Blog do Flavio Gomes
F-1

TOMOU NO RING (3)

SÃO PAULO (na trave) – Foi tenso, o GP da Áustria. Ao menos entre os dois pilotos da McLaren, que fizeram mais uma dobradinha, a quarta nesta temporada em 11 corridas. E a primeira delas com Lando Norris na frente de Oscar Piastri. O inglês, que largou na pole, chegou a sete vitórias na carreira, […]

Dobradinha da McLaren: quarta na temporada

SÃO PAULO (na trave) – Foi tenso, o GP da Áustria. Ao menos entre os dois pilotos da McLaren, que fizeram mais uma dobradinha, a quarta nesta temporada em 11 corridas. E a primeira delas com Lando Norris na frente de Oscar Piastri. O inglês, que largou na pole, chegou a sete vitórias na carreira, três neste ano. Foi na Áustria, em 2020, que ele conquistou seu primeiro pódio na categoria. Boas memórias, como se diz.

A dupla papaia andou muito próxima em boa parte da prova. Com um potencial enorme de atrito – modo polido de dizer “dar merda”. Que quase deu na volta 20, o auge da disputa: naquele momento, Piastri chegou a fritar seus pneus para não bater no companheiro. Cruzaram a linha de chegada separados por menos de 3s. No fim, salvaram-se todos. Especialmente o campeonato, que vê Norris se aproximar bem na classificação, deixando a briga pelo título totalmente aberta. Oscar lidera o Mundial com 216 pontos, contra 201 do inglês.

A etapa do Red Bull Ring também foi marcada pelos primeiros pontos de Gabriel Bortoleto na F-1. O brasileiro da Sauber fez uma boa corrida e terminou em oitavo, mesma posição que obtivera na classificação. Chegou muito perto de Fernando Alonso, o sétimo, que executou uma estratégia diferente, de apenas uma parada, e acabou dando certo. Gabriel é o primeiro brasileiro a pontuar na categoria desde Felipe Massa em 2017. Pela Williams, em sua prova de despedida, Massa terminou o GP de Abu Dhabi daquele ano na décima posição. Na história, 21 brasileiros marcaram pontos na principal categoria do automobilismo mundial.

Bortoleto, oitavo: 21º brasileiro a pontuar na F-1

Para não ficar nenhuma dúvida, a lista em ordem decrescente de pontos, lembrando que a F-1 teve vários formatos de pontuação ao longo de sua história: 1) Felipe Massa, 1.167; 2) Rubens Barrichello, 658; 3) Ayrton Senna, 614; 4) Nelson Piquet, 485,5; 5) Emerson Fittipaldi, 281; 6) José Carlos Pace, 58; 7) Bruno Senna, 33; 8) Felipe Nasr, 29; 9) Nelson Piquet Jr., 19; 10) Roberto Moreno, 15; 11) Cristiano da Matta, 13; 12) Christian Fittipaldi, 12; 13) Maurício Gugelmin, 10 (em 74 GPs); 14) Pedro Paulo Diniz, 10 (em 98 GPs); 15) Antonio Pizzonia, 8; 16) Gabriel Bortoleto, 4; 17) Wilson Fittipaldi, 3 (em 35 GPs); 18) Ricardo Zonta, 3 (em 36 GPs); 19) Hermano “Nano” da Silva Ramos, 2 (esse não vai aparecer em todas as listas; nascido em Paris de pai brasileiro e mãe francesa, tinha dupla nacionalidade); 20) Chico Landi, 1,5; 21) Chico Serra, 1.

As coisas começaram meio esquisitas no ensolarado domingo de Spielberg já na volta de apresentação, quando o carro de Carlos Sainz ficou empacado no grid, aparentemente travado na primeira marcha. Aperta um botão daqui, mexe em outro dali, pergunta o que fazer no rádio, e o bicho andou, finalmente. O pelotão já estava chegando para começar a corrida, quando o procedimento de largada foi abortado e atrasado em 15 minutos. Sainz voltou aos boxes. Parou na saída do pit-lane e seus freios traseiros começaram a pegar fogo. Os mecânicos da Williams apagaram o incêndio, mas a corrida do espanhol, que estava em 19º no grid, foi para o vinagre. A viatura foi recolhida aos boxes e o abandono precoce, consumado.

Com uma volta a menos, de 71 para 70, a prova começou… quente. Quente mesmo, porque os termômetros lambiam a casa dos 30°C, com o asfalto derretendo a mais de 50°C. Um calor de ferver leite a céu aberto. E quente nas primeiras disputas. Piastri largou muito bem e passou Charles Leclerc, segundo no grid, partindo para cima de Norris. George Russell também foi esperto e deixou Lewis Hamilton para trás. E na curva 3, Kimi Antonelli freou forte para não bater em Liam Lawson, travou as rodas traseiras, atravessou a pista e bateu em Max Verstappen. Os dois abandonaram.

