SÃO PAULO (já vi melhores, mas já vi piores) – Oscar Piastri ampliou sua liderança no Mundial de F-1 ao vencer o GP de Miami, sexta etapa do campeonato. Foi sua quarta vitória no ano, sexta na carreira. Lando Norris, seu companheiro de McLaren, foi o segundo. O pódio foi completado por George Russell, da Mercedes. O brasileiro Gabriel Bortoleto, da Sauber, abandonou com problemas de alimentação de combustível.
Na tabela de classificação, o australiano tem agora 131 pontos, contra 115 de Norris. Max Verstappen, quarto colocado na corrida da Flórida, é o terceiro com 99. E já vê Russell, com 93, se aproximando perigosamente.
A corrida foi disputada sob ameaça constante de chuva, mas não caiu uma gota sequer. A tarde foi abafada, 26°C, e nublada. Não choveu nem antes da largada, como ontem antes da Sprint. Ainda bem, porque as tempestades esperadas poderiam estragar o momento mais divertido do fim de semana: o desfile das estrelas do espetáculo. Cada equipe recebeu um carro feito de Lego com motor elétrico. Em duplas, os pilotos ficaram batendo roda a passo de tartaruga pelos mais de 5 km do circuito, morrendo de dar risada. Foi ótimo para Toto Wolff, que vive sendo perturbado pela mãe de Kimi Antonelli em dia de corrida. “Mandei um vídeo para sua mamma dizendo que você estava bem na prova e ela disse que finalmente teria um domingo de paz”, disse o chefe ao jovem piloto.
Com Verstappen na pole, o GP de Miami começou com uma boa largada do holandês. Como de hábito, ele fez uma careta para Norris e, mesmo atrasando a freada na primeira curva, manteve a ponta. Lando começou a chorar quando viu Max na frente e caiu para sexto. Um início de prova desastroso. Só parou quando seu engenheiro informou que não era um monstro fazendo careta, era só outro piloto. Antonelli, Piastri, Russell e Alexander Albon passaram o inglês da McLaren.
Logo na primeira volta Liam Lawson tocou em Jack Doohan, que furou o pneu e abandonou. Pode ter sido a melancólica despedida do australiano da Alpine da categoria. Todo mundo aposta na sua substituição por Franco Colapinto em Ímola, próxima etapa do campeonato, a primeira na Europa. A ver. Já o piloto da Nossa Maquininha Também Aceita Pix rodou. Também abandonaria a prova pouco depois.
Por conta de alguns pedaços de carro na pista, o safety-car virtual foi acionado, mas já na quarta volta a direção de prova agitou a bandeira verde e a ordem estava dada: pé no porão. Norris passou Albon e Piastri fez o mesmo com Antonelli. Estavam ligadíssimos, os pilotos da McLaren. Seus carros sobravam. Era tudo que Verstappen não queria: Oscar atrás dele. Já na volta 5 o animado líder do campeonato estava menos de 1s atrás do holandês, podendo abrir a asa móvel.
Mas Max acelerou e conseguiu se distanciar um pouquinho. “Oscar, tente se aproximar para usar o DRS”, pediu o engenheiro. “Sim”, respondeu o piloto. “Você acha que consegue?” “Sim.” “Mas ele está abrindo, Oscar”, retrucou o engenheiro. “Sim.” “Desse jeito ele ganha, Oscar!” “Sim, eu sei.” Foi quando o engenheiro olhou para o lado e perguntou, desconfiado: “É ele mesmo? A resposta foi longa demais.”
A corrida estava boa, pelo menos nas disputas pelas primeiras posições. Na volta 7, Norris mergulhou para cima de Russell e assumiu o quarto lugar. Verstappen não conseguia descolar muito de Piastri, que por sua vez já tinha deixado Antonelli comendo poeira. Carlos Sainz, mais atrás, passou o companheiro Albon e foi para sexto. Bortoleto se mantinha na posição original de largada, 13º.
Na volta 9, Piastri foi para cima de Max. Reduziu bem a diferença e foi alertado pelo rádio, como quase todos os pilotos sobre a possibilidade de uma tempestade vindoura. “Vai chover, e vai ser forte!”, avisou seu engenheiro. “Sim”, respondeu Oscar. “Quer que a gente prepare um bote?” “Sim.” Na mesma volta, Norris, voando, passou Antonelli e assumiu o terceiro lugar.
