Blog do Flavio Gomes
F-1

LA PACE È FINITA! (3)

SÃO PAULO (incrível) – Max Verstappen venceu o GP da Emilia-Romagna em Ímola e, mais uma vez, deu uma demonstração de talento e superioridade sobre todos os pilotos de sua geração. O holandês chegou à sua 65ª vitória na F-1, segunda nesta temporada e quarta seguida na pista italiana, que voltou ao calendário em 2020 […]

Verstappen, 65 vitórias: mais uma daquelas tiradas da cartola

SÃO PAULO (incrível) – Max Verstappen venceu o GP da Emilia-Romagna em Ímola e, mais uma vez, deu uma demonstração de talento e superioridade sobre todos os pilotos de sua geração. O holandês chegou à sua 65ª vitória na F-1, segunda nesta temporada e quarta seguida na pista italiana, que voltou ao calendário em 2020 – ganhou em 2021, 2022 e 2024 (em 2023 a prova foi cancelada por causa das enchentes na região).

O pódio no histórico autódromo Enzo & Dino Ferrari teve Lando Norris em segundo e Oscar Piastri em terceiro. Os dois pilotos da McLaren, não é exagero dizer, foram humilhados pelo tetracampeão. Têm os melhores carros da temporada, um deles – o australiano, líder do campeonato – estava na pole, foram favorecidos por um safety-car no final, mas não conseguiram fazer frente à estrela da Red Bull. O resultado mantém Verstappen em terceiro no Mundial com 124 pontos. Piastri tem 146 e Norris, 133. A diferença de Oscar para Max caiu de 32 pontos depois de Miami para 22 agora, com sete etapas das 24 deste ano já realizadas. Domingo que vem tem Mônaco.

Max prepara a ultrapassagem na Tamburello: a partir daí, domínio

Max não estava na primeira posição do grid, mas fez o que deve ser feito em Ímola para tentar vencer: largar bem. E sua largada foi nada menos que excepcional. Chegou a cair para terceiro antes da freada para a Tamburello, mas enquanto Piastri e Russell se preocupavam um com o outro o holandês mergulhou na primeira perna da chicane e saiu da segunda em primeiro. Imediatamente abriu mais de 1s para o australiano e se livrou da ameaça da asa móvel. O roteiro prévio da corrida mudou.

Até a décima volta, o habitual trenzinho de Ímola não mudou muito, com a locomotiva Verstappen puxando os vagões Piastri, Russell, Norris, Alonso, Sainz, Albon, Stroll, Leclerc e Hadjar nas dez primeiras posições. O primeiro ataque mais incisivo foi de Landinho sobre Jorginho pelo terceiro lugar. O inglês da McLaren tentava recuperar o que havia perdido na classificação, com uma decepcionante quarta posição de largada.

A ultrapassagem, muito bonita, aconteceu na 11ª volta na chicane da curva Villeneuve. Lando assumiu a terceira posição e tinha cerca de 7s de déficit para Piastri, o segundo, e quase 10s para Verstappen. Nesse momento começaram os pit stops – 15 pilotos largaram com pneus médios e cinco (Antonelli, Hamilton, Hülkenberg, Bearman e Tsunoda) com os duros. A Pirelli previa, para quem tinha médios, a abertura da janela de paradas a partir da 19ª volta. Mas a borracha de alguns começou a abrir o bico antes. Piastri, por exemplo, entrou no rádio e fez um verdadeiro pronunciamento para seus padrões discursivos: “Acho que o plano A é meio ambicioso”, disse. Parou na volta 14 e o pessoal da McLaren olhou desconfiado para aquele piloto no cockpit. “Quem é que tá dirigindo?”, perguntou Zak Brown.

O tinhoso RB21: carro melhorou muito de sexta para domingo

Na volta 15, Verstappen, Norris, Albon, Hadjar, Antonelli, Hamilton, Hülkenberg, Colapinto, Bearman e Tsunoda eram os dez primeiros. Nenhum deles tinha trocado pneus. Piastri abria, em 11º, a fila dos que já tinham feito pit stops. De Max para Lando, a ampulheta parava nos 10s. Leclerc foi o que mais lucrou na primeira bateria de paradas. Por ter sido o primeiro a parar, ganhou as posições de Russell, Sainz, Alonso e Stroll. Ponto para a Ferrari, ao menos até ali. A interrogação, para todos que pararam prematuramente, era: seria necessária uma segunda troca?

