Blog do Flavio Gomes
F-1

FAZ TODO SENTIDO

SÃO PAULO (sem etarismo!) – Sergio Pérez, mexicano, 35 anos completados em janeiro. Valtteri Bottas, finlandês, que faz 36 daqui a dois dias. O primeiro disputou 281 GPs. Estreou em 2011 pela Sauber e passou por McLaren, Force India (depois Racing Point) e Red Bull. Fez três poles, ganhou seis corridas, subiu ao pódio 39 […]

SÃO PAULO (sem etarismo!) – Sergio Pérez, mexicano, 35 anos completados em janeiro. Valtteri Bottas, finlandês, que faz 36 daqui a dois dias. O primeiro disputou 281 GPs. Estreou em 2011 pela Sauber e passou por McLaren, Force India (depois Racing Point) e Red Bull. Fez três poles, ganhou seis corridas, subiu ao pódio 39 vezes e foi vice-campeão uma vez, em 2023. O segundo começou a carreira na F-1 em 2013 na Williams. Foi para a Mercedes em 2017 e por lá disputou cinco Mundiais até 2021. Depois pilotou para a Sauber até o ano passado (como Alfa Romeo em 2022 e 2023). Tem 246 GPs no currículo, com dez vitórias, 20 poles, 67 troféus e dois vice-campeonatos (2019 e 2020).

Esses dois foram confirmados oficialmente hoje pela manhã como a dupla da Cadillac para 2026. A nova equipe da F-1 fez o anúncio com vídeos e postagens em suas redes sociais. Sem causar nenhuma grande surpresa, diga-se. A imprensa europeia (estamos falando de jornalistas profissionais, não de “produtores de conteúdo” em redes sociais que copiam notícias apuradas por outros e publicam como se fossem suas) já vinha informando que os contratos de ambos estavam assinados, e que o anúncio oficial seria feito antes do GP da Holanda. Batata.

Faz todo o sentido ter esses dois rapazes-quase-senhores para dar o pontapé inicial na aventura da F-1. Ainda que a categoria, nos últimos anos, venha abrindo espaço para pilotos cada vez mais novos, raramente acima de 20 anos de idade, recorrer a veteranos era mesmo o melhor a fazer no caso da Cadillac. Essa equipe nasce de uma folha em branco. Vai precisar aprender rigorosamente tudo, e a experiência de Bottas e Pérez vai ajudar a acelerar esse aprendizado. Ambos correram por um bom tempo, e recentemente, nas duas equipes que venceram todos os campeonatos de pilotos desde 2010 — Red Bull e Mercedes. Um novato poderia chegar com ímpeto e talento (que os dois também possuem), mas teria pouco a acrescentar no processo de crescimento e estabelecimento do time. Além do mais, não tem nenhum novato tão promissor por aí dando sopa.

“Ah, e o Drugo?”, gritarão os neo-torcedores pachequinhos de internet. O “Drugo” não é um novato promissor. É um piloto que está há três anos sem correr e tem, como único predicado visível neste momento, o fato de estar dentro de uma equipe de F-1 e contar com alguma experiência na vivência de finais de semana de GP, em simuladores e reuniões com engenheiros. Mas nunca disputou um GP. Se a Cadillac optasse por uma dupla mista, um veterano e um jovem inexperiente, seu nome faria mais sentido do que o de qualquer outro estreante — justamente pelo tempo de trabalho na Aston Martin desde 2023. Mas a opção foi por dois pilotos rodados. E não tem nada de errado nisso.

Aliás, não é a primeira vez que uma equipe estreante recorre à experiência. Basta lembrar, por exemplo, da BrawnGP. Em 2009, um brasileiro foi beneficiário de sua milhagem para conseguir uma vaga num momento em que a aposentadoria já batia à sua porta. Foi a Rubens Barrichello que Ross Brawn recorreu para, ao lado de Jenson Button, igualmente calejado, para estabelecer seu novo time, montado sobre os escombros da Honda. O brasileiro venceu corridas e ganhou uma sobrevida na categoria por mais duas temporadas, na Williams, depois da venda do time para a Mercedes.

