Blog do Flavio Gomes
F-1

QUE O TEMPO É MAIOR (3)

SÃO PAULO (foi fácil) – Oscar Piastri venceu sua segunda corrida no ano, quarta na carreira, hoje no Bahrein. Vitória inconteste, a partir da pole-position e com a melhor volta da prova. George Russell, da Mercedes, foi o segundo. Lando Norris, companheiro de Piastri na McLaren, fechou o pódio na terceira colocação. Lando segue na […]

Empolgadíssimo, Piastri comemora a quarta vitória na carreira

SÃO PAULO (foi fácil) – Oscar Piastri venceu sua segunda corrida no ano, quarta na carreira, hoje no Bahrein. Vitória inconteste, a partir da pole-position e com a melhor volta da prova. George Russell, da Mercedes, foi o segundo. Lando Norris, companheiro de Piastri na McLaren, fechou o pódio na terceira colocação. Lando segue na liderança do campeonato, agora três pontos à frente de seu parceiro de equipe. Max Verstappen, sexto colocado na corrida, vem atrás deles, oito pontos atrás de Norris.

Foi um belo GP, como se esperava, graças às diferentes estratégias de pneus que uma pista como a barenita exige. O asfalto desgasta muito a borracha e ninguém conseguiria completar as 57 voltas da prova com menos de duas paradas. Para ajudar ainda mais, uma entrada do safety-car pouco depois da metade da corrida juntou todo mundo que estava espalhado pelos 5.412 m do circuito. E a parte final da quarta etapa do Mundial acabou sendo a mais divertida de todas.

Largada no Bahrein: Norris posicionou mal o carro no grid e foi punido

A largada foi elétrica, com Russell passando Charles Leclerc e pulando para segundo. Charlinho largou de pneus médios – como Lewis Hamilton, Fernando Alonso, Liam Lawson e Gabriel Bortoleto; os demais foram de macios. Norris, milagre, foi quem deu o maior salto, de sexto para terceiro. Naquela posição se colocaria na briga pela vitória. Verstappen, por sua vez, pouco habituado ao pega-pra-capar do meio do pelotão, caiu de sétimo para oitavo.

Ocorre que os olhos de lince dos comissários perceberam que Norris alinhou seu carro fora do colchete no grid. Quem também notou foi Verstappen, atrás dele na grelha de partida. “O Lando está fora do lugar! Avisem alguém! Estou vendo! Pilantra!” Tomou 5s de punição. Lando, não Max.

Na quinta volta, Kimi Antonelli e Verstappen passaram Carlos Sainz, jogando o piloto da Williams para a oitava colocação. Piastri, Russell, Norris, Leclerc e Pierre Gasly eram os cinco primeiros, com Kimi e Max em sexto e sétimo. Depois do espanhol, Hamilton e Yuki Tsunoda completavam o top-10.

Na nona volta, Hamilton foi para cima de Sainz, também, mas Carlos se defendeu com energia. Afinal, aquele carro vermelho era para ser dele, não de Lewis. Tinha algo de pessoal naquela briga. Depois de duas tentativas, o inglês conseguiu passar, trazendo com ele Tsunoda. Na décima, Antonelli passou Gasly e foi para quinto. Me contaram, não sei se é verdade, que a mãe de Kimi ligou na hora para Toto Wolff, o chefe da Mercedes. “Escuta aqui, meu senhor… Isso é hora de meu menino estar na rua? Já é de noite! Manda ele já pra casa que tem aula amanhã!”

Hamilton, quinto: planos da Ferrari frustrados pelo safety-car

Norris parou na volta 11 e já pagou sua punição. Gasly e Verstappen também. Os pneus macios estavam acabando e a primeira janela de pit stops estava aberta. O pelotão seria embaralhado até todo mundo trocar pneus – da turma da frente, a dupla da Ferrari esticaria o primeiro stint porque tinha borracha mais resistente. Norris caiu para 13º, Gasly para 14º. Verstappen, que demorou um pouco nos boxes, despencou para a 16ª posição. O problema na parada da Red Bull foi nas luzes operadas pelo time que liberam o carro depois da troca. Aconteceu o mesmo com Tsunoda. Max foi o único que colocou pneus duros, uma estratégia diferente da dos demais.

Na ponta, Piastri e Russell, de macios, seguiam sem parar. Leclerc e Hamilton vinham atrás deles. Jorginho foi para a troca na volta 14 e voltou à frente de Norris. A McLaren, pelo rádio, perguntava a Oscar, o líder: “Seus pneus estão bons?”. “Sim”, respondia o australiano. “Quer trocar?” “Sim.” “Sim ou não, cacete?” “Sim.” Parou na volta 15.

Leclerc, o novo líder, recebeu uma mensagem na volta 16. “Vamos para o plano B de Bravo”, informou o engenheiro. “Prefiro o D de Delta”, devolveu o monegasco. “Que tal o C de Curumim?”, sugeriu outro engenheiro. “C de quê?”, perguntou Leclerc. Aí entrou Hamilton na conversa: “G, vamos de plano G de Goiaba”. “Precisamos padronizar os nomes desses planos”, comentou o chefe Frédéric Vasseur com quem estava ao seu lado.

