A IMAGEM DA CORRIDA
SÃO PAULO (é alemão, não desiste nunca…) – Nico Hülkenberg foi o grande personagem do GP da Inglaterra, ainda que a corrida tenha sido vencida pelo neo-ídolo Lando Norris correndo em casa. Seu terceiro lugar ofuscou a vitória do jovem mclariano. Vi de perto muitas vitórias britânicas em Silverstone. O público vai ao delírio. Foi assim com Nigel Mansell, Johnny Herbert, Damon Hill, Lewis Hamilton — para ficar nos mais recentes e excluindo David Coulthard, que é escocês. Só que, desta vez, a festa foi para um alemão.
Aliás, notei, como muitos, a frieza da dupla da McLaren com o veterano da Sauber no pódio. Foi praticamente ignorado pelos dois “enzos”. Nada parecido com a festa feita para Jacques Villeneuve na conquista do título de 1997 em Jerez, ou para a vitória de Rubens Barrichello na Alemanha em 2000, ou mesmo para o controverso Pastor Madonado na Espanha em 2012. Seus colegas ficaram genuinamente felizes por eles. As fotos aí embaixo não me deixam mentir.
Azar deles, Norris e Oscar Piastri. Quem fiquem emburrados à vontade. Muito mais bonito foi ver a recepção de Gabriel Bortoleto ainda no Parque Fechado, a comemoração de Max Verstappen de dentro do carro, socando o ar ao lado de Nico, a gentileza da Mercedes que mandou duas garrafas de champanhe para o motorhome da Sauber, que não tinha nem uma Sidra Cereser para comemorar.
Enquanto isso, na salinha pré-pódio, Norris perguntou ao piloto do time suíço: “Como você fez isso?”. Ele poderia ter dado uma resposta atravessada. Mas, simpático, ficou na dele.
Abaixo, mais imagens da festa de Hulk, da Sauber e da F-1 inteira para o cara que levou 15 anos para chegar ao pódio e disputou nada menos do que 239 GPs até chegar lá. E para a equipe que desde o GP do Japão de 2012, terceiro com Kamui Kobayashi, não levava nada para sua sala de troféus. Com a conquista de Hülk, agora o piloto com mais GPs disputados sem ganhar um troféu é outro alemão, Adrian Sutil, com 128 corridas entre 2007 e 2014. Dos que estão em atividade, Yuki Tsunoda, com 99 largadas, é quem tem mais corridas no currículo sem chegar ao pódio.
Essa corrida teve muita coisa, e receio que terei de recorrer às infames caixinhas mais abaixo para não esquecer de nada. Mas, antes delas, melhor atualizar o campeonato depois de 12 etapas, metade do campeonato. Norris se aproximou bem de Piastri, depois da quarta vitória no ano e segunda seguida. No placar de triunfos, o australiano ainda está na frente, 5 x 4. A diferença de pontos agora é de apenas oito. Verstappen se distanciou um pouco de George Russell, que foi mal e terminou em décimo. E Hulk entrou no top-10, uma proeza inimaginável quando começou a temporada.
Entre as equipes, a lanterna agora está com a Alpine, apesar das boas atuações de Pierre Gasly, sexto colocado no domingo — são dele os 19 pontos do time neste ano. A Aston Martin, com sua primeira corrida levando os dois pilotos aos pontos, colou na Peça Seu Cartão Apontando Para o QR Code.
Detalhe que não deve ser desprezado. Desde o GP da Espanha, quando apresentou seu pacote de atualizações, a Sauber marcou 35 pontos em quatro corridas. Só perde para McLaren (153), Ferrari (80) e Mercedes (63). A Red Bull, sim, a Red Bull, fez 29. Williams, com cinco, e Haas, com três, foram as equipes com pior desempenho nesse período.
O NÚMERO DA INGLATERRA
12
…corridas seguidas no pódio em Silverstone. Essa foi a marca da qual Lewis Hamilton se despediu domingo, com a quarta colocação na prova. De 2014 até o ano passado, o inglês levou um troféu em todos os GPs disputados no circuito — foram dois em 2020, ano da pandemia. Antes de abrir essa série, Lewis já tinha conquistado outros três, de 2007, 2008 e 2010. Ninguém foi ao pódio mais vezes numa única pista que o piloto da Ferrari.
BOM MOMENTO – A McLaren bateu nas 54 dobradinhas em sua história, e só perde nessas estatísticas para Ferrari (87) e Mercedes (60). Foi a quinta no ano, algo que não conseguia desde 1998. O ano com mais dobradinhas do time inglês foi 1988: dez, com a dupla Senna-Prost. Já são nove vitórias neste ano, melhor desempenho desde 2005, quando a equipe venceu dez vezes com Montoya e Raikkonen.
