Blog do Flavio Gomes
F-1

QUE O TEMPO É MAIOR (2)

SÃO PAULO (já ganhou) – Oscar Piastri fez a pole-position para o GP do Bahrein, quarta etapa do Mundial, e comemorou efusivamente pelo rádio com seu engenheiro da McLaren. “P1, Oscar, conseguimos, cara, tu é foda, moleque, porra, chupa Lando!”, gritou o funcionário da equipe enquanto o australiano desacelerava seu carro para voltar aos boxes. […]

Piastri: segunda pole no ano, segunda na carreira

SÃO PAULO (já ganhou) – Oscar Piastri fez a pole-position para o GP do Bahrein, quarta etapa do Mundial, e comemorou efusivamente pelo rádio com seu engenheiro da McLaren. “P1, Oscar, conseguimos, cara, tu é foda, moleque, porra, chupa Lando!”, gritou o funcionário da equipe enquanto o australiano desacelerava seu carro para voltar aos boxes. “Sim”, falou.

Ao sair do cockpit, vibrou intensamente com os mecânicos da equipe, que correram em sua direção gritando coisas como “valeu!”, “pika das galáxias!”, “é nóis!”. “Sim”, disse a eles. Na entrevista pós-classificação, David Coulthard, ex-piloto, derramou-se em elogios e perguntou o que ele estava sentindo depois de fazer a pole. “Sim”, respondeu. “Você tem 49 pontos, Lando lidera com 62 e Max tem 61, estão bem atrás no grid em sexto e sétimo, já parou pra pensar que pode sair daqui em primeiro no campeonato?”, insistiu o escocês. “Sim”, concluiu o piloto.

Piastri tinha motivos para estar tão eufórico. Lando Norris larga só em sexto, depois de andar junto com ele em todos os treinos e errar justo na volta que importava, a última do Q3. Max Verstappen, brigando com o carro e com a sombra, parte em sétimo. Lando deve escalar rápido o pelotão amanhã – tem carro para isso. Max vai tentar não perder a paciência com a equipe para terminar entre os cinco primeiros.

Não vai ser fácil, porque dois carros da Mercedes estão bem no Bahrein. George Russell fez o segundo melhor tempo e Kimi Antonelli, o quarto. Ambos, porém, perderam uma posição no grid porque saíram de suas garagens antes da autorização da direção de prova quando o Q2 seria reiniciado, após acidente de Esteban Ocon (leia a caixinha vermelha abaixo). Outro que apareceu bem no último momento foi Charles Leclerc, terceiro com a Ferrari — mas larga em segundo após as punições aos pilotos da Mercedes. O quinto mais rápido foi uma grande surpresa, Pierre Gasly, da Alpine – única equipe que ainda não pontuou no ano. É outro que ganha uma posição e parte em quarto, na segunda fila.

A classificação aconteceu com 28°C de temperatura na noite barenita, bem abaixo dos quase 35°C registrados no último treino livre – realizado ainda com sol a pino. E começou com Max reclamando. Depois de errar e abortar sua primeira volta rápida, o holandês entrou no rádio e afirmou, categórico: “Tem alguma coisa muito errada com este carro”. O primeiro embate da classificação entre Norris e Piastri teve vitória do inglês: 1min31s107, 0s285 à frente do australiano. A brincadeira seria apenas entre os dois, pela lógica.

Como de hábito, todo mundo deixou para os últimos cinco minutos a tarefa de resolver a vida no Q1. Os dois pilotos da Red Bull não tinham tempos registrados – Yuki Tsunoda teve uma volta cancelada por exceder os limites de pista. Tirando a dupla da McLaren e Leclerc, que estava em terceiro, todos os demais, sem exceção, corriam riscos de não passar ao Q2. As diferenças entre eles eram mínimas. Qualquer décimo seria importante.

E aí foi aquela agonia, todos na pista, a tabela de tempos mudando freneticamente. Lewis Hamilton deu sinal de vida – foi a única vez no fim de semana até aqui — e pulou para segundo, a 0s112 de Norris. Os dois rubrotaurinos avançaram, com Verstappen em terceiro e Tsunoda em 11º. Jack Doohan, em quinto com a Alpine, foi uma grande surpresa. Nico Hülkenberg avançou ao Q2 em 15º, repetindo o feito de seu companheiro de Sauber, Bortoleto, na Austrália. Depois perderia sua volta por exceder os limites da pista. Do primeiro ao 16º, apenas 0s933 de diferença. Para o 20º, 1s266. Não dá para reclamar.

Foram eliminados Alexander Albon, Liam Lawson, Gabriel Bortoleto, Lance Stroll e Oliver Bearman. Duas novidades aí: Albon e Bearman, que têm frequentado fases mais agudas das classificações, ficaram pelo caminho. Lawson, que anda numa maré de dar dó, foi prejudicado porque sua asa móvel fechou sozinha. Aí não tem milagre. Já Bortoleto explicou que optou por usar dois jogos de pneus no Q1 e seu parceiro, três. “Não me impressiona, o carro é muito imprevisível. É mais ou menos onde estamos, mesmo”, disse, desanimado, sobre o 18º lugar no grid.

