Blog do Flavio Gomes
F-1

TAPAS Y ASAS (4)

SÃO PAULO (surtou) – Olha, a McLaren ganhou o GP da Espanha, fez mais uma dobradinha, vai ser campeã e tal. Parabéns ao Oscar Piastri, que ganhou em Barcelona e chegou a sete vitórias na carreira, cinco neste ano. É um piloto admirável, frio, focado, que fala pouco e erra quase nada. Foi a 186 […]

SÃO PAULO (surtou) – Olha, a McLaren ganhou o GP da Espanha, fez mais uma dobradinha, vai ser campeã e tal. Parabéns ao Oscar Piastri, que ganhou em Barcelona e chegou a sete vitórias na carreira, cinco neste ano. É um piloto admirável, frio, focado, que fala pouco e erra quase nada. Foi a 186 pontos, dez a mais que seu espevitado companheiro Lando Norris, segundo colocado. A briga pelo título está aí, é muito difícil uma reviravolta de quem quer que seja, ainda que faltem 15 corridas para o fim do campeonato.

Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem. A equipe papaia merece ser aplaudida de pé, assim como alguns dos personagens da prova de hoje na ensolarada Catalunha. Especialmente Nico Hülkenberg, quinto colocado com a Sauber, quase um milagre. Ou Fernando Alonso, com três belas ultrapassagens no fim para pontuar pela primeira vez no ano, diante de sua torcida. Ou ainda Isack Hadjar, nos pontos pela terceira vez seguida — comemorando, de quebra o título europeu do PSG, assim como Pierre Gasly, que também chegou entre os dez primeiros..

Mas não dá para contar a história desse GP sem falar de Max Verstappen. “Pô, mas ele ficou em décimo, foi punido, bateu no George Russell!”, gritarão os mais emocionados. Sim, fez tudo isso. Só que é muito legal ver como um piloto vende caro uma derrota. Ver na pista um sujeito que não se conforma em perder. E que tenta ganhar até o fim. O holandês não tem carro, hoje, para fazer frente à dupla da McLaren. Sabe disso. Mas não usa a superioridade dos adversários para amarrar o burro na sombra e ficar em casa guardado por Deus contando o vil metal. Tem alguma chance? Vai atrás. Assim venceu em Suzuka e Ímola neste ano. E foi buscar, em Barcelona: estratégia diferente de três paradas, largada decidida, ritmo forte. Posso até não ganhar, deve ter pensado o tetracampeão. Mas vou dar trabalho.

Deu. E só não deu mais porque no fim da corrida um safety-car levou todo mundo aos boxes para uma derradeira troca de pneus, tirando a vantagem que ele poderia ter nas voltas finais com pneus novos. Talvez não conseguisse, estava em terceiro e Piastri e Norris também tinham pneus em boas condições. Mas estava perto, podia arriscar um ataque, vai saber… Foi quando houve o safety-car, causado pela quebra de Kimi Antonelli. E a Red Bull, nessa parada extra, colocou pneus duros em seu carro, inexplicavelmente. Ou “explicavelmente”: segundo a equipe, eram os únicos novos que tinham sobrado desde a sexta-feira. Só que aqueles pneus de pau, numa relargada, não funcionam. Melhor teria sido deixá-lo na pista com os macios usados que tinha naquela hora, assumindo a liderança. Na pior das hipóteses, seria ultrapassado de novo pelos dois carros da McLaren e chegaria em terceiro. E Max errou na hora da bandeira verde. Deu uma rabeada na última curva e foi ultrapassado por Charles Leclerc numa disputa dura no meio da reta. Perdeu o terceiro lugar. Se estranhou com Russell logo depois. Foi punido. A tentativa de vencer quase deu pódio. E terminou com um décimo lugar.

Max perdeu. O que a F-1 precisa é de mais perdedores como ele.

E vamos à corrida, porque ela saiu melhor que a encomenda, e não foi pouco!

Três paradas: estratégia da Red Bull colocou holandês na corrida

O único piloto que largou de pneus médios, e foi dos boxes, foi Yuki Tsunoda. Os demais, de macios – como a gama da Pirelli era a mais dura do ano, variando as texturas de jacarandá a peroba, os macios de Barcelona aguentariam bem o tranco por algumas voltas. O sol e o calor eram o mesmo da sexta e do sábado: termômetros batendo nos 30°C, asfalto a 50°C.

As luzes vermelhas se apagaram muito rápido hoje, cortesia do diretor de prova que gosta de pregar algumas peças nos pilotos no grid. Piastri não quis nem saber, fechou os olhos e foi embora. Quem dividiu a curva 1 foi Verstappen com Norris. Como de hábito, o holandês prevaleceu. Lando, ao vê-lo do lado, começou a chorar. Russell caiu de quarto para sexto. E quem largou muito bem, ganhando cinco posições, foi Hülkenberg – pulando de 15º para 10º. Seu companheiro Gabriel Bortoleto foi um dos ultrapassados por ele. Mas os comissários perceberam que Nico poderia ter ganhado algumas dessas posições na base do bate-bate e passando pela pista de serviço. Estava sujeito a sanções. Analisaram os vídeos, foram ao VAR e, no fim, não fizeram nada. Coisas de largada, não havia mesmo o que fazer.