O curioso é que a turma da frente não fazia nenhuma menção de parar. Verstappen e Norris, os dois primeiros, estavam adorando o desempenho de seus pneus sem ninguém na frente, de cara para o vento, como dizia Galvão Bueno, e sem “ar sujo”, como dizia a Cetesb. O engenheiro de Piastri, então, entrou no rádio. O australiano já estava em sétimo e era o primeiro da turma que já tinha feito pit stop. “Oscar, você acha que consegue ir até o final com esses pneus?” “Sim.” “E você acha que dá para alcançar o Max depois que ele parar?” “Sim.” “Mas você sabe que ele está bem na frente, né?” “Sim.” “Acho que paramos cedo demais, não?” “Sim.” “Foi uma… cagada?” “Sim.”

Lá na frente, Max monitorava a diferença para Piastri. Em primeiro, depois de 28 já longas voltas, tinha 32s8 para o australiano. Era uma vantagem que lhe dava, com folga, a chance de voltar da parada ainda na frente. Naquela altura, Piastri já era o quarto colocado, o único dos que tinham trocado pneus que vinha escalando o pelotão. Seu companheiro Norris parou na volta 29. De segundo, caiu para sétimo.

Mas deu azar. Naquele exato momento, Esteban Ocon estacionou seu carro na grama com problemas mecânicos e o safety-car virtual foi acionado. Todo mundo tirou o pé. Max, claro, aproveitou para trocar seus pneus na hora. Os demais que ainda não tinham parado fizeram o mesmo. E alguns que já tinham trocado pneus voltaram aos boxes para aproveitar o ritmo lento. Leclerc, que tinha ganhado várias posições sem precisar passar ninguém, foi um deles. E lamentou pelo rádio: “Inacreditável. Eu sempre, sempre me dou mal com safety-car”, falou.

Piastri também fez uma segunda troca. Não tinha jeito. Ficar com pneus velhos até o final da corrida faria dele um alvo fácil daqueles que tinham borracha nova. Na volta 31, com o Haas de Ocon recolhido ao pátio do Detran, o safety-car virtual foi desativado. Verstappen, Norris, Albon, Piastri, Hadjar, Antonelli, Hamilton, Alonso, Leclerc e Stroll eram os dez primeiros. A diferença de Max para Lando: 20 confortáveis segundos.

Na turma dos coadjuvantes, dois pilotos se destacavam com atuações decididas e assertivas: Hadjar e Hamilton. O inglês vestiu o vermelho com vontade e desandou a fazer ultrapassagens. Na volta 34, passou seu substituto na Mercedes, Antonelli, e assumiu a sexta posição. Isack era o quinto, com bela apresentação. Algumas posições atrás, Russell fazia o mesmo e tentava recuperar o terreno perdido em suas duas paradas.

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Na volta 36, Lewis passou o carro do jovem franco-argelino da Aproxima Aqui, levantando a torcida. OK, era só um quinto lugar, mas o empenho foi reconhecido pelos tifosi. Leclerc, um pouco mais atrás, desfrutava de pneus mais novos – fizera duas paradas, lembremo-nos – e retomava o terreno. Na volta 38, passou Antonelli e foi para sétimo. A torcida se levantou de novo, porque para ferrarista o que vale é o carro, não o piloto – Kimi é de Bolonha, mas não veste vermelho; então, dane-se sua nacionalidade.

Era uma boa corrida. Como havia uma certa mistura de pneus em uso – pilotos com médios novos, outros com duros novos e alguns de duros usados –, dava para ultrapassar com alguma facilidade. Alguns perdiam rendimento, como a dupla da Aston Martin. Alonso e Stroll, que haviam trocado cedo e não pararam de novo no safety-car virtual, foram despencando no pelotão. “Eu sou o piloto mais azarado do mundo!”, praguejou o veterano espanhol. Hülkenberg, que largou de duros e só foi colocar médios com a prova neutralizada, escalou a montanha e chegou a andar em décimo. Sainz, com duas paradas, veio lá de trás e foi buscar seus pontos. Na volta 43, a dez do final, Verstappen, Norris, Piastri, Albon, Hamilton, Leclerc, Hadjar, Antonelli, Russell e Sainz ocupavam as dez primeiras posições.

(Sei que até agora Gabriel Bortoleto não foi citado, mas não há muito a dizer. Chegou a ficar em décimo quando muitos à sua frente pararam, mas o brasileiro não esticou seu stint porque largou de médios e teve de parar logo, também. Voltou às últimas posições e na volta 45 estava em 18º. Foi onde terminou, em último, considerando os dois abandonos da corrida. Hülkenberg foi melhor, lutou pelos pontos, mas acabou zerado em 12º. Outro que nada fez foi Franco Colapinto em sua estreia pela Alpine. Assustado com o acidente de ontem, se arrastou no fundão e foi o 16º.)