O jovem italiano da Mercedes perderá três posições no grid na próxima etapa, na Inglaterra, como punição. Max vinha de 31 corridas seguidas nos pontos. Foi seu primeiro abandono desde a Austrália, no ano passado. “Isso acontece, ele me pediu desculpas, somos amigos, está tudo bem”, disse o holandês, em fase paz e amor. “Todo mundo já cometeu algum erro assim na carreira.” Acabou a prova para ele. E o campeonato. Nem o mais otimista consumidor de energéticos em latinha, nessa altura, apostaria no piloto da Red Bull para o título. Com 155 pontos, ele está agora 61 atrás de Piastri. Já era.

O safety-car foi acionado e na quarta volta saiu da frente de Norris, o líder. Bortoleto se mantinha na oitava posição, a mesma da largada, embora tivesse sido ultrapassado por Alexander Albon e Pierre Gasly. Na relargada, Hamilton retomou o quarto lugar de Russell.

Primeira tentativa: Norris resiste

Piastri, com sua proverbial indiferença ao que acontece no universo, ensaiou uma ultrapassagem sobre Norris na volta 6. Tinha a prerrogativa de usar a asa móvel três vezes por volta para atacar o companheiro de equipe, já que a diferença para ele era inferior a 1s. Pelo rádio, o engenheiro deu o recado: “A corrida é sua, decida o que fazer”. “Sim”, respondeu o piloto. “Mas tome cuidado.” “Sim.” “Se você bater nele vai ser foda de se explicar…” “Sim.”

Com dez voltas, Norris, Piastri, Leclerc, Hamilton, Russell, Albon, Gasly, Bortoleto, Lawson e Alonso eram os dez primeiros. Desses, o francês da Alpine era o único que tinha largado com pneus macios, por falta de médios novos na garagem – gastou tudo nos treinos. Atrás deles, também partiram de macios Isack Hadjar, Franco Colapinto, Oliver Bearman e Nico Hülkenberg. Todos os outros largaram de médios.

Na volta 11, Piastri passou Norris. Mas tomou o X do combativo parceiro na volta seguinte. Oscar, então, atacou de novo. Lando se segurou. Nos boxes da McLaren, mecânicos nem respiravam. Na mureta, a chefia roía as unhas. Enquanto isso, Bortoleto assumia a sétima posição em cima de Gasly, que já tinha pneus em petição de miséria. O francês foi para os boxes e colocou pneus duros. Albon também parou e o brasileiro subiu para sexto. Logo depois, o tailandês voltaria aos boxes e abandonaria, também – um fim de semana desastroso para a Williams.

A briga Norris x Piastri seguia e era eletrizante. O australiano atormentava Lando sem tréguas, colado em seus calcanhares. O inglês resistia e tentava fugir da asa móvel do parceiro/rival.

Quase: Piastri fica a centímetros de causar uma tragédia papaia

Russell parou na volta 19, o primeiro dos ponteiros a trocar pneus. Voltou em 11º com os mesmos pneus médios. Na 20ª, Piastri mergulhou para cima de Norris e quase bateu no inglês, fritando os pneus. Passou perto, muito perto. A McLaren, então, chamou Lando para trocar pneus, antes que acontecesse alguma tragédia. Colocou pneus duros no #4. Ele voltou em quarto, à frente de Bortoleto – que com a parada de Russell já era quinto. Pelo rádio, o engenheiro de Piastri falou: “Acelera aí, agora que não tem ninguém na frente”. “Sim.” “Mas você fritou os pneus, né?” “Sim.” “A gente está vendo aqui que os pneus estão bons.” “Sim.” “Diz o que quer fazer, demônio!”, gritou o engenheiro. “Sim.”

Bortoleto parou na volta 22 e voltou em 13º, colocando pneus médios de novo. Voltou atrás de Hülkenberg, que já tinha trocado os seus. Piastri parou, finalmente, na volta 25. Colocou pneus duros e voltou atrás de Norris, com uma diferença bem maior: 5s6. Sua parada não foi grande coisa. Os mecânicos se enrolaram com o pneu dianteiro esquerdo.

Alonso: sétimo com apenas um pit stop

Depois que a dupla da Ferrari parou, os pilotos da McLaren voltaram às duas primeiras posições, na volta 27. Lawson, sem pit stop, era o terceiro. Mas Leclerc, com pneus novos, passou o neozelandês com facilidade e foi atrás de seu trofeuzinho. Mais atrás, a Sauber manejava com bom senso a situação entre seus dois pilotos, tirando Hulk da frente de Gabriel, que tinha pneus mais novos. Na volta 30, o brasileiro já aparecia novamente em oitavo.

Na volta 31, uma batida lá atrás. No improvável embate Japão x Argentina, Yuki Tsunoda tocou em Colapinto, que rodou, mas ficou na corrida. “¡Cabrón!”, gritou o portenho. O japonês foi punido com 10s. Lawson parou, finalmente, na volta 33. Bortoleto, assim, subiu para sétimo e se aproximava de Russell, com um ritmo melhor que o do inglês da Mercedes. Alonso também parou. Ele e Lawson foram os últimos a trocar pneus e os únicos que terminaram a prova com apenas uma parada.

