SÃO PAULO (começamos bem) – Olha, vou dizer um negócio que vocês talvez achem que sou maluco. Mas vou dizer mesmo assim. O aquecimento global e os eventos climáticos extremos vão acabar com o planeta em breve, mas antes disso vão nos divertir muito quando tiver corrida de Fórmula 1. As últimas grandes provas da categoria devem sua beleza ao clima. Às tempestades, ventanias e furacões. Às chuvas que vêm e vão, ao sol que aparece de repente e some num estalar de dedos, aos cumulonimbus que se aproximam com seus raios e trovões. Às enchentes, desabamentos e alagamentos.
Foi o clima que fez do GP da Austrália, que abriu a temporada nesta madrugada, uma corrida fantástica e dramática, daquelas que a gente só não vai lembrar por um tempão porque domingo que vem já tem outra na China, e as coisas acontecem muito rapidamente e vamos esquecendo tudo sem nem perceber. Mas, pelo menos esta semana, até Xangai, vai ser bom rememorar esta prova de Melbourne.
Ah, ganhou Lando Norris, da McLaren. Max Verstappen foi o segundo com a Red Bull e George Russell, da Mercedes, ficou em terceiro. Dos 20 que largaram, sobreviveram 14 à pista molhada que secou e depois molhou de novo e terminou com o sol aparecendo sobre o Albert Park. Norris venceu pela quinta vez na carreira. Verstappen, que desde o GP da Espanha de 2022 liderou o Mundial por 63 GPs consecutivos, se vê agora na condição de caçador dos carros papaia. Gabriel Bortoleto fez sua estreia pela Sauber e não terminou a corrida. Bateu no fim, como a maioria dos novatos que povoam o grid neste campeonato. Entre eles, o melhor, disparado, foi Kimi Antonelli, da Mercedes: recebeu a bandeirada em quarto, mas tomou uma punição de 5s e ficou em quinto. A Mercedes recorreu e ele voltou ao quarto lugar. O italiano de 18 anos largou em 16º. Lewis Hamilton, em sua primeira corrida pela Ferrari, foi apenas o décimo. “Pior do que esperava”, admitiu o inglês.
O primeiro drama da prova australiana aconteceu antes mesmo de ela começar. Na volta de apresentação, o desafortunado Isack Hadjar deu uma aceleradinha inocente para esquentar os pneus, perdeu a traseira, o carro rodou e bateu. Deu dó. Ele estava em 11º no grid. Tinha sido o melhor estreante na classificação. O francês, de apenas 20 anos, não se conformava. Lágrimas escorriam por seu rosto por dentro do capacete. Não dava para ver, claro. Mas lágrimas são lágrimas e elas estavam lá. O menino chorava copiosamente.
(Por que a gente diz “copiosamente”?)
Hadjar, quando chegou ao paddock, ainda de capacete e chorando copiosamente, foi consolado por Anthony Hamilton, pai de Lewis. Cena bonita de se ver. Existe amor na F-1. Sem ironia alguma. No desfile dos pilotos, o jovem de origem argelina fez uma selfie com o inglês heptacampeão mundial, de quem é fã. Anos atrás, moleque de tudo, tinha feito foto parecida com o ídolo.
A largada foi abortada e todo mundo voltou para o grid. Todos os carros estavam com pneus intermediários. A pista estava molhada e os termômetros marcavam 15°C. Ontem, passaram dos 30°C. É verão na Austrália. O atraso, para a remoção do carro da Tem Desconto no Débito de Hadjar, foi de 15 minutos. A distância original de 58 voltas caiu para 57.
Não chovia na hora da largada. A água caíra com gosto algumas horas antes, cancelando até a preliminar de F-2. A F-3 teve apenas 13 voltas – e foi vencida pelo pernambucano Rafael Câmara, em sua rodada dupla de estreia na categoria; ele largou na pole.