Na 46ª volta, novo safety-car. Desta vez, real, não virtual. Antonelli estacionou na grama com problemas em seu Mercedes, que apagou do nada. Aí não tem conversa, pneu novo é quase mandatário para fechar a corrida. Verstappen foi para os boxes e colocou um jogo reluzente de pneus duros. Norris também parou, mas teve de recorrer a pneus duros usados. Piastri decidiu ficar na pista – já tinha dois pit stops, àquela altura teria de se virar com o que tinha. Na Ferrari, Lewis parou e Leclerc, não.

Max não curtiu muito aquele safety-car, já que tinha construído uma vantagem gigantesca para seus rivais da McLaren. Paciência. A quebra de Kimi recolocou os papaia na prova, já que as diferenças atrás do carro de segurança são anuladas. Seu desejo era que Norris, com pneus mais novos, brigasse com Piastri, cuja borracha já dava sinais de estafa – sua segunda troca acontecera na volta 31.

A relargada, que demorou muito, foi dada na volta 54 com Verstappen, Piastri, Norris, Leclerc, Albon, Russell, Hamilton, Sainz, Hadjar e Hülkenberg nas dez primeiras posições. Charlinho, pelo rádio, fazia previsões sombrias por causa de seus pneus também bem gastos. “Não sei nem se chego nos pontos”, vaticinou. Não era um despropósito. Atrás dele todo mundo tinha borracha nova, que nessa F-1 de hoje faz uma diferença monumental – qualquer que seja o composto em uso.

Max, espertíssimo, abriu mais de 1s sobre Piastri antes de fechar a volta da relargada, deixando a confusão para quem estava atrás dele. Uma leitura, como sempre, precisa da corrida – por parte dele e da Red Bull. Quando a asa móvel foi liberada, na volta 55, o holandês já tinha 1s8 sobre Oscar. E foi embora.

Como se imaginava, a galera com pneus mais velhos – Piastri, Leclerc, Russell, Hülkenberg – começou a sofrer. Na volta 56, Tsunoda passou o alemão da Sauber; Hamilton deixou para trás seu ex-parceiro de Mercedes na 57ª; na 58, Lando engoliu Piastri. “Ele tem pneus mais novos, Oscar”, explicou o engenheiro. “Sim.” “Mas você é líder do campeonato, o certo era deixar você na frente”, seguiu o engenheiro, venenoso. “Sim.” “Se eu fosse você, dava um soco nele no pódio”, continuou, incentivado pelo chefe Zak Brown. “Sim.”

Na volta 60, Albon tentou o ataque sobre Leclerc na Tamburello, mas não passou. Com a porta fechada pelo ferrarista, teve de jogar o carro na brita, o que acabou permitindo a ultrapassagem de Hamilton, que vinha atrás dele. Lewis, de pneus mais novos, aproveitou e passou seu companheiro na volta seguinte, aí sem resistência. Foi para a quarta posição – e aqui é preciso admitir: belíssima corrida do #44, sua melhor pela Ferrari.

Albon voltou à carga sobre o monegasco, uma linda disputa entre duas equipes históricas no apagar das luzes do GP da Emilia-Romagna. Mas que acabou rapidinho porque a Ferrari mandou Leclerc entregar a posição para não ser punido. Chaleclé ficou pistola, mas obedeceu. Nem precisava. Os comissários não viram nada de errado em sua manobra de defesa na volta anterior. Nem Albon. “Foi tudo normal”, falou o tailandês da Williams.

E a corrida chegou ao final com Verstappen cruzando a linha de chegada 6s109 à frente de Norris, o segundo, e 12s956 antes que Piastri. Hamilton foi o quarto (sua melhor posição no ano), seguido por Albon, Leclerc, Russell, Sainz, Hadjar e Tsunoda na zona de pontos.

David Coulthard fez as entrevistas pós-corrida. “Decepcionado, Oscar?” “Sim.” “Não foi o melhor domingo de todos, né?” “Sim.” “Max fez uma grande largada, não?” “Sim.” “A McLaren foi bem burrinha de deixar o Lando passar, né?” “Sim.” “Você tem vontade de quebrar a garrafa de champanhe na cabeça do Zak?” “Sim.”

Já Verstappen, um pouco mais falante, disse que sua largada não foi a melhor de todos os tempos, mas que na aproximação da chicane da Tamburello viu um espaço disponível e decidiu ir por lá mesmo. Elogiou o carro, os pneus, a equipe, e festejou a vitória no 400º GP do time austríaco na F-1. “A execução da nossa corrida foi perfeita, estão todos de parabéns”, disse.

Perfeito é ele, com todo respeito a quem trabalhou neste domingo na garagem e na fábrica da Red Bull. Ô moleque bom.