SÃO PAULO (das galáxias) – Max Verstappen venceu o GP do Japão na madrugada de hoje e deu uma banana para o favoritismo da McLaren na corrida de Suzuka e na temporada de 2025. Sem ter o melhor carro do grid, o holandês fez a pole ontem e controlou a terceira etapa do Mundial do começo ao fim. Recebeu a bandeira quadriculada apenas 1s423 à frente de Lando Norris, mas em nenhum momento foi ameaçado pelo inglês. Oscar Piastri, o outro piloto da McLaren, completou o pódio. Foi a 64ª vitória da carreira do piloto da Red Bull.
“Perdi a corrida ontem”, disse Norris, ainda líder do Mundial. “Nosso ritmo era muito parecido com o do Max”, continuou, tentando atribuir à pole-position do rival a vitória do tetracampeão. Lando tem 62 pontos na classificação, apenas uma à frente de Verstappen. Piastri é o terceiro com 49. O campeonato segue nas próximas duas semanas com os GPs do Bahrein e da Arábia Saudita.
A prova nipônica não foi das mais emocionantes. Os dez primeiros no grid terminaram nas dez primeiras colocações, quase todos onde largaram. Apenas Lewis Hamilton e Isack Hadjar inverteram suas posições: o inglês da Ferrari, oitavo no grid, foi o sétimo colocado; o francês da Meu Chip Está com Defeito largou em sétimo e acabou em oitavo, fazendo seus primeiros pontos na F-1.
Max fez valer a excepcional pole de ontem, mantendo a ponta com firmeza assim que as luzes vermelhas se apagaram. A largada foi limpa e do primeiro ao décimo as posições estavam rigorosamente mantidas ao final da primeira volta. No pelotão todo, prejuízo, mesmo, só de Gabriel Bortoleto: caiu de 17º para último. Dos 20 pilotos no grid, 15 optaram pelos pneus médios – a pista estava seca, já que só choveu pela manhã na região de Suzuka. Hamilton, Bortoleto e Esteban Ocon largaram com pneus duros. Jack Doohan e Lance Stroll foram de macios.
Verstappen comandou a primeira parte da corrida, rapidamente abrindo mais de 1s sobre Norris. Não queria enfrentar uma asa móvel logo de cara. Problemas no início? Quase nada. Apenas reclamou no rádio que seu câmbio estava meio capenga e não subia as marchas direito.
(Pensei, na hora: vai guiar meia hora de Lada pra ver o que é um câmbio que não sobre as marchas direito. Mas foi só uma breve epifania desimportante na madrugada.)
A equipe disse a ele para não se preocupar, que dali a umas duas ou três voltas o câmbio iria melhorar. E melhorou, mesmo. A única explicação plausível: o aquecimento de todo o conjunto. Embora a troca de marchas seja comandada eletronicamente num carro de F-1, engrenagens se encaixam mecanicamente e são lubrificadas. Óleo de câmbio também esquenta. Estou teorizando com a cabeça nos meus carros de corrida, que nada devem à Red Bull.
(OK, à Red Bull talvez devam alguma coisa. À Sauber, não.)
Sem chuva e com a gama de pneus mais duros da Pirelli, o GP japonês se desenhava como corrida de uma parada só, diferentemente do ano passado, em que a estratégia padrão era de dois pit stops (foram três para quase todos porque houve um acidente na primeira volta motivando uma nova largada). Tirando a ultrapassagem de Hamilton sobre Hadjar no início, para assumir a sétima posição, nada aconteceu de muito relevante na zona de pontuação.
(Com 15 voltas, às 2h30, liguei minha cafeteira para tirar um espresso. Isso é relevante, porque comprei um pacote de café guatemalteco e estou avaliando se repito na próxima encomenda. Gostei, cremoso, interessante. Acho que vou dar nova chance à Guatemala.)
Na volta 18, a McLaren chamou Norris para trocar pneus. Malandrão, o engenheiro achou que o blefe iria funcionar: “Box para passar Verstappen!”, falou alto e bom som, para ser notado por todos no autódromo. É tipo piscar o olho no truco sem ter o zap, deixando o adversário ver. Meio ridículo. Lando não parou, claro. Nem a Red Bull caiu no conto do vigário. Quem fez a parada na 20ª volta foi George Russell, que era o quinto colocado. Naquele momento, Verstappen perguntou se podia dar uma acelerada, já que estava administrando bem o desgaste dos pneus. “Vai nessa”, respondeu seu engenheiro.
