SÃO PAULO (barbaridade) – Talento não se compra no supermercado. Adoro usar essa frase boba. Mas ela se aplica, quando se trata de falar de caras como Max Verstappen. O holandês da Red Bull fez, na madrugada de hoje, a pole-position para o GP do Japão, terceira etapa do Mundial. É a 41ª de sua carreira e a quarta seguida em Suzuka. O sujeito é tetracampeão mundial. Uma pole a mais não deveria deixar ninguém espantado, embora a última tenha sido há nove meses na Áustria, 15 corridas atrás.
Mas, em 2025, deixa. Porque a Red Bull está longe de ter o melhor carro do grid e vive um momento turbulento com troca de segundo piloto, incerteza quanto ao futuro – em 2026 terá motores Ford, e o último motor bom que a Ford fez foi o CHT do Corcel II – e até possibilidade de perder Verstappen para alguma equipe rival se não for capaz de convencer o piloto de que as coisas vão melhorar no ano que vem. Mesmo assim, num ambiente desfavorável, o moço vai lá e crava todo mundo.
Dá raiva, às vezes.
Verstappen terá a seu lado na primeira fila o líder do campeonato, Lando Norris. Atrás deles partem Oscar Piastri, também da McLaren, e Charles Leclerc, da Ferrari. A terceira fila é toda da Mercedes, com Geroge Russell e Kimi Antonelli. Dois novatos surpreenderam e se colocaram entre os dez primeiros, o francês Isack Hadjar, da Maquininha Sem Aluguel, e o inglês Oliver Bearman, da Haas. O brasileiro Gabriel Bortoleto, da Sauber, ficou em 17º no grid. O GP do Japão começa às 2h do domingo e terá 53 voltas, com previsão de chuva para a região de Suzuka.
E vamos contar como foi esse milagre verstappiano na madrugada.
A McLaren tinha sido mais rápida em todos os treinos livres, além de ter terminado antes que todo mundo a montagem dos boxes, servido o almoço primeiro e lavado a louça em tempo recorde. As aflições ficavam para outros pilotos de outras equipes.
Verstappen, por exemplo, reclamava da falta de aderência nos pneus dianteiros. Antes, nos treinos livres, queixou-se de torção do chassi, falou que o carro estava “estranho” e que o bluetooth não estava funcionando, de modo que não conseguia escutar sua playlist do Spotify.
Hadjar era outro que não parava de falar no rádio. Teve problemas no cockpit desde os treinos livres. Almofada escorregando no banco? Carregador do celular quebrado? Acendedor de cigarro pifado? Extraoficialmente, era algo no cinto de segurança. Ou meio solto, ou muito apertado. O jovem francês, na comunicação com seu engenheiro, se autoflagelava: “Não sei o que está acontecendo comigo! Estou arruinando nossa classificação! Sei que dá para melhorar, mas não consigo!”. Um drama danado.
E esquisito, porque os carros da É de Aproximação? tinham andado bem nos treinos livres. Mas no Q1 despencaram para o fundão e quase dançaram. De qualquer maneira, seus dois pilotos avançaram ao Q2 na bacia das almas: Hadjar em 13º, Liam Lawson em 15º. Foram eliminados na primeira fase da classificação, pela ordem, Nico Hülkenberg, Bortoleto, Esteban Ocon, Jack Doohan e Lance Stroll.
Na frente, Piastri ficou em primeiro com 1min27s687, seguido por Russell, Norris, Leclerc e Lewis Hamilton nas cinco primeiras posições. Na Red Bull, tempos quase idênticos: Verstappen foi o sexto e Yuki Tsunoda, o sétimo – a 0s024 do holandês. Antonelli, Pierre Gasly e Carlos Sainz fecharam os dez primeiros. Do primeiro ao 17º, a diferença foi de apenas 0s935.
O Q2 não foi muito diferente. Assim que foi para a pista, Norris fez uma volta em 1min27s146. Faltando exatos 8min26s para o final do segundo segmento classificatório (quanto esforço para não repetir “Q2”), bandeira vermelha. A sétima do fim de semana, e a quinta pelo mesmo motivo: fogo. Fogo no mato. Apesar de todo o esforço dos organizadores, que molharam as margens da pista depois do que aconteceu ontem, as fagulhas provocadas pelos carros quando o assoalho raspa no asfalto caíam nas faixas laterais de grama e continuavam provocando pequenos focos de fogo.
E toca chamar a brigada de incêndio para apagar.
No momento da interrupção, Sainz, Fernando Alonso, Bearman, Tsunoda e Lawson estavam fora do Q3. Mas tinha tempo, ainda. O fogo foi debelado – um bom balde resolveria – e a sessão foi retomada depois de alguns minutos. Ninguém conseguiu baixar o tempo de Norris, que fechou o Q2 na frente. Russell foi o segundo, com Verstappen em terceiro. Piastri, Leclerc, Hamilton, Antonelli, Bearman, Hadjar e Alexander Albon passaram. A surpresa foi o novato Ollie, piloto tão rápido quanto simpático e sorridente. Hadjar também impressionou. Com todos os incômodos misteriosos no cockpit, avançou para o Q3. No grupo dos eliminados, Gasly, Sainz, Alonso, Lawson e Tsunoda. Sainz foi deslocado de 12º para 15º ao perder três posições no grid depois de atrapalhar uma volta de Hamilton.
Não deu para o japonês, como se vê. Além de se descolar de Verstappen, Yuki ainda ficou atrás de Lawson, a quem substitui na Red Bull. Ironia dos deuses do automobilismo. Que, obviamente, não existem. Mas pega bem escrever “deuses do automobilismo”. Tem um quê de poesia.
Os deuses do automobilismo, inclusive, estavam gostando da brincadeira e deixaram para a segunda bateria de voltas rápidas do Q3 o grande momento de Suzuka até agora: a escolha do pole-position.
De cara, na primeira leva de voltas rápidas, Piastri foi o mais rápido, com 1min27s052. OK, Norris fez uma volta ruim, ficou em quinto, mas teria uma segunda chance. E Landinho não precisa dos deuses do automobilismo para, de vez em quando, decepcionar. Fá-lo sozinho. Depois, tenta corrigir na base da pressão interna — e às vezes consegue.
Tirando leite de pedra na abertura do Q3, Max conseguiu o segundo tempo provisoriamente, cronometrando sua volta a 0s226 do australiano. Parecia impossível conseguir algo melhor.
A segunda bateria de voltas rápidas viu Norris saltar à frente de todos. A pole estava garantida. Nos boxes da McLaren, aplausos e abraços.
Mas não se pode nunca descartar Verstappen. Com uma volta excepcional em 1min26s983, o holandês derrubou o favoritismo da equipe papaia e colocou a Red Bull na pole pela primeira vez no ano. Um negócio assombroso. Bateu Norris por 0s012. Piastri acabou em terceiro a 0s044 do #1. Depois vieram Leclerc, Russell, Antonelli, Hadjar, Hamilton, Albon e Bearman.
Sete equipes diferentes nas dez primeiras posições do grid. Muito legal, é para comemorar. Todo mundo gosta de equilíbrio e boas disputas.
Mas dentro desses dez carros, só um piloto pode ser considerado realmente diferente nesta F-1 de 2025. É o que conseguiu a posição de honra do grid. Max Verstappen é um monstrinho que irrita profundamente seus rivais e aqueles que não gostam de seu estilo meio rude, excessivamente competitivo, um tanto arrogante.
Azar deles. Max não dá muita bola para o que pensam dele. Prefere, em vez de perder tempo com irrelevâncias, acelerar.
E como acelera, o desgraçado.