A Ferrari chamou seus dois pilotos na volta 18. E colocou pneus médios, de novo, nos dois carros. “Que plano é esse?”, questionou Leclerc. “P de Pintassilgo”, informou o engenheiro. “Esses códigos estão meio esquisitos…”, falou Vasseur ao mesmo colega, que nada entendia.

Piastri, Stela e Norris: McLaren lidera os dois campeonatos

Com todo mundo de pneu trocado, Piastri, Russell, Norris, Leclerc, Gasly, Esteban Ocon, Verstappen, Antonelli, Jack Doohan e Hamilton eram os dez primeiros. De onde tinha vindo Ocon, ninguém sabia. De 14º no grid, de repente o piloto da Haas apareceu em sexto. Lewis foi quem mais perdeu nas trocas. Na volta 20, Kimi se jogou com a Mercedes sobre Verstappen e passou o holandês da Red Bull. “Cadê o pai desse menino?”, gritou Max.

Na volta 21, Lewis começou a se recuperar, passou Doohan e, na sequência, deixou Verstappen para trás assumindo a oitava posição. Max, pelo rádio, fazia um diagnóstico preciso do RB21: “Está ridículo isso aqui. Me deem, sei lá, um Twingo que ando mais que isso”.

(Não sei se falou exatamente Twingo, mas o sentido é esse.)

Lá na frente, a briga passou a ser pelo terceiro lugar entre Leclerc e Norris. Na volta 24, o piloto da Ferrari atacou o inglês. Não conseguiu. Russell, o segundo, estava um pouco à frente, acompanhando a refrega pelo espelhinho. “Uau, amigos, vejo que meus dois colegas estão se engalfinhando pela terceira posição no pódio, que concede um belo troféu…”, começou. “Cala a boca, George”, pediu Toto Wolff. “Olha pra frente.”

Na volta 25, mais duas belas ultrapassagens. Leclerc passou Norris por fora, assumindo o terceiro lugar. E Hamilton, mais atrás, fez o mesmo com Antonelli. Depois, na volta seguinte, com Ocon. E pulou para sexto. Estava se divertindo, o inglês.

Verstappen: sexto lugar em corrida discreta

Na volta 27, Verstappen fez sua segunda parada e colocou pneus médios. A tática dos duros no segundo stint não deu certo. A Red Bull mandou apenas dois mecânicos para a troca. Um deles, fumando. O outro, terminando a marmita do jantar. Pediu um tempinho e disse que já atenderia o cliente que tinha chegado. Levou umas duas horas, a troca. Max caiu para último. Na 28ª, Antonelli e Ocon foram para os boxes. A Mercedes colocou pneus macios no carro do italiano, com ousadia e alegria. Daria tudo errado e Kimi faria um terceiro pit stop, saindo dos pontos.

Segunda janela aberta, boxes movimentados, de novo o pelotão embaralhado. A Alpine chamou os dois ao mesmo tempo. Gasly voltou em décimo. Doohan, em 17º. Verstappen começou a escalar a montanha. Na volta 30, já era o 14º. À frente dele, Antonelli. “Isso é hora de criança ficar na rua?”, gritou Max pelo rádio. “Cadê a mãe dele?”

Piastri, na frente, abria 7s sobre Russell. “Oscar, como está a aderência?”, o rádio. “Sim”, Oscar. “Oscar, amigo, nos diga pelo menos como estão os pneus e se você está perto de trocar.” “Sim.” Nesse momento o engenheiro tirou o fone e começou a chorar. Zak Brown, então, entrou no rádio. “Oscar, pelo menos responda alguma coisa, seu engenheiro está chorando. Você não tem coração?” “Sim.”

Na volta 32, uma entrada surpreendente do safety-car permitiu que Piastri fosse aos boxes para fazer sua segunda troca. Todo mundo que não tinha trocado ainda fez o mesmo. O carro de segurança entrou para que pedaços de carro fossem retirados após um toque entre Tsunoda e Sainz. A Ferrari lamentou, porque tinha uma estratégia de pneus diferente de todo mundo. “OK, Lewis, vamos agora para o plano F de Fetuccini”, ao que o piloto respondeu: “Está ótimo, gente, o que vocês disserem está dito, mas sou vegano, não esqueçam”.

A Mercedes foi otimista na parada e colocou pneus macios no carro de Russell. Piastri era o líder, com médios. “Amigos, terei 24 voltas para percorrer com pneus macios, não seria uma estratégia um tanto quanto audaciosa? Vejam, esta é uma borracha que se desgasta mais rapidamente que as demais. Não quero aqui, claro, questionar a qualidade dos pneus Pirelli. Lembram do Campeão Supremo? Que pneu, senhores, que pneu! Lembro de uma corrida em…” “Cala a boca, George”, corrigiu Toto. “Campeão Supremo era Firestone.”