MAU MOMENTO – Apesar do 1-2, nem tudo foram flores para a McLaren em Silverstone. Depois da punição por frear bruscamente à frente do safety-car, Piastri sugeriu que, como a equipe também achou injustos os 10s, a posição lhe fosse devolvida. Mas Norris, que assumiu a ponta, não tinha nada a ver com aquilo. E, pelo rádio, o time informou ao australiano que nada seria feito. Depois da corrida, Oscar admitiu que seria “uma injustiça” com o companheiro. “Lando não fez nada de errado”, reconheceu.
A FRASE DE SILVERSTONE
“Se eu disser alguma coisa, vou acabar sendo suspenso por um ano.”
Oscar Piastri
Aí em cima estão alguns trechos dos diálogos de Piastri com a equipe. No fim, fica conformado com o segundo lugar e diz: “Pelo menos Hülkenberg se deu bem”. Depois da corrida, até Verstappen estranhou a punição ao adversário. “Já aconteceu comigo algumas vezes. Acho estranho que, de repente, Oscar é o primeiro a receber dez segundos por isso”, falou o holandês, que estava atrás dele quando houve a tal freada. Foi na segunda entrada do safety-car. Na hora, Max reclamou. Como todos os pilotos reclamam. E todos fazem a mesma coisa.
ALEMANHA, ENFIM – O pódio de Hülkenberg foi o primeiro de um piloto alemão desde o segundo lugar de Sebastian Vettel no GP do Azerbaijão de 2021. Ele corria pela Aston Martin. Foi seu único troféu pela equipe inglesa. E o último de sua carreira.
NOVATOS X VETERANOS – Os três pilotos mais velhos do grid terminaram o GP da Inglaterra nos pontos: Hulk, 37, Hamilton, 40, e Alonso, 43. Dos seis estreantes de 2025 (considerando “estreantes” os que fazem suas primeiras temporadas completas), cinco sucumbiram. Franco Colapinto nem largou com a Alpine. Bortoleto rodou no começo. Isack Hadjar bateu em Kimi Antonelli e os dois ficaram fora da prova. Liam Lawson bateu no início. O único que terminou a prova, da molecada, foi Oliver Bearman. Em 11º. Os velhinhos lavaram a égua em Silverstone.
MINHA FILHA GOSTA – Notaram que os troféus entregues aos três primeiros e à equipe vencedora eram de Lego? Estão na foto da direita aí em cima. O preto é o que coube à McLaren. Os demais, aos pilotos. Na primeira foto no alto, porém, Norris ergue a taça original do GP da Inglaterra, que é de metal e não fica com ele. Pertence ao BRDC, British Racing Drivers Club. O que os ganhadores levam para casa são réplicas. A deste ano, feita com as pequenas peças plásticas. Hulk nem ligou. Piastri foi tirar uma onda (“Como se sente levando um troféu que pode ser desmontado?”, perguntou, meio sacana) e levou uma resposta: “Pelo menos minha filha vai poder brincar com ele”.
BOICOTE – É o que dizem os argentinos, torcedores e jornalistas. Colapinto está sendo sabotado pela Alpine porque Toto Wolff quer empurrar Valtteri Bottas para o time. Ele é empresário do piloto e, como se sabe, a equipe francesa vai usar motores Mercedes no ano que vem. Está feita a conexão. Além do mais, seu chefe é Flavio Briatore, conhecido por ser um canalha sem escrúpulos que não pensaria duas vezes para mandá-lo embora se a troca for benéfica para ele. Tem gente que garante que a Alpine não arrumou o carro de Franco de propósito depois da batida no sábado. Por isso o câmbio quebrou no domingo antes mesmo de ele sair dos boxes. Quando deixou o cockpit, Colapinto não ganhou nem um tapinha nas costas dos mecânicos. Seus dias parecem contados no time. E, dependendo de como for sua saída, talvez até na F-1.
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS… da Aston Martin e de Pierre Gasly. Vamos abrir uma exceção hoje para dar nosso prêmio a dois vencedores. A equipe inglesa chegou aos pontos com seus dois pilotos pela primeira vez no ano. Lance Stroll, especialmente, fez uma bela corrida, largando lá atrás e terminando em sétimo. É bom de chuva, o menino. Que, ainda assim, reclamou: “Nunca pilotei um carro tão merda quando este”, falou. Fernando Alonso foi o nono. Já Gasly merece palmas porque tem um carro ruim de uma equipe caótica e, mesmo assim, se vira e pontua. “Briguei com gente que nunca vejo na pista, como Max e Lewis. Foi divertido”, disse.
NÃO GOSTAMOS… da Mercedes, que marcou um mísero pontinho com Russell na décima colocação. Seus dois pilotos colocaram pneus slick no início — o inglês antes da largada, Antonelli na terceira volta. A pista estava molhada. “Cometemos muitos erros. Depois da primeira parada, foi tudo de mal a pior. E ainda escolhemos os pneus errados [duros]”, admitiu o chefe Toto Wolff. “Kimi foi atingido e não teve culpa, mas não estaria lá atrás se tivéssemos tomado as decisões certas. Não podemos repetir esses erros.”
