asfalto) – A gente adora fazer previsões na F-1, pra dar uma de espertão. No começo da semana, no “Bem, merdinhas”, melhor programa das noites de segunda no YouTube, que derrubou o “Bem, Amigos” e acabou com as carreiras do Galvão Bueno e do Cleber […]

SÃO PAULO (sol, seco, 23°C no lindo ambiente, 38°C no asfalto) – A gente adora fazer previsões na F-1, pra dar uma de espertão. No começo da semana, no “Bem, merdinhas”, melhor programa das noites de segunda no YouTube, que derrubou o “Bem, Amigos” e acabou com as carreiras do Galvão Bueno e do Cleber Machado, mandei um palpite para o GP da Austrália. Fui assertivo e não hesitei: “Ganha o Leclerc”. Falei com tanta firmeza que quem assistia deve ter pensado que eu tinha alguma informação de cocheira, ou que tinha acabado de trocar mensagens de WhatsApp com Zak Brown e Christian Horner.

Olhem as tabelas de tempos aí em cima. Quem foi que terminou o primeiro dia na Austrália na frente? Hein? Quem foi?

Leclerc: confirmando minhas previsões

Foi puro chute, mas por enquanto deu certo. Leclerc, conhecido por estas bandas como Chaleclé, fechou a sexta-feira em Melbourne com o melhor tempo: 1min16s439. Ainda não superou a pole do ano passado, 1min15s915, de Verstappen. Esse tempo deve cair na madrugada de sábado. Os carros voltam à pista hoje à noite para o terceiro treino livre e às 2h definem o primeiro grid da temporada. A tendência é de carros sempre mais rápidos de um ano para o outro quando um regulamento técnico não muda muito.

As atividades em Albert Park (até hoje não sei quem é esse Albert; deve ter sido importante, virou nome de parque) começaram ontem à noite. E antes que me perguntem, não sei patavinas da transmissão da Bandeirantes, porque estava tomando chope com meus irmãos num barzinho e só acompanhei as imagens pela TV, sem ouvir a narração. Admito que fiquei curioso sobre as primeiras palavras do rapaz que ficou na corda bamba por seus comentários transfóbicos, mas poderia apostar que a orientação foi: não fala nada, não toca no assunto. É a cara do canal. Quem viu com atenção, se puder, conte aqui.

Sainz: Williams dá um passo à frente

Na pista, dois destaques no primeiro treino livre. O primeiro, esse carrinho azul aí em cima. Carlos Sainz ficou um bom tempo ponteando a tabela e terminou a sessão em segundo. Seu companheiro Alexander Albon foi o sexto. É claro que é só o primeiro treino do ano, mas a Williams deu bons sinais novamente, como fizera nos testes de pré-temporada no Bahrein. E confirmou, por enquanto, as expectativas de que pode brigar pela ponta da Série B da categoria, o campeonato paralelo travado entre as equipes que não se chamam Ferrari, Red Bull, Mercedes ou McLaren.

O segundo destaque foi esse carrinho branco e preto e vermelho batido aí embaixo. É o de Oliver Bearman, que deu a primeira pancada do ano. Foi séria, tanto que o quase estreante nem participou da segunda sessão com a Haas. Não deu tempo para arrumar o carro e nas lojas de autopeças no entorno do parque ainda não chegaram algumas coisas de 2025.

O inglês, que é uma simpatia, já deu as primeiras declarações no estilo autoimolação pública: “Acho que exagerei um pouco, e muito cedo. É meu estilo, mas não é o estilo certo para a Fórmula 1”. Foi mais ou menos o que disse. Já deu prejuízo. Começa o ano com uma anotação na caderneta.

Bearman: pancada precoce

Como fui dormir muito tarde e deixei para escrever de manhã e ainda estou com sono mesmo depois de duas xícaras de café solúvel Santa Clara, que comprei num mercado em Natal, vou apelar para as caixinhas coloridas para resumir o resto desta sexta em Melbourne. Assim não preciso gastar meu talento literário para encadear parágrafos.

E O HAMILTON? – O Hamilton vai bem, obrigado. Ficou em quinto na segunda sessão a 0s4 de Chaleclé. Disse que ainda está aprendendo como funciona a Ferrari, os nomes dos mecânicos, onde fica o armário, onde pega café, como é o tempero do cozinheiro, qual o pedal que acelera, o formato do volante, esses detalhes irrelevantes. Não foi lá muito empolgante, a estreia. Para os fãs mais emocionados, as coisas estão acontecendo ainda num ritmo lento. Quem achava que o cara ia chegar explodindo a roleta se enganou, claro. Porque não é assim que as coisas funcionam na F-1. Hamilton passou a vida em carros da Mercedes. Desconfio que saiu da maternidade num carrinho com uma estrela de três pontas na frente. Leva algum tempo para se acostumar, mesmo. Mais habituado a vestir vermelho, seu companheiro monegasco ficou em primeiro, mas não se ilude: “É cedo para qualquer conclusão”, falou Charlinho.

