Blog do Flavio Gomes
F-1

SHOPEE GP (4)

SÃO PAULO (nossa, que festa…) – Oscar Piastri dominou o GP da China e deu à McLaren a segunda vitória em duas corridas nesta temporada. A equipe papaia conseguiu a 50ª dobradinha de sua história, com Lando Norris em segundo. George Russell, da Mercedes, foi o terceiro — 300º pódio da equipe alemã na F-1. […]

Norris, Brown e Piastri: dobradinha da McLaren

SÃO PAULO (nossa, que festa…) – Oscar Piastri dominou o GP da China e deu à McLaren a segunda vitória em duas corridas nesta temporada. A equipe papaia conseguiu a 50ª dobradinha de sua história, com Lando Norris em segundo. George Russell, da Mercedes, foi o terceiro — 300º pódio da equipe alemã na F-1. O resultado confirmou o favoritismo do time inglês neste início de campeonato. Com uma boa largada de seus dois pilotos e pneus que se desgastaram menos do que temiam todos em Xangai, foi possível completar as 56 voltas com apenas uma parada, reduzindo as possibilidades de imprevistos.

Cerca de três horas depois da corrida, Charles Leclerc, quinto, Lewis Hamilton, sexto, e Pierre Gasly, 11º, foram desclassificados pela FIA. Na dupla da Ferrari, motivos distintos: Lewis teve um desgaste na prancha sob o assoalho maior do que o permitido e Charlinho estava abaixo do peso mínimo de 800 kg. O francês da Alpine também estava mais leve do que exige o regulamento.

A prova, disputada com sol entre nuvens e termômetros marcando 27°C, não foi lá grande coisa. De acordo com os organizadores, o público chegou a 220 mil pessoas nos três dias do evento. Eles viram, sim, uma exibição de gala do time de Woking. Mas suas principais rivais, Mercedes, Red Bull e Ferrari, primaram pela discrição — os italianos com o agravante da desclassificação.

Destaques, mesmo, foram Esteban Ocon, da Haas, em quinto, e seu companheiro Oliver Bearman, cheio de espinha na cara, em oitavo. Gabriel Bortoleto terminou em 14º, colocação já corrigida após as punições aos três pilotos que chegaram à sua frente. Na pista, foi o 17º.

E vamos contar como foi, porque o dia já raiou!

Quem largou mal, surpresa!, foi Verstappen, ultrapassado pelos dois carros da Ferrari nos primeiros metros da prova. E quem largou bem, surpresa!, foi Norris, passando Russell e partindo com segurança para fazer a escolta a Piastri, que manteve a ponta sem grandes problemas. Dois incidentes a registrar na primeira volta. O primeiro foi um ligeiro toque de Leclerc em Hamilton, que quebrou um pedaço da asa dianteira do monegasco. Evento imediatamente notado por Max Verstappen, que entrou no rádio e deu a notícia para a Red Bull: “Quebrou a asa, quebrou a asa, lá-lá-lá-lá-lá-lá! Vou passar ele no final, lá-lá-lá-lá-lá-lá”. Segundo incidente: Bortoleto rodou sozinho ao tentar passar Bearman, foi parar na brita e teve de levar o carro para os boxes para trocar os pneus. Era penúltimo no grid, caiu para último.

Na quarta volta, outro testemunho de dentro da pista, desta vez relatado por Gasly: “Os freios do Alonso estão pegando fogo!”. E estavam mesmo. Fernando tirou o pé, foi para os boxes e abandonou.

Com dez voltas, Piastri, Norris, Russell, Hamilton, Leclerc, Verstappen, Kimi Antonelli, Yuki Tsunoda, Isack Hadjar e Ocon eram os dez primeiros. Todo mundo cuidando dos pneus, principalmente os dianteiros, mormente o esquerdo. A primeira parte da prova seria de estudos. Ninguém atacava ninguém, com todos esperando o momento de parar para, aí sim, decidirem o que fazer.

Ocon, quinto com a Haas: destaque da corrida

Como nada acontecia, as conversas de rádio eram intensas. Na Débito ou Crédito?, Tsunoda pediu para dar uma arregaçada nos pneus dianteiros. “Não queremos”, disse seu engenheiro. “Mas eu quero”, respondeu o japonês. “Então faz o que você quiser, se quiser ir no banheiro, vai, se quiser tomar saquê, toma, não enche, se não precisa de mim, não falo mais nada!” Na Ferrari, Leclerc foi avisado de que iria para o plano B da estratégia traçada antes da corrida. “Acho melhor o plano A”, devolveu o piloto. “Então faz o que você quiser, se quiser ir no banheiro, vai, se quiser tomar saquê, toma, não enche, se não precisa de mim, não falo mais nada!” “Saquê?”, perguntou Leclerc.