A décima volta foi daquelas de tirar o fôlego. Sem medo de cara feia, Piastri resolveu atacar o líder de verdade. Max se defendia com o vigor de sempre. Abriu a volta 11 ainda na frente. Oscar continuava babando na gravata. Pelo rádio, o engenheiro do tetracampeão orientava: “Fica por dentro, Max, deixa ele se virar!”. Piastri até tentava. Com isso, Norris se aproximava dos dois.
A ultrapassagem, afinal, aconteceu na volta 14. Max atrasou a freada na curva 1 e não conseguiu resistir. Aí Norris chegou para fazer o mesmo. O holandês, pelo rádio, reclamou dos freios. “Não servem pra nada”, se queixou. Lando tentou a ultrapassagem na abertura da volta 15 e não passou. Mas parecia questão de tempo. Piastri agradecia e ia abrindo. Na volta 17, já tinha mais de 5s sobre Verstappen. Foi quando Lando ultrapassou o rival, no miolo da pista.
Só que Verstappen é holandês e não desiste nunca. Algumas curvas depois, passou de novo. Pareceu realmente uma linda manobra. Mas, na verdade, o que aconteceu foi uma devolução de posição de Norris, que tinha feito a ultrapassagem anterior por fora dos limites da pista. Tanto que na volta seguinte Lando superou novamente o #1 da Red Bull e, por fim, assumiu a segunda colocação. Piastri estava 9s à frente dele. Ali acabou a corrida, pelo menos no que diz respeito à briga pela vitória.
Na altura da 20ª volta, nuvens escuras pairavam sobre o autódromo em volta do estádio e o tempo fechou. No mesmo momento, pelo rádio, Russell chamou a Mercedes: “Senhores, olhem para o céu. Repararam como plúmbeo está o firmamento? Notei algumas gotas, poucas, é verdade, na minha viseira. Quando vinha para a pista, estava escutando o rádio. Ouço muito rádio, em todos os países. Tem uma moça que fala do tempo com enorme segurança na estação local. Disse ela: ‘Choverá antes das cinco da tarde. E será pesada, a precipitação’, garantiu a moça. Não sei seu nome. Mas não tenho motivos para duvidar de…” “George, cala a boca”, pediu Toto Wolff.
Bortoleto, naquele momento, foi o primeiro a trocar pneus. Colocou os compostos duros, para ir até o fim da corrida. Piastri, Norris, Verstappen, Antonelli, Russell, Albon, Sainz, Charles Leclerc, Yuki Tsunoda e Esteban Ocon eram os dez primeiros. Lewis Hamilton, em 11º, sofria para passar um carro da Haas. Conseguiu na volta 23.
Chuva? Zero. Os alertas dos engenheiros e o depoimento detalhado de Russell tinham mais cara de alarmismo, àquela altura, do que de realidade. A prova se aproximava da metade, e nada de água.
O primeiro piloto do pelotão da frente a parar foi Antonelli. Junto com ele veio Sainz. Não dava mais para esperar pela chuva, os pneus estavam acabando. Verstappen parou na volta 27, para não tomar um “undercut” do piloto da Mercedes. Voltou em sétimo, à frente de Kimi, o italianinho.
Na volta 29, quebrou o motor de Oliver Bearman. Estava no meio da pista, e foi necessário acionar o safety-car virtual mais uma vez, para que seu carro fosse retirado da pista. Quem não tinha parado ainda aproveitou. Piastri e Norris foram juntos para os boxes. Voltaram à pista onde estavam, em primeiro e segundo. Russell veio também, assim como Leclerc. Se deu bem o inglês, ganhando nos boxes a posição de Verstappen. Apenas dois pilotos, naquele momento, ainda não tinha trocado os pneus: Nico Hülkenberg e Pierre Gasly, na segunda metade do pelotão. Ambos tinham largado com compostos duros, para esperar a chuva cair.
