SÃO PAULO (essa F-1…) – Ninguém entendeu direito o que aconteceu neste sábado em Hungaroring. Nem mesmo o piloto que fez a pole-position da 14ª etapa do Mundial: Charles Leclerc, da Ferrari. Ele não fazia uma pole desde o Azerbaijão no ano passado – um jejum de 20 corridas. Quando recebeu a informação pelo rádio de que tinha ficado em primeiro, mandou um “mamma mia!” como resposta.
O espanto se justifica. Ninguém imaginava que a McLaren não ficaria com a primeira fila para o GP da Hungria. Os carros papaia ficaram na frente em todas as sessões de treinos livres e também nas duas primeiras partes da classificação. Com folga. Foram os únicos a andar abaixo de 1min15s na pista húngara – no último treino livre e também no Q2. Mas, na hora H, acabaram batidos pelo improvável #16 vermelho. “Não entendo mais nada dessa F-1”, reconheceu o monegasco, que fez a 27ª pole de sua carreira.
Leclerc terá Oscar Piastri, o líder do campeonato, ao seu lado na primeira fila. Na segunda estarão Lando Norris, com o outro carro da McLaren, e George Russell, da Mercedes. O brasileiro Gabriel Bortoleto fez uma ótima classificação e larga em sétimo, sua melhor posição de grid na categoria. Foi a terceira vez que passou ao Q3 no ano – repetindo o que havia conseguido na Áustria (oitavo) e na Bélgica (décimo).
A classificação começou sob ameaça de chuva, depois de uma manhã e um início de tarde com sol e temperatura na casa dos 27°C. No meio da tarde o tempo deu uma fechada e nuvens escuras começaram a se aproximar da região do autódromo.
O melhor tempo do final de semana, até ali, era de Piastri no terceiro treino livre: 1min14s916. Norris fizera um tempo apenas 0s032 pior. A briga pela pole, teoricamente, estava restrita aos dois.
E assim foi na primeira bateria de voltas rápidas do Q1, com Piastri e Norris, nessa ordem, abrindo os trabalhos com 1-2, mas fazendo tempos longe do limite dos carros da McLaren: 1min15s554 para o australiano, com o inglês bem distante, a 0s373. Entre os dois, rapidamente, se intrometeram os dois carros da Mercedes: com Russell em segundo e Kimi Antonelli logo atrás dele.
Faltando 3min para o encerramento do primeiro segmento, Fernando Alonso surpreendeu todo mundo e pulou para primeiro, com 1min15s281. O espanhol, que acabou de completar 44 anos, venceu sua primeira corrida justamente na Hungria, em 2003, pela Renault. Na época, quatro dos pilotos titulares deste Mundial ainda nem tinham nascido: Oliver Bearman, Bortoleto, Antonelli e Isack Hadjar. Outros, como Piastri, Norris, Liam Lawson e Franco Colapinto, eram bebês de colo.
Piastri se encarregou de retomar a ponta logo depois com 1min15s211. A pista melhorou nos últimos minutos e os tempos foram caindo. Nessas condições, dois novatos se destacaram muito: Hadjar em terceiro e Bortoleto em sexto. O brasileiro mais ainda, considerando que seu companheiro de equipe, Nico Hülkenberg, empacou na penúltima posição, à frente apenas de Alexander Albon, o último colocado. Foram eliminados, junto com eles, Yuki Tsunoda, Pierre Gasly e Esteban Ocon. Max Verstappen foi o 11º. Piastri, Alonso, Hadjar, Norris e Leclerc ficaram nas cinco primeiras posições.
Quando começou o Q2, notou-se uma certa movimentação de capas e casacos nas arquibancadas. Começou a pingar fraquinho no lado oposto da reta dos boxes, onde há um parque aquático que sempre aparece nas transmissões da TV. Do outro lado, sol entre nuvens e nenhum sinal de chuva. Alonso fechou sua primeira volta em 1min15s395, confirmando o bom momento da Aston Martin na pista húngara e pulando para a ponta da tabela. Mas Norris virou em 1min14s890 na sequência, enfiando meio segundo no asturiano e cravando o melhor tempo do fim de semana. Piastri, logo depois, fez uma volta boa, também, 0s051 pior, apenas, que a do companheiro.