Já a Mercedes, sucessora da Brawn, começou sua nova vida em 2010 com Nico Rosberg, que já tinha quatro anos de F-1, e Michael Schumacher, que havia parado de correr no final de 2006. O heptacampeão voltou às pistas para ajudar o mesmo Ross Brawn — seu ex-chefe na Ferrari e escolhido para comandar a equipe recém-criada — e devolver à montadora alemã aquilo que ela lhe dera no início da carreira, em 1991, promovendo sua estreia com a compra de uma vaga na Jordan, aberta após a prisão do titular Bertrand Gachot. Michael correu em Spa, na prova seguinte estava na Benetton e o resto é história. Uma história que ele nunca esqueceu, daí a gratidão à Mercedes.

Schumacher foi importante na estruturação da equipe prateada, cujos frutos começaram a ser colhidos em 2012 com a primeira vitória de Rosberguinho e, depois, com a chegada de Lewis Hamilton em 2013. Na sequência veio a série de títulos e vitórias da mais longeva hegemonia já vista na F-1, com oito títulos de construtores e sete de pilotos entre 2014 e 2021.

A Cadillac vai conseguir a mesma coisa graças a Pérez e Bottas? Não, claro. Primeiro, porque eles não se comparam a Schumacher. Depois, porque é uma equipe que larga do zero absoluto. A Mercedes nasceu das costelas de times que já estavam funcionando havia anos, Honda e Brawn, o que facilitou as coisas. A Red Bull foi outra que passou a existir a partir do espólio de outras equipes, diferentemente da Cadillac. Quando surgiu, em 2005, montou sua estrutura sobre os restos da Jaguar, que por sua vez vinha da Stewart. Tinha fábrica, tecnologia, corpo técnico, funcionários. Mesmo assim, também foi atrás de alguém com calos nas mãos para dar o “start” em sua aventura como equipe própria e pilotar um de seus carros — no caso, David Coulthard.

Bottas e Pérez, em resumo, serão muito úteis. Não têm grandes ambições de vitórias e títulos, porque sabem que essas chances já passaram por suas mãos nos tempos de Mercedes e Red Bull. De quebra, carregam bons patrocinadores para reforçar o orçamento do novo time. Ao volante e fora dele, terão uma missão bem clara: construir uma equipe que dará seus primeiros passos num projeto de longo prazo que envolve uma das maiores montadoras do mundo, a GM, e uma marca de carros de luxo que de uns tempos para cá resolveu se meter com corridas. Talvez, no fundo, alimentem a esperança de algum milagre como foi a Brawn em 2009 — que disputou um único campeonato e ganhou. Afinal, em 2026 o regulamento é novo para todo mundo e ninguém sabe exatamente o que vai acontecer. Vai que…

Mas, ao mesmo tempo, sabem que milagres não são muito recorrentes na F-1. Neste primeiro momento, têm de ajudar o time norte-americano a fincar o pé no paddock. Há um longo caminho pela frente. E começar a percorrê-lo é a prioridade. Já dizia o camarada Mao: para toda longa caminhada é preciso dar o primeiro passo.

Bottas e Pérez sabem andar.

Dan Towriss, CEO da Cadillac na F-1

QUANDO ANDA? – Teoricamente, carro da Cadillac só anda no ano que vem, nas três sessões de pré-temporada em Barcelona e no Bahrein. Mas a equipe poderá usar um carro antigo da Ferrari para treinos diversos — pit stops, sistemas, operações. Isso porque motor e câmbio da equipe serão fornecidos por Maranello de 2026 a 2028. O motor GM/Cadillac está homologado para entrar na categoria apenas em 2029. É bom lembrar que a nova equipe nasceu alguns anos atrás com Michael Andretti, que teve sua inclusão no Mundial rejeitada pelos outros participantes. O ex-piloto americano acabou vendendo a operação à TWG Global, uma holding que também tem participações em times de futebol (Chelsea), beisebol (LA Dodgers), basquete (LA Lakers) e hóquei no gelo. A TWG Global pertence aos investidores Mark Walter e Thomas Tull, que para entrar na F-1 montaram a TWG Motorsports, que por sua vez assumiu o controle da Andretti Global. Dan Towriss, sócio de Walter em outros negócios, foi nomeado como CEO da TWG Motorsports. É um milionário com atuação principalmente no mercado de seguros. A Cadillac pagou US$ 450 milhões para ter sua participação aceita pelas outras dez equipes da F-1. Cada uma levou US$ 45 milhões como compensação pelas perdas futuras na divisão do bolo bilionário de receitas da categoria. Ele tinha dez fatias, agora tem 11.