Blog do Flavio Gomes
F-1

SOBRE DOMINGO DE MANHÃ

A IMAGEM DA CORRIDA SÃO PAULO (pausa pra respirar) – Não tem outra, né? Ainda que do ponto de vista estético um frame de TV não seja grande coisa, o valor histórico e jornalístico não se nega. O toque de Max Verstappen em George Russell no fim do GP da Espanha foi o desfecho de […]

A IMAGEM DA CORRIDA

O momento do toque: vitória da McLaren ficou em segundo plano

SÃO PAULO (pausa pra respirar) – Não tem outra, né? Ainda que do ponto de vista estético um frame de TV não seja grande coisa, o valor histórico e jornalístico não se nega. O toque de Max Verstappen em George Russell no fim do GP da Espanha foi o desfecho de uma corrida eletrizante em boa parte por causa do holandês e de sua equipe. A Red Bull foi ousada na estratégia de três paradas, contra o padrão de duas em Barcelona. É uma tática que deixa qualquer piloto, porém, vulnerável no caso de um safety-car. Que não é lá muito frequente na pista catalã.

Só que teve, quando Kimi Antonelli quebrou. E a partir daí desencadeou-se uma sequência de fatos que culminou com a batida e a punição ao tetracampeão mundial — que o jogou da quinta para a décima posição.

E aí vêm os julgamentos. Foi de propósito? Ele não viu, porque estava desconcentrado depois de brigar com a equipe pelo rádio? Foi instintivo e depois se arrependeu?

Trabalho com fatos. Primeiro deles: bateu, tem de ser punido. Segundo, e anterior à batida: a equipe mandou Verstappen deixar Russell passar e isso deixou o rapaz fora de si. Prestem atenção na frase, que vou colocar em negrito: mandou deixar Russell passar. E não devolver a posição. Porque o inglês não chegou a passar Max na curva 1. Eles dividiram a freada e o contorno para a direita. George chegou a tocar em Max. E o piloto da Red Bull, para não bater, foi para a pista de serviço que corre paralelamente ao traçado.

Quem descreveu a cena foram os comissários esportivos, que abriram uma investigação e rapidamente concluíram que nenhuma ação seria necessária (é a primeira imagem aí embaixo; clique nela para ler o teor). Coisa de corrida. A Red Bull não quis esperar a decisão dos comissários com medo de uma punição e se antecipou. Direção de prova, é bom lembrar sempre, não manda piloto devolver posição. Analisa se alguém levou vantagem numa manobra potencialmente ilegal e estabelece uma punição. Mas se antes de concluir a investigação e anunciar a pena o “suspeito” devolve a posição ou deixa a “vítima” passar, segue o jogo.

Max foi orientado pelo time a deixar Russell passar. Aí entrou no rádio e questionou a ordem. “O que? Eu estava na frente!”, gritou (o diálogo em inglês é a segunda imagem acima). Russell, claro, era informado pela Mercedes do que estava acontecendo. Na curva 5, Max tirou o pé, ficou lento e George foi para a ultrapassagem. Era um trecho de baixa velocidade. Mas Verstappen acelerou de novo em linha reta e houve o choque — leve, porque se fosse para tirar o outro da prova, e aí a dedução é minha, baseada apenas no que sei de corridas e pilotos, batia com força e segurava a bronca.

O que quis fazer? Dar um recado? Mostrar que não concordava com a ordem do time? Eu não entro na mente das pessoas. Se fez de propósito, só ele sabe. E duvido que assuma algo do tipo. É muito claro que cometeu um erro. E isso assumiu, em breve postagem no Instagram (está na última imagem da galeria acima): “Um movimento que não foi correto e não deveria acontecer”, escreveu. A punição foi justíssima. Se a equipe não dissesse nada, seguiria na frente e poderia ser ultrapassado depois. Provavelmente aconteceria, pela diferença de pneus.

O momento da batida: foi de propósito?

Respeito todas as opiniões. Mas não inundo vocês com certezas quando tenho dúvidas. Não sou adepto de verdades definitivas construídas a partir de achismos. Cada um acha o que quiser, e o que aconteceu concede a qualquer um o direito de ter uma opinião. Mas certeza absoluta, não creio. De novo: só Max sabe se bateu de propósito. Na hora, achei que não tinha visto, ou que ainda estava discutindo pelo rádio. Os vídeos on-board, porém, mostram que não estava falando nada naquele momento. Estava puto e bateu no colega. Cinco curvas depois, deixou Russell passar. Mas aí Inês era morta, já tinha batido, seria punido.