Piastri, Russell, Leclerc, Norris, Hamilton, Gasly, Ocon, Verstappen, Doohan e Sainz eram os dez primeiros quando o safety-car deixou a pista na volta 35. Era uma nova corrida, de 22 voltas. Com pneus diferentes entre eles. Na relargada, Hamilton passou Norris, que deu o troco na curva seguinte. Lewis estava de pneus duros. Lando, de médios. Mas o piloto da McLaren passou por fora dos limites de pista e foi orientado a devolver a posição, voltando ao quinto lugar.

Sainz: único abandono da prova

Na volta 38, Norris conseguiu passar Hamilton e assumiu o quarto lugar. Uma breve pane na cronometragem jogou Russell para último e colocou Lando em terceiro. “Amigos, o que teria acontecido com os cronômetros? Sim, sei que eram Rolex na temporada passada e agora são TAG Heuer, mas ambas as marcas têm excelente reputação. Eu mesmo, no meu pulso, uso um modelo…” “George, não tem como calar a boca?”, implorou Toto mais uma vez.

Demorou um pouco para a cronometragem informar que o sensor do carro de Russell tinha desaparecido no éter, e o inglês caiu num buraco negro da tabela de tempos. Mas estava em segundo. Leclerc, Norris, Hamilton, Gasly, Verstappen, Ocon, Doohan e Tsunoda eram os dez primeiros. Pelo rádio, a Mercedes informou a Russell que ele tinha um problema na asa móvel. Que só poderia ser aberta ao comando do engenheiro. “OK, amigos. Vejam bem, a asa móvel, em si, é um dispositivo que sequer me agrada. Gosto de um automobilismo, como dizem os jovens, raiz. Sim, sei que sou jovem, mas por vezes penso que meu espírito é um pouco mais… antigo. Entendem o que eu digo? Isso não quer dizer que…” “Cala a boca, George.”

Era uma corrida muito movimentada. Como todos andavam bem próximos, cortesia do safety-car pouco depois da metade da prova, posições eram disputadas no braço por todo o pelotão. Oliver Bearman e Antonelli passaram Doohan, coitado, que lutava por seus primeiros pontos na F-1. O jovem inglês da Haas entrou na zona de pontuação, uma façanha para quem largara em último. Norris ainda lutava pelo pódio, atacando Leclerc com disposição. Na volta 49, quase se tocaram.

E a ultrapassagem, belíssima, aconteceu na volta 52. Lando foi com decisão para cima do monegasco e assumiu o terceiro lugar. Na Mercedes, pânico. O engenheiro avisou a Russell que seu painel poderia apagar a qualquer momento. “Mas segue em frente, não é nada.” A asa móvel começou a abrir e fechar sozinha. Correria o risco de uma punição após a corrida. “Vejam, amigos, essa história de painel… Nem ligo. Gosto mesmo de instrumentos analógicos! VDO, lembram? Ponteiros, números, aquela luz suave numa estrada à noite… Que coisa linda! E também ouço discos de vinil, devo dizer. Vocês escutaram o último de Miles Davis? Ah, aquele trompete… E minha vitrola não é qualquer uma, não! Gradiente, conhecem?” “George, cala a boca.”

Norris, com todos os perrengues, era o nome da corrida. Na volta 55, chegou em Russell e tentou até o fim o segundo lugar. Na última volta fizeram a curva 1 lado a lado. Mas não deu para ele. Piastri acabou vencendo com mais de 15s de vantagem para o inglês da Mercedes, que cruzou a linha 0s7 à frente de Norris. Leclerc, Hamilton, Verstappen (ganhou a sexta posição na última volta), Gasly, Ocon, Tsunoda e Bearman ficaram com as dez primeiras posições. A Alpine fez seus primeiros pontos no ano. Yuki, seus primeiros pela Red Bull. A Haas, incrível, colocou seus dois carros na zona de pontuação.

Piastri foi efusivamente festejado pelo rádio. “Ah moleque! Segunda vitória no ano! Você está a três pontos do Lando na classificação! Cara, dá pra lutar pelo título! Tu pode ser campeão, menor!”, gritou o engenheiro. “Sim”, respondeu o piloto. Foi a 50ª corrida da carreira do australiano. “Que jeito de comemorar!”, vibrou Karun Chandhok, ex-piloto, na primeira pergunta da entrevista pós-GP. “Sim”, disse Piastri. “Foi estressante quando entrou o safety-car?” “Sim.” “Mesmo assim você sabia que ia ganhar?” “Sim.” “E como vocês vão celebrar a vitória?” “Sim.” “Vai ter festa?” “Sim.”

(A entrevista de Russell ainda está rolando, no momento em que escrevo este texto. Ele está falando, agora, sobre a confusão dos pneus Pirelli. “Eu falei Campeão Supremo, queria dizer Tornado Alfa. Sempre me confundo. Vocês não? Ah, está muito difícil encontrar pneus 5:60 15. Mas há boas alternativas no mercado. Veja bem, não são a mesma coisa, mas…”)

Na classificação, Norris tem 77 pontos, contra 74 de Piastri. Verstappen salvou alguma coisa num fim de semana ruim e foi a 69. Russell tem 63. Domingo que vem tem mais, na Arábia Saudita.