Um dos atingidos pela Sauber do veterano alemão foi Alexander Albon, que teve o bico trocado na volta 7. Na volta 10, Piastri, Verstappen, Norris, Lewis Hamilton, Leclerc, Russell, Antonelli, Gasly, Hadjar e Hulk eram os dez primeiros. Oscar já tinha uma folga razoável para Max, quase 4s. Lewis e Chaleclé se estranhavam, com o monegasco se insinuando para cima do companheiro. E acabou passando, aparentemente orientado pela equipe, sem resistência do inglês.

Foi nessa volta, a décima, que alguns começaram a parar. Hülkenberg foi um deles, colocando um jogo de pneus médios. A McLaren avisou a Norris que se ele quisesse poderia partir para cima de Verstappen. “Ele não morde”, disse seu engenheiro. Então Lando se encheu de coragem e passou o rival no fim da reta dos boxes, na 13ª volta.

Max, preocupado com a falta de aderência de seu carro e impotente para brigar com a McLaren, foi para os boxes na volta 14 e colocou um novo jogo de pneus macios. Voltou em oitavo. A Ferrari parou seus pilotos nas voltas 17 (Hamilton) e 18 (Leclerc). Verstappen, com pneus novos, começou a virar rápido e se animou. Foi passando quem aparecia pela frente até se colocar em terceiro de novo na volta 20. E apenas 16s atrás de Piastri, o líder. Daquele jeito, assumiria a liderança quando a dupla da McLaren trocasse pneus.

Naquele momento Bortoleto, que estava andando em décimo, fez seu primeiro pit stop. Voltou em último. Seu ritmo nas voltas anteriores à parada era muito lento. Ele tinha largado com pneus macios usados. Colocou médios novos e melhorou bem. A McLaren consultou Piastri: “Como estão seus pneus? Você aguenta até a volta 25?”, perguntou o engenheiro. “Sim”, respondeu Oscar. Na volta 22, Norris foi para os boxes. Colocou médios e voltou 10s atrás de Max. Piastri, então, parou na 23ª. Também foi para os médios. E Verstappen assumiu a ponta.

A situação, pois, com um terço da prova, era essa: Max em primeiro com pneus macios gastos, tendo de fazer pelo menos mais uma parada; Piastri em segundo a 5s7 dele, com médios novos; Norris idem, a 4s5 do companheiro. Leclerc e Hamilton fechavam o top-5, mas bem distantes. A pergunta era: pararia novamente a McLaren? Ou apostaria nos pneus médios para levar a corrida até o fim com apenas um pit stop?

Verstappen ao fim da prova: irritadíssimo

Era uma possibilidade, remotíssima. Mas longe de ser uma necessidade. Porque na volta 30, Verstappen parou de novo. Colocou pneus médios e deixou clara sua estratégia de três paradas. A McLaren retomou primeira e segunda posições, ficando com a corrida mais ou menos nas mãos.

Na metade da prova, 33 voltas, Piastri, Norris, Leclerc, Verstappen, Hamilton, Russell, Antonelli, Hadjar, Hülkenberg e Oliver Bearman eram os dez primeiros. Bortoleto ocupava a 14ª posição.

Então, a tranquilidade da McLaren começou a virar preocupação. Não, Piastri e Norris não fariam uma parada apenas, é quase impossível em Barcelona. OK, dois pit stops, o padrão. E o Verstappen com três, oxe! Já ganhamos! Isso era o que todos estavam pensando até uns cinco minutos antes. Ocorre que Max acelerava com gosto e ia descontando a diferença. Na volta 37, já era o terceiro de novo, depois de passar Leclerc. Estava apenas 5s4 atrás de Norris..

Verstappen entrou na mente dos engenheiros da McLaren. Era uma ameaça real, porque faria mais uma parada, é verdade, mas seus pilotos também. E as diferenças eram pequenas. “Oscar, acelera aí!”, disse um deles pelo rádio. “Sim”, respondeu o australiano. “Lando, Max está chegando”, avisou o outro. O inglês começou a chorar de novo.

Na volta 46, Bortoleto entrou na zona de pontuação com a parada de Liam Lawson. Seu plano inicial era não parar mais. Podia funcionar. Hülkenberg fez a segunda troca na volta 45 e o brasileiro pulou para nono. Mas assim que saiu dos boxes o alemão recuperou a posição, com pneus mais novos. E Verstappen, na volta 48, fez sua terceira e última parada, para colocar pneus macios. Sua fase final de corrida seria em ritmo alucinante.

