
SÃO PAULO (das galáxias) – “Cacilda Becker!”, exclamaria meu avô. Eu era pequeno e não entendia direito esse “cacilda”, que é nome próprio e interjeição, e se buscarmos a origem etimológica certamente encontraremos algo no latim, germânico, árabe, quiçá no galego que deu origem ao português. Mas meu avô colocava o “Becker” junto, e até descobrir que era o nome de famosa atriz levou tempo, muito tempo, mas adotei, e sempre que me espanto com qualquer coisa homenageio meu avô: “Cacilda Becker!”, digo.
Cacilda Becker, essa pole do Max Verstappen hoje em Silverstone…
O cara desbancou os favoritos da McLaren e da Ferrari e brindou o público com mais uma exibição de talento e precisão nos 5.891 m da pista inglesa. Foi muito bonito e, claro, surpreendente seu desempenho na classificação. Max não luta mais pelo título, segundo ele mesmo. Mas é capaz dessas coisas. Por isso é disputado a tapa por quem conta com a possibilidade de tê-lo no ano que vem. Leia-se Mercedes. Cada vez que o sujeito faz uma dessas, Toto Wolff se debruça sobre o orçamento do time e busca uma forma de arrancá-lo da Red Bull.
Oscar Piastri larga para o GP da Inglaterra ao seu lado na primeira fila amanhã, a partir das 11h. A segunda fila tem Lando Norris, companheiro do australiano na McLaren, e George Russell, da Mercedes – que aproveitou as temperaturas mais baixas do sábado nublado de Silverstone, 19°C, 25° no asfalto. Na terceira, a Ferrari, que ensaiou uma briga pela ponta, mas acabou ficando em quinto e sexto com Lewis Hamilton e Charles Leclerc. Gabriel Bortoleto, da Sauber, parte em 16º. “Carro tínhamos, mas os pilotos cometeram erros”, resmungou o chefe Frédéric Vasseur. “Preciso melhorar”, admitiu Leclerc, depois de disparar 200 xingamentos pelo rádio. A ele mesmo.
E vamos saber como foi essa classificação britânica, que faz prever uma boa prova para fechar a primeira metade da temporada no palco da corrida inaugural da história da categoria, 75 anos atrás. Ainda mais porque há uma possibilidade de chuva, e na chuva tudo é mais gostoso. Em corridas, claro. E para quem está assistindo, óbvio. Lá dentro, nem todos acham que a água é bem-vinda.
Mal saíram dos boxes no Q1, os primeiros pilotos começaram a avisar seus engenheiros, pelo rádio, que algumas gotas molhavam suas viseiras. Parte do céu estava azul. Outra parte, bem nublada. Silverstone é assim, mas no fim não choveu. Foram só gotículas.
Bortoleto foi o primeiro a ir para a pista, para experimentar um carro danificado no terceiro treino livre. O brasileiro, no final da sessão que aconteceu no começo da manhã, pelo horário de Taguatinga, pegou uma rajada de vento pela traseira, rodou e na hora em que o carro passou por uma zebra a suspensão dianteira esquerda se espatifou. O assoalho também quebrou. A equipe teve trabalho para refazer tudo, precisou instalar o assoalho antigo, mas deu tempo de colocar o carro em ordem. As metas do time, porém, foram recalculadas. Avançar ao Q2 era quase uma certeza com tudo nos conformes. Depois da rodada, passou a ser uma dúvida.
O lance mais espetaculoso do Q1 foi a rodada de Franco Colapinto na última curva. Foi parar na brita levantando poeira, mas não chegou a bater. Ainda assim, quando voltou à pista, a direção de prova resolveu dar bandeira vermelha. Isso porque o argentino não conseguiu levar o carro aos boxes. A coisa está feia para Franco. Seu emprego na Alpine está por um fio.
Faltavam 6min49s para o fim do segmento na hora da interrupção. Naquele momento, estariam eliminados Bortoleto, Esteban Ocon, Nico Hülkenberg, Colapinto e Pierre Gasly. Piastri era o primeiro com 1min26s002, com Verstappen em segundo e Fernando Alonso em terceiro. Mas tinha água para passar debaixo das passarelas de Silverstone, ainda.
Abertos os boxes, foi todo mundo rapidinho para a pista porque, afinal, poderia chover a qualquer momento. Ou não. “Alguns pingos no pit-lane”, veio a informação do rádio de Piastri. “Quem está aí? Quem está nesse carro?”, gritou seu engenheiro, desesperado, estranhando o longo pronunciamento. “Sim”, respondeu Oscar. “Ah, é você mesmo, ufa”, disse o rapaz, aliviado.
A pista estava mais escorregadia, de acordo com os testemunhos de alguns pilotos. Hamilton, por exemplo, foi taxativo: “Não está igual, não”. Mesmo assim, muitos pilotos melhoraram seus tempos. Gabriel foi um deles, subindo para a 11ª posição quando fechou sua volta. Naquela altura, estaria bem melhor que a encomenda. Mas os tempos iam caindo. Só Hamilton, mesmo, reclamou do asfalto. E foi da boca pra fora, como se diz. Na pista, até pediu para fazer mais uma volta. Mas a Ferrari avisou que ele não tinha combustível.