Comissários esportivos não analisam intenções. Analisam fatos. O fato é que ele bateu e por isso foi levou 10s no lombo. Daí a afirmar que é um mau caráter, desleal e desonesto, um piloto que deve ser suspenso e banido da face da Terra, vai uma grande distância. Fico com minha opinião deixada muito clara aqui ontem: a F-1 precisa de perdedores assim, caras que quando vislumbram uma pequena chance de vencer, lutam por ela. E foi o caso, com a estratégia de três paradas e um ritmo fortíssimo nas 66 voltas do GP.

Detalhe relevante: Verstappen está pendurado na pontuação na carteira: 11 nos últimos 12 meses. Não pode levar mais nenhum nas próximas duas corridas, no Canadá e na Áustria. Se isso acontecer, será suspenso por uma etapa.

E vou dizer… Bem pior que o choque com Russell foi o que quase aconteceu antes, e que dá direito a Verstappen de reclamar de um adversário em particular: Charles Leclerc. Depois da rabeada na entrada da reta, o holandês se manteve pela esquerda para tentar aproveitar o vácuo de Lando Norris, que estava à sua frente, para evitar a ultrapassagem do monegasco. Mas Charlinho realmente deixou seu carro escorregar para cima do rival e eles se tocaram. Ali, roda com roda, de pé embaixo, no meio de uma reta gigantesca, poderia dar uma merda federal. Os comissários, no entanto, acharam que ninguém deveria ser punido. Vendo a imagem do alto, porém, fiquei com a impressão de que o ferrarista exagerou. Talvez tenha procurado o mesmo vácuo. Mas tinha um carro ao seu lado.

O GP da Espanha descolou a dupla da McLaren de Verstappen na classificação. Oscar Pastri abriu 49 pontos e está muito bem na fita. Na classificação das equipes, quem se saiu bem foi a Ferrari, pulando de quarto para segundo na tabela. A Sauber, graças ao quinto lugar de Nico Hülkenberg, deixou a lanterna e subiu para oitavo, relegando a Alpine à última colocação. Oito das dez equipes pontuaram em Barcelona: McLaren, Ferrari, Mercedes, Sauber, Meu Cartão Não Passa, Alpine, Aston Martin e Red Bull. Ficaram no zero a Haas e a Williams — esta pela segunda vez na temporada, como no Bahrein.

O NÚMERO DA ESPANHA

8

…pódios seguidos tem Piastri. Na história da McLaren, apenas dois pilotos chegaram a tanto: Ayrton Senna, do México à Bélgica em 1988, e Lewis Hamilton, em 2007. O inglês, na verdade, bateu nos nove consecutivos entre os GPs da Austrália e da Inglaterra daquele ano.

Alguns números legais produzidos por Barcelona, além desse dos oito pódios consecutivos de Piastri. Começando com Fernando Alonso, que fez seus primeiros pontos no ano e, assim, completa 21 temporadas na F-1 pontuando. O único campeonato em que zerou foi o da estreia, em 2001, pela Minardi. Depois o espanhol passou um ano como piloto de testes, em 2002, e correu direto de 2003 a 2018. Em 2019 e 2020 ficou fora da F-1, voltando em 2021. Aos 43 anos, é o piloto que tem mais GPs disputados na história: 410.

Mais: a Sauber conseguiu sua melhor posição numa corrida desde 2022. Hülkenberg repetiu o quinto lugar de Valtteri Bottas no GP da Emilia-Romagna daquele ano, quando o time disputava o Mundial como Alfa Romeo. Falando nele, Bottas, fiquemos atentos: tem gente dizendo que se Lance Stroll não puder correr em Montreal o finlandês pode ser escalado — como piloto Mercedes, ele pode guiar para equipes que usam os motores alemães. Seria um duro golpe em Felipe Drugovich, o reserva imediato.

Voltando ao interminável Hulk, ele teve seu melhor resultado desde o quinto em Monza/2019, pela Renault. Já a McLaren fez sua primeira dobradinha na Espanha depois de 25 anos. Em 2000, venceu Mika Hakkinen, com David Coulthard em segundo.

A FRASE DE BARCELONA

“Já fiz isso no Mario Kart.”

Lando Norris, sobre a manobra de Verstappen
Norris na salinha: crítica a Verstappen

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS… da atuação de Gabriel Bortoleto, 12º no grid e 12º na corrida. O brasileiro poderia ter chegado nos pontos, talvez, se a Sauber tivesse optado por colocar um jogo de pneus macios na largada. Mas ele largou com pneus usados e foi usar os novos no último stint. Num determinado momento, a equipe pensou em apenas uma parada para ele. De qualquer maneira, foi sua melhor posição de largada e melhor classificação final numa corrida no ano.

NÃO GOSTAMOS… do desempenho de Lewis Hamilton, sexto colocado, tendo sido ultrapassado pela Sauber no final da corrida. Quase um vexame. Depois da prova, desolado, o inglês disse em entrevista à Sky, da Inglaterra: “O problema sou eu”. Poucas vezes se viu o heptacampeão tão desanimado na carreira.