Norris partiu bem e Verstappen, em terceiro, melhor ainda. Deu um drible desconcertante em Oscar Piastri e assumiu o segundo lugar. Mas antes mesmo de terminar a primeira volta outro novato bateu: Jack Doohan, sozinho. O carro destracionou e foi parar no muro. Safety-car e bandeira amarela. Mas as mazelas não eram exclusivas da garotada. Mesmo com safety-car na pista, todos lentos e em fila indiana (por que a gente diz fila “indiana”?), Carlos Sainz escorregou e bateu sozinho na sua primeira aparição pela Williams. Três abandonos em menos de uma volta. Uau.
(Um pequeno parêntese para Doohan. É sabido que Flavio Briatore quer colocar Franco Colapinto para correr logo na Alpine, tanto que já contratou o argentino como reserva. O australiano teria seis corridas para mostrar serviço antes de levar um pé nos fundilhos. Óbvio que não vai, porque o carro francês não é grande coisa e o piloto, tampouco. Uma batida solitária na primeira volta da primeira corrida da temporada só dá munição ao dirigente italiano, raposa velha cheia das manhas. Coitado do Doohan. Mas é a vida.)
Enquanto o safety-car dava voltas esperando pelo resgate dos sinistrados, a TV mostrou a repetição da largada. Bortoleto, que era o 15º no grid, fechou a primeira volta em 14º, mas foi ultrapassado por Antonelli e Nico Hülkenberg, seu companheiro, que se saiu bem e pulou para 12º. O brasileiro foi cauteloso e não quis se envolver em confusão, no que fez muito bem. Afinal, três carros que estavam à sua frente no grid já estavam alijados da competição. Mesmo sem fazer nada, eram posições ganhas. Na faixa.
Norris, Verstappen, Piastri, Russell, Charles Leclerc, Yuki Tsunoda, Alexander Albon, Hamilton, Pierre Gasly e Fernando Alonso eram os dez primeiros quando a prova foi reiniciada, na volta 8. Lando conseguiu escapar das más intenções de Max e se manteve na ponta. A pista ainda estava bem molhada em alguns pontos, mas em outros começava a secar. Pneus slicks, porém, nem pensar. Mas já se fazia necessário resfriar os pneus intermediários onde o asfalto tinha água. E pelo rádio os engenheiros avisavam seus pilotos que viria mais chuva, o que dava um nó na cabeça dos pilotos.
Antonelli fez a primeira ultrapassagem lá no fundão, ganhando a 12ª posição de Hülkenberg. Toto Wolff não viu porque estava corrigindo o dever de casa do menino. E também não viu o garoto rodar e perder a posição para o alemão da Sauber logo depois. Não bateu em nada e voltou a atacar o veterano da Sauber. Com 16 voltas, os três primeiros já tinham desgarrado do segundo pelotão. Russell, o quarto, estava mais de 12s atrás do líder.
Na volta 17, quem bobeou foi Verstappen. Passou direto numa curva e perdeu o segundo lugar para Piastri. Antonelli, mais atrás, passou Hulk de novo. O holandês entrou no rádio e disse que seus pneus tinham acabado. “Se parar agora você vai perder posições, Max”, foi a resposta. “Ah, não diga.”
Sem Verstappen para atrapalhar, Piastri foi embora e cogitou atacar o companheiro. O rendimento dos dois carros da McLaren era nitidamente superior. A chuva deu uma apertadinha na altura da 22ª volta. Quem parecia bem adaptado às condições traiçoeiras da pista era Antonelli, que passou Lance Stroll e foi para 11º. “Tio Toto! Viu essa? Viu?”, gritou, pelo rádio. “P11!”. “Kimi, raiz quadrada de 144 é 12, não 11”, respondeu o chefe, irritado com os garranchos no caderno de matemática.
A corrida se aproximava da metade e era um passeio da McLaren. Norris tinha 1s5 de vantagem sobre Piastri, que já abrira mais de 13s sobre Verstappen na volta 27. Os carros papaia viravam tempos, em média, 1s por volta melhores que os demais. Uma liga diferente. A pergunta era: será que iriam brigar pela ponta, os rapazes? Sempre tem risco, nessas horas.