E O VERSTAPPEN? – Esse não estava muito feliz, não. Quinto no primeiro treino, sétimo no segundo. Disse que o carro é equilibrado, mas não tem aderência. Um automóvel com quem se pode conversar, tem opiniões bastante sensatas, mas nenhuma muito convicta. Um isentão. Você sai dele sem saber o que pensa. Mais ou menos isso. Seu prognóstico: “Não vou brigar pelas primeiras posições”. Então, beleza. Problema seu. Cada um com seus pobrêma. Quem é tetra e quer o penta é você. Se vira.

E A MCLAREN? – Apesar de meu palpite leclérquico, parece mesmo ser a favorita para o fim de semana. Mas seguirei com o #16 da Ferrari até o fim. A McLaren mostrou o melhor e mais consistente ritmo de corrida quando seus pilotos foram para longos stints. Na classificação dos dois treinos, Norris foi o mais rápido da primeira sessão e Piastri ficou em segundo na segunda. Tudo na paz papaia.

E O BORTOLETO? – O fim de semana começou com o rapaz recebendo uma aula rápida de F-1 fora da pista. Os tais “mind games” que atrapalham tanto quando se dá muita importância ao que não tem. Explico. Alguém entrevistou Helmut Marko sobre os novatos e fez uma espécie de “tierlist”, ranqueando os seis meninos (Hadjar, Bortoleto, Lawson, Antonelli, Bearman e Doohan) em “gavetas” A, B ou C. Acho que foi isso, não prestei muita atenção. O que sei é que Marko disse achar que Bortoleto não tem “velocidade pura” e o colocou na prateleira B. “Ooooooh!”, disseram os patriotas das redes sociais. “Marko falou que Bortô é um piloto B! Uma ofensa ao nosso Brasil!” Que chatice. Aí Bortoleto foi entrevistado sobre o assunto, porque na F-1 é assim: o que um fala aqui o outro vai rebater lá, se for bobo. Tivesse um bom “media training”, o brasileiro responderia apenas: é a opinião dele, alguém muito experiente e que descobriu muitos jovens talentos, mas são os resultados na pista que, no fim, dizem quem é quem. Pronto, assunto resolvido. Mas no fim acabou falando um monte, citou seus títulos na F-3 e na F-2, se defendeu com unhas e dentes, parecia querer convencer o perguntador que não era um “piloto B” e que estava sendo injustiçado pelo veterano ex-piloto e guru da Red Bull. Aí terminou o primeiro treino livre em 15º, na frente de Lawson, e vieram os patriotas às redes sociais: chupa Marko, aqui é Brasil, mano, piloto B é o caralho! Que chatice. Bom, vai ser assim o ano todo, vou tentar não dar muita bola. Na prática: Gabriel completou 50 voltas sem grandes problemas e na segunda sessão ficou em 18º, com Hülkenberg, seu companheiro kique-estêique-sáubero em oitavo, o que é um bom sinal, talvez o carro não seja tão ruim assim. Mas vai brigar com a Haas lá atrás, de qualquer forma, e não tem nada de errado nisso. Se qualquer um dos dois passar ao Q2 será um milagre.

Pirelli informa: assim funcionam os pneus

E A MERCEDES? – Foi mais ou menos. Russell gostou do carro com pneus médios e duros, mas com os macios a coisa não virou. O que é um problema, pois os macios são os da classificação, e é melhor classificar bem para não ficar preso no trânsito pesado de Melbourne. Ele que olhe a tabela acima e procure entender como funciona a borracha nessa pista. E mande calibrar direito: 25,5 na frente, 22 atrás. Antonelli terminou o dia em 16º. George, em décimo. Kimi levou uma lancheira dos Power Rangers para a pista e Toto Wolff disse que não precisava, que tem sucrilhos para ele na salinha da equipe e que a mãe dele não precisa mandar lanche. “Mas tem laranjada?”, perguntou Kimi. “Eu só tomo laranjada de manhã.” Tem laranjada, respondeu Toto.

E O ALONSO? – O Alonso anda mal humorado. Só porque metade do grid não tinha nem nascido quando ele começou a correr. São uns moleques que ficam o dia todo no celular, não conversam com ele, não têm assunto e ficam gravando vídeos para o TikTok. Perguntaram do carro. “O carro anda, o motor funciona, os freios brecam, a caixa de câmbio muda as marchas para cima e para baixo, então estamos bem.” E o ano nem começou direito.

E O RESTO? – Achei interessante o desempenho da Pode Parcelar?, com os dois pilotos. Hadjar terminou a sexta-feira como o melhor estreante, em sexto. E Tsunoda foi o quarto. O carro, para mim, tem a pintura mais legal do ano, gosto de carro branco. Não tinha impressionado muito na pré-temporada, mas andou bem nos dois treinos. E Hadjar, conhecido por ser um pouco afoito, não decepcionou. Longe disso. Será a grande surpresa do ano? Eu digo que ainda é cedo, cedo, cedo. Vamos esperar mais um pouco. Tem 24 corridas pela frente.