SÃO PAULO (o cara é foda) – Max Verstappen larga na pole-position para o GP da Arábia Saudita amanhã Foi a segunda dele no ano, 42ª na carreira. Impressionante. O holandês bateu a McLaren, que vinha gabaritando as folhas de tempos desde a sexta-feira, exceção feita ao primeiro treino livre. Os carros papaia eram franco favoritos à primeira fila. E se pudessem ocupar a segunda, lá estariam também.
Mas Verstappen inverteu a lógica e fez mais uma de suas voltas mágicas. Como em Suzuka, foi aplaudido de pé. Com um carro claramente difícil, fez o que nenhum piloto do grid atual conseguiria. E ninguém deve duvidar dele na prova. Max só não faz chover no deserto. O resto é com ele.
E vamos contar como o rapaz quebrou a banca de novo.
No Q1, a primeira volta de Norris, 1min28s026, foi 0s8 melhor que a de Albon, que estava na liderança quando o inglês fechou a sua. Depois veio Leclerc para a segunda posição, a 0s5. Só que tinha Verstappen na parada. OK, sem carro para bater Lando, teoricamente. A McLaren, em Jedá, é inalcançável. Teoricamente. Mas o holandês ficou a 0s122 dele, como se dissesse: “Ainda estou aqui”. Na sequência, Piastri baixou o tempo do companheiro em 0s007 – 1min28s019.
Na sessão do fim da tarde, de manhã pelo horário brasileiro, Norris havia registrado 1min27s489. Tinha sobras no carro. Teoricamente. Deu o troco no australiano na sua segunda saída no Q1 virando em 1min27s805, 0s214 melhor que o companheiro/rival. E veio Verstappen de novo: 1min27s778, 0s027 à frente de Norris.
Verstappen, certeza?
Sim. Ainda estou aqui.
O Q1 terminou com 17 carros no mesmo segundo, de Max até Jack Doohan – 0s961 de diferença. Vou usar uma forma meio infantil de escrever, para conquistar o público “xóven”: equilíbrio que chama. Foram eliminados, pela ordem, Lance Stroll (que, se pudesse, estaria fazendo artesanato em Itacaré), Doohan, Nico Hülkenberg, Esteban Ocon e Gabriel Bortoleto.
O brasileiro larga mais uma vez em último. Sua melhor volta foi 1s684 pior que a de Verstappen e 0s680 mais lenta que a de seu companheiro de Sauber. Na última tentativa, rodou. Não é um bom fim de semana para Bortoleto, que perdeu um treino ontem com problemas mecânicos em seu carro. “Cometi um erro com o último jogo de pneus. Tinha pegado um vácuo do carro do Max, cheguei mais rápido uns 10 km/h na curva 1, freei tarde, perdi a traseira do carro e rodei”, explicou.
Os dez primeiros na primeira fase da classificação: Verstappen, Norris, Piastri, Kimi Antonelli, Yuki Tsunoda (a 0s448 do parceiro de Red Bull), Alexander Albon, George Russell, Carlos Sainz, Lewis Hamilton e Pierre Gasly.
No Q2, Albon foi de novo o primeiro a ir para a pista para fotografar a tabela de tempos na ponta. Durou pouco, porque logo depois Gasly, Sainz e Piastri deixaram-no para trás. O australiano: 1min27s690. Então, Verstappen: 1min27s529, 0s161 mais rápido que Oscar. Ainda estou aqui. Faltava Norris: 1min27s481, melhor tempo do fim de semana até ali. “Também estou”, falou pelo rádio.
(Isso tudo é invenção minha. Não consta que essa turminha do barulho tenha visto no cinema o exuberante libelo de Walter Salles contra os porcos da ditadura militar. Só que aqui é literatura, rapá!)
Max era uma ameaça, ainda que o favoritismo da McLaren fosse gigantesco, a julgar pelos treinos livres e pela perspectiva de seus pilotos apertarem algum botão mágico no volante no Q3. Bem ou mal, o piloto da Red Bull se insinuava entre os dois papaia. E foi assim que ele terminou o Q2, com Norris à frente e Piastri atrás. Foram eliminados Albon, Liam Lawson, Fernando Alonso, Isack Hadjar e Oliver Bearman. O tailandês perdeu a vaga no Q3 para Hamilton por ridículos 0s007. Avançaram as duplas de McLaren, Mercedes, Ferrari e Red Bull. A eles se juntaram um carro da Williams, de Sainz, e um da Alpine, de Gasly.
E aí vem o Q3. E aí vem a bandeira vermelha. Lando Norris. Pressão que chama.
(De novo escrevi assim, desse jeito ridículo, para agradar os “xóvens”. Tenho sido orientado a isso.)
Norris bateu na curva 5. Passou violentamente sobre a zebra na 4, perdeu o controle e pimba!, deu no muro. “Estou bem”, disse pelo rádio quando seu engenheiro perguntou. “Idiota”, acrescentou, em voz baixa. “Quem é idiota, eu?”, rebateu o engenheiro, fulo. “Idiota é você, que não consegue fazer uma curva!” Lando tentou acalmar o amigo: “Não, não te chamei de idiota. O idiota sou eu. Sou eu, que não sei pilotar um carro sob pressão. Idiota sou eu, que fico fazendo vídeos para o TikTok. Idiota sou eu, que em vez de comprar um avião fico pegando carona com o Max. Idiota sou eu, que fico irritado quando vejo memes com minha cara de sonso. Idiota sou eu, a quem chamam de ‘Dando Molis’. Idiota sou eu, que fico postando foto de prato de macarrão no Instagram”. “Sim”, comentou Piastri, que por acaso estava na escuta.
A sessão foi interrompida faltando 8min32s para o final, na pista que o locutor insiste em chamar de “circuito de corniche”. CORNICHE NÃO É NOME PRÓPRIO, SERÁ QUE PRECISAMOS GRITAR? Seria como chamar pista na praia de Copacabana de “circuito da praia” e não “circuito de Copacabana”. Mas tudo bem. Estou velho para ficar corrigindo os outros.
Só Piastri tinha tempo marcado quando Norris bateu: 1min27s560. Os demais estavam em suas voltas rápidas e tiveram de abortá-las.
Carro removido pela plataforma da seguradora, boxes abertos, Verstappen foi para a pista e, sádico, virou um tempo 0s001 melhor que o do australiano. Ainda estou aqui. Alarmados, os engenheiros, mecânicos, técnicos e acionistas da McLaren saíram gritando com o piloto pelo rádio. “É o Max de novo! Max está em primeiro! Fez um tempo um milésimo melhor! E agora? Oscar, você consegue melhorar?” “Sim.” “Tem certeza?” “Sim.” “Não vai bater o carro que nem o Lando, vai?” “Sim.” “Não, não bata que nem o Lando, o Lando é um idiota!” “Sim.”
Mas quem melhorou foi Russell, com 1min27s407, uma volta muito boa. A pista, aparentemente, estava ficando mais rápida. O inglês da Mercedes foi 0s152 melhor que Verstappen. Piastri também melhorou, 1min27s304. “Boa, Oscar!” “Sim.” “Acha que o Max bate seu tempo?” “Sim.”
Bateu. O cara foi lá e virou 1min27s294, 0s010 melhor que o #81 da McLaren. Russell ficou em terceiro, com Leclerc, Antonelli, Sainz, Hamilton, Tsunoda (a 0s910 da pole), Gasly e Norris fechando os dez primeiros.
Ainda estou aqui.