Piastri corria em casa. O que, para ele, parecia não ter muita importância. Ele é frio como um picolé. A asa móvel tinha sido liberada desde a 14ª volta, e na 30ª o australiano reduziu a distância para o inglês para menos de 1s, o que permitiria o uso do dispositivo. A chance de ultrapassagem era real. Na mureta da McLaren, tensão. “Vai dar merda”, disse alguém. Não foi para a transmissão isso, mas eu fiz a leitura labial de um cara lá usando uma câmera num drone.
Na volta 32, Norris deu uma respirada porque Piastri cometeu um pequeno erro, perdendo tempo. A diferença subiu para 2s3. Então, na volta 34, Alonso bateu. Seu carro escapou na curva 6 e ele foi parar no muro. O safety-car foi chamado e nos boxes todas as equipes tiraram seus pneus slicks da garagem. Quem estava perto da entrada parou imediatamente. Hamilton foi o primeiro a colocar pneus para pista seca, compostos duros para ir até o final da corrida se não chovesse de novo. Verstappen e Albon colocaram médios, assim como a dupla da Sauber. Norris e Piastri optaram pelos duros, como Lewis, Leclerc e a dupla da Mercedes.
Com quase todos de pneus novos para pista seca, as posições se mantiveram inalteradas: Norris, Piastri, Verstappen, Russell, Leclerc, Tsunoda, Albon, Hamilton, Gasly e, agora, Antonelli nas dez primeiras posições. Bortoleto era o 13º. Apenas a dupla da Haas ficou na pista com pneus intermediários. No fim, Esteban Ocon e Oliver Bearman trocaram também. Já tinha um trilho seco, é verdade. Mas o céu estava prestes a desabar sobre as cabeças de 131.547 torcedores no Albert Park, o que deixaria Obelix apavorado. Só para registrar, o público total nos quatro dias do evento (em Melbourne tem cobrança de ingresso na quinta-feira) foi de 465.498 pessoas. Se viesse a chuva que as nuvens pesadíssimas anunciavam, a coisa ficaria bem complicada. Para todos.
A relargada demorou e aconteceu apenas na volta 41. Pelo rádio, os engenheiros assustavam os pilotos. “Vem chuva aí! Classe 3!”, berravam. “O que é isso, tio Toto?”, perguntou Antonelli. “Kimi, não é nada. Em vez de ficar se preocupando com essas coisas, por que você não capricha na caligrafia?”, rebateu o tutor do adolescente.
Era um olho na pista, outro no céu. Bortoleto tomou 5s de pênalti por ter sido liberado do pit stop de forma perigosa. Tsunoda, Leclerc, Albon e Hamilton, de quinto a oitavo, se engalfinhavam perigosamente. As nuvens se aproximavam. E a chuva veio mesmo, como alertaram os engenheiros. Na volta 44, os dois carros da McLaren escaparam da pista, que ficou molhada de repente, e um deles foi parar na grama, o de Piastri. Norris correu para os boxes e colocou pneus intermediários. Verstappen assumiu a ponta. Oscar ainda deu marcha-à-ré e desatolou. Foi para os boxes, mas aí Inês era morta e encharcada. Caiu para 15º e saiu da briga pela vitória.
Max ficou com os pneus que tinha, sem muita convicção. Chovia forte. Hamilton assumiu o segundo lugar e Gasly, o terceiro. Leclerc e Tsunoda eram quarto e quinto. Todos de slicks. Com exceção de Max, os demais pagariam caro pela opção de ficar na pista. Norris, já com pneus de chuva, caiu para sexto. A Red Bull sugeriu que Verstappen não trocasse os pneus. Mas não dava. O tetracampeão foi para os boxes e colocou intermediários. A Ferrari deixou seus pilotos uma volta a mais e se deu mal. Lando foi passando todo mundo e retomou a ponta. Então, na volta 47, mais dois novatos abandonaram: Liam Lawson e Bortoleto, que rodaram no asfalto ensaboado e bateram. O safety-car foi chamado de novo. Quem ainda tinha pneus para pista seca teve de colocar de novo os intermediários.