Na volta 32, depois de ser informada pelo rádio que o motor estava falhando, a Sauber chamou Bortoleto para os boxes. O brasileiro abandonou, mas nem conseguiu chegar à garagem. Bem mais à frente, de quinto em diante, Albon, Antonelli, Sainz e Leclerc trocavam posições, olhares e ofensas. O safety-car virtual foi acionado de novo para que os comissários colocassem o carro de Bortoleto em lugar seguro – procuravam alguma vaga de estacionamento do Walmart com valores aceitáveis para diárias de 24 horas.
Na volta 34, bandeira verde de novo. Sainz e Leclerc foram para a trocação (é assim que se fala, nas lutas livres?) direta e o monegasco conseguiu ficar à frente do ex-companheiro de equipe. Hamilton, que acompanhava tudo aquilo de camarote – e tinha pneus médios, pois largara com duros –, veio na balada e também passou o espanhol, assumindo o oitavo lugar.
E nada de chuva. Piastri, entusiasmadíssimo na liderança, era consultado por seu engenheiro. “Oscar, você acha que vai chover?” “Sim.” “Quer trocar os pneus logo de uma vez?” “Sim.” “MAS OSCAR, SE TROCAR E NÃO CHOVER VOCÊ PERDE A CORRIDA!” “Sim.”
Naquele momento, Hamilton chegou em Leclerc. Tinha pneus médios contra duros do companheiro e pediu, implorou, rogou, suplicou pela troca de posições. “Meus pneus estão fritando!”, desesperou-se. A Ferrari hesitou. “Um momento, já te retorno”, pediu o engenheiro. “Vocês querem que eu fique aqui até o fim da corrida?” “Lewis, você tem a asa móvel, tente…” O inglês ficou meio puto. “Isso não é trabalho de equipe…” Finalmente a Ferrari ordenou a troca. Meio óbvio. Climão desnecessário. Era a volta 40.
O mal-estar continuou, já que Hamilton não abriu muito em relação a Leclerc. Este, então, entrou no rádio. “Estou travado atrás dele. Peçam para que ele acelere mais, estou no ar sujo!” Na boa, dois bobos brigando por sétimo e oitavo lugares. Se sou eu o chefe, desligo o rádio e dou uma placa: “Virem-se!”.
Na volta 52, a equipe mandou Hamilton devolver a posição de novo. Um circo. Lewis tirou o pé e Charlinho passou. O heptacampeão ficou mais pistola ainda. Esse troca-troca todo visava tentar alcançar Antonelli, o sexto colocado. E não deu. Que pobreza…
A prova se encaminhava para o fim e tudo que de interessante aconteceu nas primeiras voltas, a briga forte pelas primeiras posições envolvendo a dupla da McLaren e Verstappen, basicamente, ficou no passado. Chuva não veio. Ninguém bateu, nenhum safety-car foi necessário. Estratégia de pneus? Uma parada para todo mundo.
No fim, o GP de Miami não foi mesmo grande coisa. Piastri venceu com tranquilidade, fazendo dobradinha com Norris e levando ao pódio, de bicão, Russell em terceiro. Verstappen foi o quarto, seguido por Albon, Antonelli, Leclerc, Hamilton, Sainz e Tsunoda nas dez primeiras posições. Yuki quase perdeu o décimo lugar porque excedeu a velocidade nos boxes e foi punido com 5s. A posição ficaria com Isack Hadjar, mas faltou pouco mais de 0s1 para o francês conseguir o pontinho. Na última volta, Hamilton e Sainz ainda se bateram a poucos metros da linha de chegada, mas o inglês ficou à frente.
Piastri comemorou a vitória efusivamente. Deu até três passos de dança diante dos mecânicos — aprendeu com jogadores da NFL, me disseram. Parecia um androide de feira de ciências do ensino médio. “Está feliz, Oscar?”, perguntou o entrevistador do dia, o ex-piloto Jenson Button. “Sim.” “Você acha que pode ser campeão?” “Sim.” “E Norris, pode reagir?” “Sim.” Sua namorada veio festejar junto. Muito animada, a moça também foi entrevistada pelos repórteres no entorno. “Está orgulhosa?” “Sim.” “Já tinha visto ele dançar desse jeito?” “Sim.” “Vocês vão se casar?” “Sim.”
E foi isso. Agora, uma semana de pausa e, depois, três domingos seguidos com corridas em Ímola, Mônaco e Barcelona. Vem, Europa!