O sol voltou a aparecer em alguns trechos do circuito e quem estava na pista no final do Q1 se deu bem. Imaginem, Oliver Bearman fez o terceiro tempo e a Haas ainda espetou Ocon em sétimo. Alexander Albon, da Williams, foi o quarto. Seu companheiro Carlos Sainz, o oitavo. Alonso, da Aston Martin, fechou a primeira parte da classificação em quinto. A McLaren ficou com Piastri em segundo e Norris em sexto. O líder: Verstappen, com 1min25s886. Uma salada mista. E, na degola, sucumbiram Liam Lawson, Bortoleto, Lance Stroll, Hülkenberg e Colapinto. Não deu para a dupla da Sauber, com Gabriel em 17º e Hulk em 19º. Pior que a encomenda, no caso.
Do primeiro ao 19º colocado no Q1, a diferença foi de apenas 0s688. Hoje, sim, alguém poderia exaltar o equilíbrio da F-1 como nunca antes na história desta categoria! Num traçado longo, a pequena distância registrada na folha de tempos chamou mesmo a atenção. Ao menos no Q1, fase da classificação em que nem todo mundo dá tudo de si, nem todo mundo usa pneus à farta, nem todo mundo está com os motores no modo de potência máxima.
O Q2 começou com Verstappen fazendo 1min25s316, e na sequência Piastri fechou sua volta exatamente com o mesmo tempo. É raro, mas acontece sempre. Depois veio Norris com 1min25s231, 0s085 melhor que os dois. Os últimos minutos foram tensos para a Ferrari, que estava com seus dois carros fora do Q3 quando todos saíram para as últimas tentativas. Mas, no fim, passaram com tranquilidade e estilo: Hamilton em primeiro, 1min25s084, Leclerc em segundo a 0s049 dele. Uau. Norris, Verstappen, Piastri, Bearman (de novo!), Alonso, Kimi Antonelli, Russell e um milagreiro Gasly passaram de fase. Pereceram, como numa prova de “Round 6”, Sainz, Yuki Tsunoda, Isack Hadjar, Albon e Ocon. Todos fuzilados pelo cronômetro.
Com o sol aparecendo timidamente aqui e ali e nada de chuva, o Q3 começou com carros de sete equipes diferentes brigando pelas dez primeiras posições no grid. Williams, Sauber e Cancelaram Meu Cartão Posso Pagar com Pix? foram os times alijados da disputa. A primeira leva de voltas rápidas teve em Piastri o primeiro a baixar de 1min25s: fez 1min24s995. E foi o único, também. Hamilton fechou uma volta a 0s135 dele, com Norris, Verstappen e Leclerc nas cinco primeiras posições. A diferença entre eles era de 0s297. Russell, o sexto, aparecia bem distante, a 0s648 do líder provisório.
E foram todos, então, à luta para suas segundas voltas rápidas. Piastri não melhorou seu tempo. Norris, sim. Mas não superou o companheiro. Hamilton, tampouco. Nem Leclerc. E quem veio para a pole?
Max Emilian Verstappen.
Desculpem, mas… puta que pariu. Ou, como diria meu avô, que falava muitos palavrões, Cacilda Becker!
O cara virou uma volta em 1min24s892, um espetáculo de perfeição e velocidade. Quebrou as bancas de apostas, destronou os favoritos, pisoteou a McLaren e a Ferrari, voltou à pole depois de dois meses e cinco corridas de jejum – a última tinha sido no começo de maio em Miami. Foi 0s103 mais rápido que Oscar. A diferença do primeiro ao sexto colocado no grid, Leclerc, foi diminuta, 0s229. Ninguém, em resumo, foi mal. É que Verstappen foi bem demais, mesmo.
Pela ordem, depois de Max, Piastri, Lando, George, Lewis e Chaleclé, vieram Antonelli, Bearman, Alonso e Gasly nas dez primeiras colocações. Mas dois deles estarão mais atrás no grid amanhã. Kimi cai de sétimo para décimo, punido com três posições por ter causado o acidente com Verstappen na Áustria. E Ollie despenca de oitavo para 18º, punido com dez posições porque no terceiro treino livre entrou nos boxes que nem uma vaca louca, na hora de frear travou as rodas traseiras e bateu o carro. Um exagero, o pênalti, mas é o que é.
Verstappen tem 44 poles na carreira agora, quatro delas neste ano, igualando a marca de Sebastian Vettel na Red Bull – o maior “poleman” da história do time. Nas últimas 66 corridas, incluindo as Sprints nesse período, o holandês se classificou na frente do companheiro de equipe em 65 delas.
Vai ganhar amanhã? A prudência não deve descartar essa possibilidade, tratando-se do holandês. Seu carro não é o melhor do mundo – antes, tem sido esculhambado pública e constantemente pelo próprio piloto neste ano; no último treino livre, hoje, o engenheiro pediu desculpas pela comunicação errática, alegando defeito no rádio, e ouviu dele um “ainda bem, você não gostaria de ouvir o que tenho a dizer”. A McLaren segue favorita, a Mercedes pode surpreender com o bom ritmo de corrida de Russell, até a Ferrari tem chances de fazer alguma coisa — Hamilton vai ao pódio em Silverstone ininterruptamente desde 2014, e já venceu nove vezes no circuito, um recorde.
Mas é o Verstappen, e é a Red Bull, capaz de mudar o carro radicalmente de um dia para o outro, a ponto de fazer a pole numa pista velocíssima como a de Silverstone. Então, se ele vencer, que ninguém diga “Cacilda Becker!” na bandeirada.