Sobravam 14 carros na pista. Norris, Verstappen, Russell, Albon, Antonelli, Stroll, Hülkenberg, Gasly, Hamilton e Leclerc eram os dez primeiros. Tsunoda, que andou o tempo todo entre os primeiros, coitado, caiu para 11º. Os dois ferraristas, que demoraram a parar, também despencaram.
A relargada veio na volta 52. Lando saltou de novo à frente para se livrar do fantasma de Verstappen, que domava seu carro do jeito que dava. Leclerc passou Hamilton, dando um recado: ainda estou aqui. Depois foi para cima de Gasly e Lewis veio junto. Piastri já era o 11º e também deixou o francês para trás, voltando à zona de pontos.
Na penúltima volta, do nada, Max apareceu colado em Norris. Lando tinha cometido um erro na curva 6 e quase jogou a corrida fora. O holandês começou a abrir a asa e a piscar o farol. Antonelli passou Albon e foi para quarto. “Tio Toto, quarto!”, comemorou. “Pois fique no seu quarto e só saia na hora de jantar!”, bronqueou o chefe, irritado com uma resposta absurda na lição de geografia. “Onde já se viu? Capital da Inglaterra, ele colocou Silverstone”, comentou com um engenheiro da Mercedes. “Vai pegar recuperação, desse jeito.”
Verstappen ensaiou uma pressão, mas não teve carro para passar Norris, que acabou recebendo a bandeirada em primeiro, seguido pelo piloto da Red Bull. Russell completou o pódio. Antonelli foi o quarto, mas de início apareceu em quinto porque levou 5s por ter sido liberado de forma perigosa no pit stop, como Bortoleto. A Mercedes recorreu e horas depois foi confirmado em quarto, com Albon em quinto. Stroll foi o sexto, uma grande surpresa, assim como Hülkenberg, o sétimo. Foi o melhor resultado da Sauber desde o sétimo de Valtteri Bottas no Canadá em 2022, quando o time corria como Alfa Romeo. Leclerc, Piastri e Hamilton fecharam os dez primeiros. Oscar ainda passou o #44 da Ferrari na última volta.
A comemoração da McLaren foi discreta e contida. Talvez um traço de amargor pela dobradinha perdida nas últimas voltas, quando Piastri foi para a grama. Azar dele. Quem não torce para ninguém em especial e viu a prova gostou muito. Sete equipes diferentes marcaram pontos, e a única que colocou dois carros entre os oito primeiros foi a Mercedes. Alpine, Haas e Quer o Comprovante? foram as três que saíram zeradas.
O Mundial de 2025 começou mais ou menos como terminou o de 2024. A McLaren tem o melhor carro e será difícil, nas primeiras etapas, batê-la em condições normais. Mas seus pilotos são instáveis, como deu para ver hoje com Piastri e até com Norris, que na penúltima volta correu o risco de ser ultrapassado por Verstappen. Ele reconheceu que ter o rival colado em sua traseira foi “estressante”. Max parecia ser o mais tranquilo de todos ao final da prova. Disse que se divertiu bastante e que não tinha do que reclamar, já que fez mais pontos este ano do que no ano passado na Austrália – ele abandonou a prova em 2024, com um problema nos freios.
Melbourne voltou a abrir a temporada depois de seis anos. É uma ótima pista para começar o campeonato, menos previsível e segura que o Bahrein, palco da primeira etapa nos últimos quatro anos. Sempre acontece alguma coisa, os muros são próximos, os erros mais frequentes. Em corridas assim, surpresas acontecem. Hoje tivemos algumas, com uma carga dramática deliciosa.
Sim, a chuva ajudou. Mas o mundo está acabando, não esqueçam. Arrisco dizer que veremos cada vez mais provas assim. Enquanto seguirmos destruindo o meio-ambiente, a natureza vai se encarregar de bagunçar as corridas de automóvel. Pelo menos vamos ser extintos com um sorriso no rosto, nós que gostamos dessas coisas.