Leclerc: reação com a Ferrari, terceiro tempo, segundo no grid

Mal começou o Q2, uma batida forte e bandeira vermelha interrompendo os trabalhos. Esteban Ocon estampou seu carro de traseira numa barreira de proteção logo na abertura da volta rápida, depois de pegar a zebra da curva 2 de forma indevida. Pediu desculpas pelo rádio. A Haas teria muito trabalho para reconstruir a viatura. Prejuízo danado para o time. Mas não se machucou.

A briga interna da McLaren seguiu no Q2. Desta vez, Piastri na frente com 1min30s454, 0s106 à frente de Norris. E de novo a dupla da Red Bull deixando para o final da sessão a tentativa de volta rápida – ambos, assim como outros pilotos, estavam na sua primeira tentativa quando houve a bandeira vermelha da batida de Ocon, perdendo um jogo de pneus macios.

Foi um repeteco do Q1, com os dois papaias descansando nos boxes enquanto os demais se engalfinhavam atrás de um lugarzinho entre os dez primeiros. Mas Norris voltou à pista nos últimos instantes, para tentar bater o companheiro. Não conseguiu. Avançaram com eles Gasly, Russell, Antonelli, Leclerc, Carlos Sainz, Hamilton e, na bacia das almas, Verstappen e Tsunoda. Empacaram no Q2, pela ordem, Doohan, Isack Hadjar, Hülkenberg, Fernando Alonso e, claro, Ocon. Desta vez, entre os dez primeiros, apenas um novato: Antonelli, com a Mercedes.

O incidente que levou à punição dos pilotos da Mercedes aconteceu no reinício da sessão, após a bandeira vermelha de Ocon. Russell e Antonelli saíram de suas garagens para esperar a liberação da pista antes de a direção de prova informar quando o Q2 seria retomado. Com isso, tomaram as primeiras posições na fila da saída de box. A direção notou a malandragem. Horas depois da classificação, puniram cada a perda de uma posição no grid. Quem também perdeu sua posição no grid foi Hülkenberg, deslocado de 13º para 16º. Com muito atraso, os comissários cancelaram a volta que tinha colocado o alemão no Q2 por exceder os limites de pista. O maior prejudicado pelo atraso foi Albon, que teria avançado ao Q2 e poderia sonhar com uma posição entre os dez primeiros, como seu companheiro Carlos Sainz, oitavo no grid — pela primeira vez desde 2017 a Williams conseguiu ir ao Q3 no Bahrein; a última tinha sido com Felipe Massa.

O grid no Bahrein antes das punições: pilotos da Mercedes caem uma posição cada

No Q3, Russell fez uma boa volta na abertura com 1min30s364. Era a melhor do fim de semana até então. Aí veio Piastri e baixou a marca do inglês em 0s131. Norris não conseguiu superar o piloto da Mercedes e ficou em terceiro na primeira bateria de voltas voadoras. Verstappen, reclamando dos freios, em oitavo. E isso porque Hamilton e Antonelli tiveram suas voltas canceladas por excederem os limites da pista.

Faltava o “segundo tempo”, a segunda leva de voltas voadoras. E aí a Mercedes apavorou. Russell virou 1min30s009, com Antonelli em segundo. A pista estava melhorando e Leclerc superou Kimi, jogando a Ferrari na segunda posição. Restavam os meninos da McLaren. E Piastri foi o cara: 1min29s841, pulando para a pole com 0s168 de vantagem para Jorginho. Norris pipocou, fez uma volta ruim e ficou a 0s426 dele: sexto colocado. Os dez primeiro no cronômetro: Piastri, Russell, Leclerc, Antonelli, Gasly num impressionante quinto lugar, Norris, Verstappen, Sainz, Hamilton e Tsunoda. Com as punições aos pilotos da Mercedes, a primeira fila terá Piastri e Leclerc e a segunda, Russell e Gasly. Na terceira, Antonelli e Norris.

É um grid embaralhado, o que faz prever uma corrida interessante, já que a pista é boa para ultrapassagens e a previsão de pelo menos duas trocas de pneus deve favorecer o jogo estratégico. Algo melhor que se viu no último domingo, em Suzuka.

Pelo menos dois pilotos saíram deprimidos da classificação. Hamilton, o nono, disse que fez uma volta muito ruim e que o problema é ele mesmo. “Simplesmente não fiz meu trabalho direito. Tem sido assim aos sábados nos últimos tempos”, falou, decepcionado. “Lamento muito pela equipe.” Já Norris não se conformou com sua volta desastrosa: “Parecia que eu nunca tinha guiado um F-1 na vida”.

A lógica indica uma vitória de Piastri. Os outros dois lugares no pódio serão bem disputados. Tem Ferrari e Mercedes na briga, assim como Lando, se não fizer nenhuma bobagem e não ficar morrendo de medo de Verstappen atrás dele na largada. A prova começa ao meio-dia, horário de Brasília, com 57 voltas.