Lá na frente, Norris vivia momentos de relativa tranquilidade. Depois das paradas, Piastri não conseguia mais se aproximar. A diferença na volta 37, já com mais de metade da corrida, era de confortáveis 5s5. Leclerc e Hamilton vinham em terceiro e quarto, a milhas de distância. Russell, Bortoleto, Hülkenberg, Esteban Ocon, Bearman e Gasly fechavam os dez primeiros. O francês, então, foi para sua segunda parada e Lawson entrou nos pontos.

De repente, a vantagem de Lando começou a cair. Na volta 41, os 5s5 do parágrafo anterior despencaram para 3s2. Oscar começou a acelerar de novo. “Se você apertar, dá para chegar”, disse o engenheiro. “Sim.” “Você sabe que ele é meio banana, né?” “Sim.” “Mas ele tem mais seguidores que você no TikTok…” “Sim.”

Russell parou na volta 46 e Bortoleto subiu para quinto. Hülkenberg fizera sua segunda parada algumas voltas antes. A corrida se estabilizou. Piastri deu uma escapadinha e Norris voltou a abrir mais 4s na volta 50. A segunda janela de pit stops estava aberta. Bortoleto parou, colocou pneus duros e voltou em décimo. Norris fez sua última parada na volta 53, foi para pneus médios e ficou esperando Piastri parar também, para retomar a liderança. O que aconteceu na volta seguinte, em estratégia idêntica: pneus médios para o australiano. Na volta à pista, ele quase se enroscou em Colapinto, que era retardatário e não viu o McLaren #81 ao seu lado. Por pouco, muito pouco, não deu uma cagada federal. O argentino estava brigando com Tsunoda, ainda. E tomou 5s de punição.

Bortoleto, depois do segundo pit stop, voltou a remar forte e passou Hadjar na volta 56, com pneus mais novos que os do francês da Pode Parcelar em Cinco. Assumiu a oitava posição e à frente dele estavam Alonso e Lawson, que não iriam parar mais, mas sofreriam no fim com o desgaste de seus pneus. A diferença, porém, era grande, mais de 9s. A estratégia adotada pelo veterano da Aston Martin e por Lawson era arriscada, mas funcionava.

Piastri, Norris e Leclerc no pódio: monegasco leva mais um troféu

Faltando dez voltas, Piastri voltou a insinuar uma briga fratricida. A diferença para Norris caiu para 2s5. Na volta 61, 1s8. Lando implorou pelo rádio: “Preciso de mais ritmo!”. Queria alguma orientação, saber se podia mexer em algum botão, acionar alguma manivela, fazer alguma coisa. Oscar, por sua vez, conversava freneticamente com seu engenheiro: “Sim”, dizia. A McLaren avisou ao líder da prova que havia um pequeno dano na sua asa dianteira. “Se vira aí, daqui não podemos fazer nada”, informou o time. Lando suspirou e seguiu.

Bortoleto, a três voltas do final, já tinha trucidado a desvantagem para Alonso. Seu ritmo era muito forte e na volta 67 a diferença para o espanhol caíra para 1s4. A ultrapassagem parecia inevitável. Mas não seria fácil. Na volta 68 eles chegaram a trocar posições, mas o espanhol prevaleceu, se agarrando à sétima posição como se fosse uma garrafa de Perrier gelada no deserto do Saara. E acabou ficando à frente do brasileiro. “Ele parecia que estava lutando pelo título mundial!”, espantou-se Gabriel. “Depois disse que ficou superfeliz por mim.”

Norris venceu com 2s6 de vantagem para Piastri. Leclerc, Hamilton, Russell, Lawson, Alonso, Bortoleto, Hülkenberg e Ocon ficaram nas dez primeiras posições. Menções honrosas para Lawson, que conseguiu seu melhor resultado na F-1, e para o alemão da Sauber, que largou em último e terminou nos pontos. Ao sair do carro, Lando mal comemorou. Foi para a balança se pesar e ali aconteceu o único choque físico do domingo com Piastri: uma ligeira cabeçada entre os dois, que se cumprimentaram friamente. Frieza que não se viu entre Alonso e Bortoleto. O espanhol foi até o carro do brasileiro e abraçou calorosamente o pupilo – é a empresa de marketing esportivo de Fernando faz a gestão da carreira de Gabriel.

No pódio, uma surpresa. Bernie Ecclestone, 94, entregou o troféu a Norris, que respeitosamente desceu do degrau mais alto para receber a medalha no pescoço. “Foi a primeira vez em mais de 70 anos que subi ao pódio”, falou o antigo dirigente. Bernie estará na semana que vem em Silverstone, prova que será marcada por mais comemorações dos 75 anos da F-1. O aniversário foi em 13 de maio, mas foi no circuito inglês que tudo começou, e por isso haverá festa. Festa, também, dos torcedores locais para Landinho. Depois do fiasco no Canadá, ele mostrou uma força mental que, confesso, desconhecia. E da qual duvidava. Foi uma reação inesperada. E muito, muito interessante.