SÃO PAULO (sorry for the delay) – Oscar Piastri venceu o GP da Bélgica e ampliou sua liderança no Mundial para 16 pontos em mais uma dobradinha da McLaren em 2025, a sexta no ano. Lando Norris, que largara na pole-position, tomou um passão do companheiro na primeira volta da corrida e não conseguiu reverter o infortúnio. A prova começou com quase uma hora e meia de atraso (uma hora e vinte, Reginato, seu filho da puta, é QUASE UMA HORA E MEIA) por causa da chuva que ensopou Spa-Francorchamps desde as primeiras horas do domingo. No fim, mais de dois terços da 13ª etapa do campeonato foram percorridos com o asfalto já seco. Charles Leclerc, da Ferrari, completou o pódio. Gabriel Bortoleto chegou em nono e fez pontos pela segunda vez na temporada.
Quando o grid foi montado na hora prevista para a largada, quatro pilotos alinharam dentro dos boxes: Carlos Sainz, Lewis Hamilton, Kimi Antonelli e Fernando Alonso. Todos tinham feito classificações tristonhas e decidiram mexer no acerto de seus carros para pista molhada-molhada. Alonso até brincou. “Pensei que seria o único a fazer isso, quando vi tinha um monte de carro ali”, falou. “Até nisso sou azarado.”
Com água por todos os lados, a volta de apresentação teve o safety-car puxando o pelotão para avaliar as condições da pista. Antes de completar meia volta a direção de prova suspendeu a largada. A visibilidade era nula. Foi todo mundo para o grid torcer para o asfalto secar, o que poderia demorar bastante. Não chovia, mas a temperatura baixa, 17°C, e o circuito encharcado faziam prever uma longa espera. Só um piloto reclamou do adiamento da largada. Max Verstappen, pelo rádio, disse que era só dar umas três ou quatro voltas atrás do safety-car que a água escoaria. “Agora vai chover forte e vamos ficar umas três horas aqui sem fazer nada”, resmungou. “É um saco, isso.”
A região estava cercada por nuvens negras ameaçadoras. Abracurcix morreria de medo de o céu desabar sobre sua cabeça, mais ainda depois do primeiro relatório da meteorologia: chuva forte em nove minutos. Fujam para as colinas! Mas também vai chover nas colinas! Fujam para o Nordeste, então!
E, de fato, depois dos nove minutos previstos o céu desabou sobre as cabeças de todos em Spa, Francorchamps & cercanias. Foi rápido, até, mas molhou mais ainda tudo aquilo que já estava molhado. Não havia muito o que fazer. Naquela hora, tocou o telefone de Toto Wolff. Era dona Veronica. “Nem pense em deixar meu filho sair nessa chuva!” O chefe da Mercedes, então, mandou alguém procurar Antonelli, que foi encontrado chutando poças atrás dos boxes com dois amiguinhos.
Por volta das 11h de Ceilândia, uma hora depois do previsto para o início da prova, as câmeras de TV flagraram – o termo é esse mesmo, um flagrante – algumas frestas entre as nuvens com céu azul e, oh!, sol. Foi a senha para mandar o safety-car de novo à pista para ver se daria para correr. E o diagnóstico foi: dá. A largada, então, foi marcada para as 16h20 locais, 11h20 no Gama.
Nas arquibancadas, belgicanos (adoro escrever “belgicano”; então, Reginato, seu filho da puta, não adianta mandar carta para o jornal) tiravam suas camisetas e passavam protetor solar. Algumas cadeiras de praia foram abertas aqui e ali e creio ter visto três banhistas jogando altinha, esporte que os cariocas querem ver transformado em modalidade olímpica. Os pilotos foram avisados que sairiam atrás do safety-car de novo, por pelo menos duas voltas. Ou mais, se a direção de prova achasse necessário.
E assim foi. Em fila indiana, todos deixaram os boxes e foram encarar o spray que já é um clássico da terra de Tintim, o belgicano mais famoso da história, só rivalizando com Jean-Claude Van Damme. As voltas já estavam contando.
Parte da pista seguia bem molhada, especialmente no complexo Eau Rouge-Radillon-Kemmel. Do outro lado, um sol tímido – “insuportável”, segundo alguns belgicanos – ajudava a secar o asfalto. “Vai secar rápido”, alertou Hamilton, na rabeira do pelotão. As luzes do safety-car foram apagadas no meio da quarta volta. A largada seria lançada, com os carros em movimento. E, finalmente, começou o GP da Bélgica.
Piastri, decidido, foi para cima de Norris no final da reta depois da Eau Rouge e não quis nem saber de gentileza com o companheiro de equipe. Passou o pole sem dó nem piedade. Assumiu a liderança e se mandou. Não que tenha desaparecido no horizonte. Lando se aprumou e decidiu que iria lutar pelo que tinha perdido. Ficou perto de Oscar para aproveitar qualquer eventualidade. Mais atrás, George Russell ganhou a posição de Alexander Albon. E Max Verstappen passou a chargear Leclerc.
(“Chargear”, Reginato, seu filho da puta, era usado pelos locutores de futebol da antiguidade, e se você nunca entendeu o que queria dizer, é porque você é uma besta, Reginato.)