A McLaren, tensa, chamou Norris imediatamente. Ele tinha 26s de vantagem sobre o holandês. Também colocou pneus macios. Ao sair dos boxes, olhou no espelhinho e viu o carro de Max crescendo. Ficou ligeiramente apavorado. Piastri parou na volta 50 e, da mesma maneira, calçou pneus macios. Voltou em primeiro, claro, mas a situação não era tão sossegada assim. Estava menos de 4s à frente de Verstappen.

Gabriel tinha parado na volta 49 para seu segundo pit stop, porque os pneus acabaram, mesmo. Colocou seu único jogo de macios novos e caiu para 17º. Não seria sua posição final, porque alguns carros à frente teriam de trocar pneus, ainda. Mas a chance de pontos ficara mais distante, àquela altura.

A briga, porém, estava lá na frente. Piastri, Norris e Verstappen começaram a chegar nos retardatários – Bearman, Alonso, Lawson. Que, assustados, atrapalharam os líderes. Especialmente o coitadinho do inglês da Haas. “Idiotas!”, praguejou Max.

E aí, na volta 55, o safety-car foi chamado. Porque Antonelli quebrou o motor e só conseguiu parar no meio de uma caixa de brita. Piastri, que não é bobo, nem nada, correu para os boxes. Norris fez o mesmo. Ambos tinham pneus macios novos para a reta final da prova. Verstappen também parou, como boa parte dos que estavam na pista. Mas na garagem da Red Bull só havia um jogo de pneus novos. E eles eram duros. “Por que colocaram essa merda?”, perguntou Max, atônito. “Era o que tínhamos, meu filho”, respondeu a equipe.

E para um daqui, outro dali, e Piastri, Norris, Verstappen, Leclerc, Russell, Hamilton, Hadjar, Hülkenberg, Gasly e Lawson eram os dez primeiros na volta 58, atrás do Mercedão vermelho utilizado à guisa de carro de segurança. Bortoleto, com as paradas dos que estavam à sua frente, subiu para 12º. As diferenças construídas em quase uma hora e meia de corrida foram pulverizadas. Teríamos meia dúzia de voltas em ritmo infernal para concluir o GP, para nossa alegria.

O safety-car deixou a pista no final da volta 60. Piastri tirou o pé de tudo, quase parou o carro, acelerando apenas na penúltima curva – é assim que se relarga. E por incrível que pareça, quem bobeou na retomada da prova foi Verstappen. Deu uma rabeada na última curva, perdeu tração e foi ultrapassado por Leclerc. Chegaram a se tocar no meio da reta — houve investigação e os comissários acharam que foi perigoso, mas ninguém foi considerado culpado de nada. Russell quase passou, também. Max teve de ir pela pista de serviço na curva 1, para evitar a batida. Voltou ao leito carroçável da pista na frente da Mercedes do inglês. Mais atrás, Lawson, Bortoleto e Alonso se estapeavam pelo décimo lugar.

Pelo rádio, a Red Bull mandou Verstappen entregar a posição a Russell. O holandês ficou doido. “Por quê?”, gritou. “São as regras”, ouviu de volta. Se tocaram – a impressão que tive foi de uma distração do holandês enquanto discutia pelo rádio, mas não dá para afirmar nada. Acabou deixando Jorginho passar. Estava espumando. Um pouco mais atrás, Alonso seguia na luta. Passou Ocon, Bortoleto e Lawson e assumiu a décima posição. Hülkenberg partiu para cima de Hamilton e… passou! Subiu para sexto, para espanto de todos.

…mas tomou pelo toque no inglês

E, aos trancos e barrancos, Piastri acabou vencendo a corrida, 2s4 à frente de Norris, confirmando o favoritismo da McLaren com mais uma dobradinha. Pela 25ª vez em 35 corridas em Barcelona a vitória ficou com o piloto que largou na pole. Leclerc completou o pódio, com Russell em quarto. Verstappen tomou um pênalti de 10s pelo toque no britânico e caiu de quinto para décimo. A direção de prova informou, depois, que ele nem teria de devolver a posição, foi a equipe que pediu. Mas ainda assim causou uma colisão, e foi ela que resultou na punição. Pior: tomou três pontos na carteira e tem 11 no período de 12 meses. Mais um e será suspenso por uma corrida. Hülkenberg herdou a posição, com Hamilton, Hadjar, Gasly e Alonso nas nove primeiras posições.

Max levou um pontinho para casa, mas saiu do carro irritadíssimo. Com a equipe, por causa dos pneus. Com Leclerc e Russell, porque achou que os dois foram desleais na relargada. Com os comissários, porque o puniram. E com o destino do campeonato, porque Piastri e Norris dispararam na tabela de pontos, tornando o sonho do penta algo muito distante. A diferença dele para Oscar agora é de 49 pontos. Para Lando, 39.

A vida já foi mais fácil para Verstappen.