A IMAGEM DA CORRIDA

SÃO PAULO (com atraso) – Foi aí que o GP da Arábia Saudita foi decidido. Pelo menos na opinião da Red Bull. Max Verstappen tomou 5s “por ganhar vantagem passando por fora da pista”. Chegou 2s843 atrás de Oscar Piastri. Na matemática simples, é só tirar 2s843 de 5s e teríamos a diferença a favor do holandês na bandeira quadriculada.
Claro que as coisas não são simples assim. Piastri sabia da punição de Verstappen e ficou cozinhando o galo até o pit stop. Max ficou 5s parado nos boxes para pagar o pênalti e o australiano, que não estava devendo nada a ninguém, ganhou a posição. Se tivesse de partir para a briga, talvez passasse o tetracampeão. Talvez não. Nunca saberemos.
Verstappen deveria devolver a posição (que não chegou a perder, diga-se) logo de cara, tendo a corrida inteira para passar o carro da McLaren? A equipe preferiu pagar para ver. Achou que os comissários poderiam considerar o movimento algo normal de corrida. Perdeu.
Aqui, diga-se: a punição, já que os caras acharam que ele levou vantagem, só poderia ser essa. Comissários não mandam ninguém devolver posição. O regulamento não prevê esse tipo de ordem. Quem tem de mandar fazer isso é a equipe, para que seu piloto não seja punido. Vale mais a pena. Ou o próprio piloto o faz, por iniciativa própria, justamente para não receber nenhum pênalti.
Mas quando equipe e piloto acham que não fizeram nada de errado, entregam aos comissários a tarefa de julgar, torcendo por uma absolvição. E eles julgaram que Max só não perdeu a liderança porque passou por fora da pista. Escrevi no domingo: eu não puniria. Mas não é a primeira vez que fazem isso. Sendo assim, não vejo motivos para Verstappen e a Red Bull se sentirem roubados, esfolados, vilipendiados. Esse tipo de punição faz parte da rotina da F-1 moderna. Hoje foi ele o prejudicado. Amanhã será outro.
A Ferrari tentou ver o copo meio cheio depois da prova de Jedá. Conseguiu seu primeiro pódio do ano e, pela segunda vez seguida, fez mais pontos que suas adversárias diretas na luta pelo vice-campeonato — sim, já estou dando a McLaren como bicampeã; pode ser precipitado, mas dane-se. No Bahrein, foram 22 contra 18 da Mercedes e dez da Red Bull. Agora, 21, contra 18 de Mercedes e Red Bull. Não refresca muito, porque a equipe ainda está em quarto no Mundial com 78 pontos. Não fosse a desclassificação dupla na China, seria a terceira.
Charles Leclerc leva os méritos por esse troféu. Seu segundo stint, de pneus duros, foi incrivelmente regular. Das 20 voltas que fez após o pit stop (da 31ª à 50ª), 19 foram cronometradas na casa de 1min32s. Apenas uma ele completou acima de 1min33s. Antes da parada, também foi um relógio: 16 voltas seguidas na casa de 1min34s (entre a 5ª e a 20ª) e oito na casa de 1min33s (da 21ª à 28ª). As voltas 29 e 30 foram as de entrada e saída dos boxes e não contam.
Lewis Hamilton, em compensação…
A FRASE DE JEDÁ
“Preciso de um transplante de cérebro.”
Lewis Hamilton, sobre as dificuldades na Ferrari
A frase acima foi dita antes mesmo da corrida. As dificuldades que Hamilton tem enfrentado nos seus primeiros meses de Ferrari chegam a surpreender. Eu achava que a adaptação seria mais rápida. Mas, até agora, seu único bom momento no ano foi na Sprint da China — pole e vitória. Tudo é complicado, ninguém nega. Sempre correu com motores Mercedes, ficou 12 anos na mesma equipe, está tendo de aprender a trabalhar sob os métodos e processos ferraristas, falta entrosamento com o pessoal técnico, sei lá… Parece um estranho no ninho, e está se sentindo assim.
Lewis passa a impressão de estar meio desanimado, abatido, prostrado. Mas não pode duvidar dele mesmo. Quando — e se — isso acontecer, aí é que entra em parafuso.
O NÚMERO DA ARÁBIA SAUDITA
75
…eliminações no Q1 completou Lance Stroll em 174 GPs. Ninguém empacou tantas vezes na primeira parte das classificações. Nos 51 GPs que dividiu com Fernando Alonso na Aston Martin, perdeu do espanhol 43 vezes no grid. No confronto com companheiros de equipe desde a estreia, em 2017, está 130 x 43 para os outros. A soma dá menos que os 174 lá de cima porque numa dessas participações Stroll ficou doente e foi substituído por Nico Hülkenberg a partir do terceiro treino livre. Não participou, portanto, da classificação. Mas fez parte do evento — no caso, o GP de Eifel de 2020 em Nürburgring, no ano da pandemia.
O canadense está com 26 anos e faz sua nona temporada na F-1. É um veterano, já, embora muito jovem. Quando confrontado com a marca histórica, rebateu, mal-humorado: “Coloque qualquer desses pilotos da McLaren na Sauber e eles vão ficar no Q1 em todas as corridas”.
Lance é malvisto pelos fãs da F-1. Quase todo mundo acredita que ele só corre porque é filho do dono da equipe. E parece sempre contrariado, sem a menor vontade de estar onde está. Mas é bom relativizar as críticas. O rapaz tem um currículo melhor que o de muita gente que já passou pela categoria. Fez pontos pelas três equipes que defendeu (Williams, Racing Point e Aston Martin), conseguiu uma pole no GP da Turquia de 2020 (pela Racing Point) e já subiu ao pódio três vezes (Azerbaijão/2017 pela Williams, Itália e Sakhir/2020 pela Racing Point, sempre em terceiro lugar).
Talvez não seja tão ruim assim e precise apenas de carinho.
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS… da Williams, que pontuou com seus dois carros pela segunda vez no ano (a outra foi na China). Carlos Sainz foi o oitavo e Alexander Albon, o nono. Se ajudaram com asa móvel e evitaram o ataque de Isack Hadjar por 12 voltas. O resultado colocou o time de volta na quinta posição do Mundial de Construtores, superando a Haas.
NÃO GOSTAMOS… do fim de semana de Gabriel Bortoleto, último no grid e na corrida. O brasileiro tem tido muitas dificuldades com um carro ruim, é verdade, mas não consegue fazer nada de especial desde a passagem ao Q2 no GP da Austrália. Pior, já bateu e andou rodando algumas vezes, mostrando certa impaciência que resulta em erros. É pouco, mesmo para um estreante.