Nas primeiras voltas da prova, quem mais se divertia era Hamilton. Passou Sainz, Franco Colapinto, Nico Hülkenberg e Pierre Gasly na mesma volta, subindo para 13º na décima passagem. Verstappen, que seguia chargeando Leclerc, fez o primeiro ataque nessa mesma volta, a 10ª, e quase passou o monegasco na abertura da 11ª. Chaleclé reclamou que seus pneus intermediários já estavam em petição de miséria, porque metade da pista estava seca. Mas os de Max não estavam em condição muito melhor.
E foi por isso, e não por qualquer outro motivo, que na volta 12 Hamilton foi para os boxes e colocou pneus slick médios, num raro acerto estratégico dele e da Ferrari neste ano. Hülkenberg, Gasly e Alonso fizeram o mesmo. A turma do fundão não tinha muito a perder e assumiu o papel de cobaia. Piastri parou na sequência e Leclerc, idem. Então todo mundo resolveu ir para os boxes. Que se virassem onde a pista estivesse úmida. Norris assumiu a liderança e iria tentar voltar de sua troca à frente do companheiro. “Acelera, Oscar, senão ele te passa e você fica chupando o dedo!”, ordenou o rádio. “Sim”, respondeu o falante piloto papaia.
Lando fez seu pit stop e colocou pneus duros, para ir até o final sem mais trocas e apostando numa segunda parada do líder do campeonato — que acabaria não acontecendo. Não conseguiu voltar em primeiro, porém. Piastri retomou a ponta, seguido pelo parceiro. Depois deles, a uma enorme distância, vinham Leclerc, Verstappen, Russell, Albon, Hamilton – fazendo uma bela corrida –, Liam Lawson, Hülkenberg e Bortoleto nas dez primeiras posições. Na 15ª volta, não sobrava mais nenhum pneu intermediário na pista.
Piastri rapidamente abriu mais de 9s de vantagem sobre Norris, pela diferença dos pneus – médios ligeiros x duros lerdos. O sol brilhava sobre Spa, Francorchamps & cercanias e não havia mais perspectiva de chuva, sei lá, pelas próximas duas horas. Pelo rádio, a McLaren avisou Norris que Piastri também tentaria ir até o fim sem uma nova troca. Antes, o engenheiro perguntara ao australiano se dava para fazer isso. “Sim”, respondeu. “Mas vai acabar essa borracha, você tá sabendo, né?” “Sim.” “Não vai nem pro pódio.” “Sim.”
Na volta 20, a Sauber pediu a Hülkenberg para deixar Bortoleto passar. O brasileiro estava mais rápido e assumiu a nona posição. Ele mesmo tinha sugerido a troca pouco antes, percebendo que tinha mais condições de atacar o oitavo, Lawson. O que, no caso, acabou não acontecendo.
A diferença entre Piastri e Norris se estabilizou na casa dos 8s na altura da 21ª volta, quase metade da corrida. O engenheiro de Piastri continuava falando com seu piloto sem parar. “Você decide aí se quer parar de novo, tá ok?” “Sim.” “Se não parar o Lando vai ganhar e vai ser campeão.” “Sim.” “Tá sabendo que o Lando andou mandando mensagem pra sua namorada?” “Sim.” Nessa hora, o engenheiro desligou o rádio e resmungou: “Corno”.
Com a pista toda seca, o GP belgicano ficou parecido com a Sprint belgicana da véspera: chato. As ultrapassagens se tornaram mais difíceis e as distâncias entre os litigantes não se alteravam muito. Bortoleto, depois de passar o companheiro, não conseguia se aproximar de Lawson o bastante para ameaçar o neozelandês da Pix é Melhor que Visa Chupa Trump. A diferença não chegava a 2s, mas não caía para menos de 1s, o que permitiria ao osasquense abrir a asa móvel.
Na volta 30, Colapinto e Alonso pararam de novo. Depois veio Antonelli. Não se tratava, necessariamente, de um aviso de que uma segunda parada seria necessária para todo mundo. Era, sim, a turma do fundão, de novo, disposta a tentar alguma coisa para ver se funcionava. Perdido por dez, perdido por mil. A galera da ponta, porém, nem esboçava movimento parecido.
Na volta 33, Hulk parou e colocou pneus novos, também. Caiu para 15º, saindo dos pontos. No rádio, a McLaren voltou a conversar com Piastri. “Olha aqui, agora já era, vai até o fim com esse pneu mesmo e não enche o saco. Não vai reclamar depois se der merda.” “Sim.”
A corrida se arrastou até o final sem mais novidades, com Piastri, Norris, Leclerc, Verstappen, Russell, Albon, Hamilton, Lawson, Bortoleto e Gasly nas dez primeiras posições. Foi a primeira dobradinha da McLaren na Bélgica desde 1999. Naquela ocasião, com David Coulthard e Mika Hakkinen. Piastri venceu pela sexta vez no ano, oitava na carreira. Aliás, uma curiosidade: os três que foram ao pódio hoje têm oito vitórias na F-1. Não quer dizer nada, é apenas uma curiosidade. Mas ela vai além: sabe quantas corridas Jacky Ickx, que deu a bandeirada para Piastri, ganhou na vida? Oito, também.
(Reginato, seu filho da puta, eu sei que Ickx ganhou mais do que oito corridas na puta da vida. “Vida”, nesse caso, é Fórmula 1. Se você mandar mais uma carta, Reginato, seu filho da puta, eu vou arrebentar sua cara.)
Resumindo, o domingo belgicano foi divertido enquanto choveu. Spa é assim.