As paradas começaram na volta 12. Do pessoal da frente, Yuki foi o primeiro a colocar pneus duros. Voltou em 15º. Depois vieram Antonelli e Hadjar, na volta seguinte. As cartas começavam a ser embaralhadas. Hamilton foi chamado na volta 14. Verstappen foi junto. Os pneus médios, escolha de quase todos no grid (Lance Stroll, Bearman e Liam Lawson largaram de duros), já começavam a esfarelar no novo asfalto chinês.

Na volta 15, o líder Piastri parou. Russell também foi para os boxes. O pit stop do australiano não foi grande coisa. “Demorou um pouco, Oscar”, desculpou-se o engenheiro. “Sim”, falou o piloto. Norris assumiu a ponta. Mas por pouco tempo, porque na 16ª volta fez a sua parada, assim como Leclerc. E quem virou líder? Alexander Albon! A Williams liderando uma corrida! Sabe quando isso tinha acontecido pela última vez? No GP da Inglaterra de 2015 com Valtteri Bottas, hoje trabalhando como recreador infantil na Mercedes.

As paradas aproximaram alguns pilotos, quando a turma voltou dos boxes. Norris e Russell trocaram tinta, mas prevaleceu o #4 papaia, que retomou a posição perdida no pit stop. Leclerc, com sua asa estropiada, se aproximou de Hamilton. Mas não deu em nada, sem briga, sem disputa. Sabem por quê? Porque Hamilton mesmo sugeriu a inversão das posições, já que Charlinho estava no plano, sei lá, F, e ele no, como vou saber?, R. Ou J.

Albon parou na volta 21 e a liderança da Williams virou abóbora. O tailandês, aniversariante do dia, 29 anos, caiu para 14º. Piastri e Norris voltaram a ficar em primeiro e segundo. Russell, Leclerc, Hamilton, Verstappen, Stroll, Bearman, Tsunoda e Ocon fechavam os dez primeiros. Stroll e Bearman, é bom lembrar, tinham largado de pneus duros e esticavam seu primeiro stint. Deu muito certo, como se veria depois.

As posições se acomodaram novamente, então era hora de conversar no rádio. “Me digam alguma coisa, guys”, pediu Hamilton. “Carbonara é com guanciale, não panceta”, respondeu o engenheiro italiano, de pronto. “E oito gemas com pecorino e parmesão para fazer uma cremina”, acrescentou o chefe Frédéric Vasseur, conhecido glutão. Na Mercedes, Toto Wolff perguntou a Antonelli como é que ele tinha sujado o tênis branco novinho um dia depois de comprar no shopping. Kimi falou que foi um menino na escola que pisou no pé dele no recreio e que não teve culpa. “Tênis branco nunca mais volta ao que era”, bronqueou o chefe.

Não era uma boa corrida. Ultrapassagens, quando aconteciam, só lá no fundão e por posições que nada valiam — ainda. Bearman, o único com pneus médios na altura da volta 34, passava em sequência os cágados que encontrava pela frente, como Lawson, Jack Doohan e o opaco Carlos Sainz. Uma segunda janela de pit stops se avizinhava, mas não para todo mundo. Russell, por exemplo, comunicara à Mercedes que não precisaria trocar pneus de novo. Bem, podia estar mentindo. Mas a permanência de Stroll na pista desde o início com os mesmos pneus indicava que os compostos duros talvez aguentassem, sim, até o final. Ninguém sabia direito, porque eles mal tinham sido usados nos treinos.

Hadjar e Tsunoda fizeram a segunda troca nas voltas 35 e 36. O time esperava pontuar, graças às boas posições de largada. Mas por conta dos pit stops, seus dois carros entraram na parte final da corrida lá atrás. E lá ficaram. Stroll parou, finalmente, na volta 37. Caiu para 14º. Hamilton também fez seu segundo pit stop na volta 38. Perdeu só uma posição, para Verstappen, caindo de quinto para sexto. A Ferrari, no fim das contas, usou duas táticas diferentes para seus pilotos: plano G, desclassificar por peso; plano T, desclassificar por danos no assoalho.