Piastri, o terceiro, parou na volta 21. A janela de trocas estava aberta. A briga pela ponta dar-se-ia nas paradas de Verstappen e Norris. Isso se fossem para os boxes em voltas diferentes. Mas fizeram-no na mesma volta, a 22ª. Saíram juntinhos, quase lado a lado, e Max se manteve à frente. Norris, na saída do box, teve de passar pela grama e ficou reclamando pelo rádio. Em vão. Não tinha motivo nenhum.
Kimi Antonelli, então, assumiu a ponta pela primeira vez na carreira, com Hamilton em segundo e Hadjar em terceiro – todos sem pit stops. O italiano da Mercedes entrou para as estatísticas como o mais jovem piloto a liderar uma corrida, aos 18 anos e 224 dias de vida. O recordista era Verstappen, que tinha 18 anos e 228 dias de idade quando liderou (e venceu) o GP da Espanha de 2016, sua primeira corrida pela Red Bull. Antonelli também se tornou o mais jovem piloto a registrar a melhor volta de um GP. A marca anterior pertencia igualmente a Verstappen, que tinha já tinha passado dos 19 anos quando fez a melhor volta do GP do Brasil de 2016, em Interlagos. Como reza o ditado, o tempo passa, o tempo voa. E a poupança Bamerindus continua numa boa.
Sem perder muito tempo, Verstappen passou Alexander Albon, que também não tinha parado, e colocou o tailandês entre ele e Norris para tentar ganhar alguma folga em relação ao #4. As paradas foram se sucedendo, menos para os dois primeiros, Kimi e seu antecessor Hamilton. O inglês, que largara com pneus duros, só foi para os boxes na volta 31. Max assumiu o segundo lugar. Norris seguia em sua cola, a 1s6 de distância.
Kimi foi o último dos ponteiros a trocar pneus, na volta 32. A ordem anterior às paradas se restabeleceu, com Verstappen, Norris, Piastri, Charles Leclerc, Russell, Antonelli, Hamilton, Hadjar, Liam Lawson (sem pit stop) e Albon nas dez primeiras posições.
Max não conseguia desgarrar dos dois carros papaia, que se mantinham perto do holandês. Na volta 38, a 15 do final, Verstappen tinha 1s3 para Norris, que por sua vez via Piastri 1s2 atrás. Oscar, então, se animou. Apertou um pouco o ritmo e entrou na zona de abertura de asa móvel sobre o companheiro. Empolgadíssimo, acionou o botão do rádio e disse: “Oi”. Ninguém respondeu, ele também não falou mais nada.
Três voltas depois, na 43ª, o australiano fez seu mais longo discurso radiofônico desde que chegou à McLaren. “Se Lando estiver economizando, manda acelerar porque eu tenho ritmo para pegar o Max”, falou. Na equipe, a chefia se entreolhou e um dos engenheiros disse ao colega ao lado: “Deve ser alguma interferência, Oscar nunca diz mais do que cinco palavras”.
A briga entre os dois carros da McLaren era tudo que Verstappen queria, desde que a refrega tomasse tempo de ambos. Porque Piastri parecia, mesmo, rápido o bastante para alcançar o piloto da Red Bull. Só que não estava adiantando muito. Ele também não conseguia se descolar de Lando, que por sua vez não estava disposto a dar moleza para o parceiro.
Max, gelado como a tarde de Suzuka – 14°C, uma friaca danada –, não se abalava, porém. Para quem sabe controlar uma corrida, um segundo e meio é um dia. Norris se esforçava, mas não conseguia reduzir a distância para tentar abrir a asa móvel. Mesmo se conseguisse, não seria garantia de nada, porque a pista japonesa tem apenas um trecho para uso do dispositivo, na reta dos boxes. E não é exatamente um ponto claro de ultrapassagem.
Assim as voltas iam passando e a prova, chegando ao fim. Piastri voltou ao rádio e disse “oi” de novo. “Oi”, falou o engenheiro. “Agora é ele mesmo”, comentou com o parceiro da mureta. Ficou nisso.
E como ninguém falava mais nada, Verstappen levou seu carro branco até a bandeira quadriculada sem, na prática, ter sido ameaçado de verdade. Ganhou o GP do Japão pela quarta vez consecutiva. Subiu ao pódio com Norris em segundo e Piastri em terceiro. Leclerc, Russell, Antonelli, Hamilton, Hadjar, Albon e Oliver Bearman fecharam a zona de pontos. O brasileiro Gabriel Bortoleto foi o 19º e penúltimo colocado. Yuki Tsunoda terminou sua prova de estreia pela Red Bull em 12º e ganhou do amigo internauta o título de Piloto do Dia. Lawson, de volta à Meu Cartão Tem Cash Back, acabou em 17º.
Foi a primeira vitória de Verstappen no ano. O carro, sabemos, não é grande coisa.
Mas o piloto é.