Na volta 40, Piastri, Norris, Russell, Leclerc, Verstappen, Hamilton, Ocon, Antonelli, Albon e Bearman eram os dez primeiros. O inglês da Haas era a diversão da prova, com seus pneus médios ajudando nas manobras sobre os que vestiam pneus duros. O último da fila de suas vítimas foi Gasly. O menino foi buscar seu pontinho na marra. Terminou em décimo e subiu para oitavo com os infortúnios ferraristas.

Faltando 15 voltas para o final, a McLaren perguntou a Piastri como estavam seus pneus. “Sim”, disse o líder da corrida. O engenheiro se irritou. “Oscar, queremos saber se os pneus estão bons. Se vai precisar trocar de novo. Se aguentam até o final. Se estão granulando. Se o carro está equilibrado. Vou repetir a pergunta, e espero que você nos dê uma resposta mais completa. Como estão os pneus, Oscar?” “Sim”, respondeu o australiano. O engenheiro jogou o fone de ouvido em cima do teclado e desistiu. “Ele é maluco”, falou para o chefe Zak Brown. E foi embora para o aeroporto.

Nas últimas voltas, Norris passou a reportar problemas nos freios. A equipe tranquilizou o piloto, que não se convenceu muito de que estava tudo bem. Terminaria a prova morrendo de medo, e se o GP tivesse mais uma volta perderia a posição para Russell. Quem se viu em apuros no apagar das luzes foi Leclerc. Verstappen foi-se aproximando da Ferrari #16 e na volta 52 chegou no rival. Conseguiu passar na volta seguinte, assumindo o quarto lugar. Foi a manobra mais bonita da corrida, entre as curvas 1 e 3. Um drible desconcertante, lembrando Dener em cima dos zagueiros da Inter de Limeira.

Piastri venceu com 9s748 de vantagem sobre Norris, que teve de tirar o pé no fim para não se arrebentar num guard-rail com os freios falhando. “Parabéns, Oscar! Grande trabalho! Que corridaça, cuidou dos pneus, foi espetacular! É sua terceira vitória, seu futuro é brilhante, rapaz, eu sabia que a gente não se arrependeria de ter te contratado! Ficamos em primeiro e segundo!”, vibrou o chefe no rádio, já que o engenheiro tinha ido embora. “Sim”, respondeu o australiano. Zak desistiu e também jogou o fone em cima do computador.

Russell fechou o pódio, com Verstappen em quarto. Leclerc, Hamilton, Ocon, Antonelli, Albon e Bearman foram os dez primeiros na bandeira quadriculada. As desclassificações de Leclerc, Hamilton e Gasly (que tinha sido o 11º) fizeram com que Stroll e Sainz entrassem na zona de pontuação em nono e décimo.

É o primeiro ponto do espanhol na Williams, ele que andava meio cabisbaixo. Ocon, Antonelli, Albon e Bearman ganharam duas posições cada. A Haas colocou seus dois carros nos pontos, uma façanha e uma surpresa, já que o time foi o mais mambembe da pré-temporada. Quinto e oitavo, era para comemorar muito, uma reação e tanto do time americano. Como a Quer a Sua Via? pontuou com Tsunoda ontem na Sprint, só a Alpine está zerada no Mundial depois de duas etapas.

Norris lidera o campeonato com 44 pontos, seguido por Verstappen (36), Russell (35) e Piastri (34). A dupla da Ferrari caiu para nono e décimo. Entre as equipes, a McLaren tem 78, a Mercedes foi a 57, a Red Bull soma 36 e a Ferrari, com a perda dos pontos de Leclerc e Hamilton, está em quinto com 17 — mesma pontuação da Williams, mas perdendo nos critérios de desempate.

A F-1 agora faz uma pausa de duas semanas e volta no dia 6 de abril com mais uma corrida de madrugada, no Japão, a primeira de uma rodada tripla que terá depois Bahrein e Arábia Saudita. Maratona braba.

E registre-se que a prova de Xangai mal terminou, já começou a boataria depois de mais uma má atuação de Lawson pela Red Bull. De acordo com a imprensa inglesa, a equipe estaria pensando em substituir o neozelandês metido a besta já em Suzuka. Por Tsunoda, a quem o time nunca levou a sério, mas que não pode ser pior que o playboy de topete com laquê. E no lugar de Yuki? Andam falando em tirar Franco Colapinto da Alpine.

É muita falação, convém ter alguma cautela, mas como diz o ditado, onde há latinha há energético.