Capas e casacos foram recolhidos e a chuva não veio. Amanhã, segundo os serviços meteorológicos, deve chover, mas no período da manhã. A corrida começa às 15h locais (10h de Ceilândia).
Faltavam pouco mais de 4min para o fim do Q2 quando todos voltaram à pista. Tinha gente graúda fora dos dez primeiros, como Lewis Hamilton e Antonelli. Bortoleto também estaria eliminado, naquele momento. Ninguém podia sequer pensar em errar. Seria na conta do chá para todo mundo – exceto para os tranquilos pilotos papaia, soberanos lá na frente.
E foi tenso. Principalmente para Gabriel, que fez uma volta preciosa e passou ao Q3 novamente, na décima posição. Na turma da degola, Antonelli, Bearman, Hamilton, Carlos Sainz e Colapinto. Um vexame da Mercedes e da Ferrari. Não importam as condições, essas equipes têm a obrigação de levar seus dois carros ao Q3. Lewis não se conformava. “Toda hora… Toda hora…”, falou. Classificações têm sido uma pedra na sapatilha do inglês. Mas a coisa está mais complicada ainda nessa sua jornada em Maranello. Em entrevista à Sky britânica, Lewis disse que está se sentindo “completamente inútil”, que não tem nada de errado com a equipe (“é só ver quem está na pole”) e sugeriu uma solução para a Ferrari: “Trocar de piloto”.
Norris, Piastri, Lance Stroll, Russell, Alonso, Leclerc, Hadjar, Verstappen, Lawson e Bortoleto avançaram à fase final da classificação. Palmas para Aston Martin e Racing Bulls, com suas duplas entre os dez primeiros, e para a Sauber, que desde o GP da Espanha melhorou seu desempenho barbaramente, colocando seus pilotos em condições de lutar por pontos frequentemente – de Barcelona até Spa, foram cinco GPs seguidos na zona de pontuação.
Norris x Piastri, tudo indicava, seria o duelo pela pole no Q3. Primeiro round: Piastri 1min15s398, Norris 0s096 atrás. O resto lá atrás, cada um com seus problemas – como Stroll, que teve sua volta cancelada por exceder os limites da pista.
E foi Lance o primeiro a sair dos boxes para a segunda tentativa, desta vez bem-sucedida: terceiro tempo, a apenas 0s100 de Piastri. Alonso pulou para segundo, a 0s083 do australiano. OK, tinha um monte de gente para fazer volta, ainda, mas a Aston Martin estava toda orgulhosa dentro dos boxes – era o melhor fim de semana do time desde 2023, quando fez um campeonato bonito, cheio de pontos e pódios.
Norris, então, foi à luta para buscar pelo menos a primeira fila – naquele momento, era o terceiro colocado. Só que, de repente, Leclerc veio do nada e fez uma volta em 1min15s372, pulando para a primeira posição – um espanto, pois naquela hora, embora o tempo não fosse nada de tão espetacular, estava batendo a dupla da McLaren! E o choque foi ainda maior porque Piastri e Norris não conseguiram superar o monegasco, ainda que tivessem feito voltas bem melhores antes. Quando o rádio informou a Chaleclé que era o pole-position, nem ele acreditou. “O quê? Mamma mia!”, disse.
Na entrevista pós-classificação, o ferrarista foi sincero: “Não dá para entender nada nessa Fórmula 1. Foi difícil passar para o Q2 e difícil passar para o Q3. Então, eu sabia que tinha de fazer uma volta limpa para ficar em terceiro. Aí veio a pole. Não sei o que aconteceu”, falou. “Estou sem palavras.” Foi a primeira pole da equipe no ano.
Faltavam as explicações da McLaren, claro. Dominou todos os treinos sem ser ameaçada por ninguém, fez várias voltas abaixo de 1min15s em outras sessões, o que aconteceu, afinal? “O vento mudou muito”, falou Piastri. “Parece uma explicação meio patética culpar o vento, mas foi o que aconteceu e estou surpreso de ver como não conseguimos ser rápidos de novo. Não esperava ficar em segundo aqui para uma Ferrari.” Pareceu mesmo meio patética, a explicação. Norris, com um sorriso amarelo, falou mais ou menos a mesma coisa sobre o vento, mas recorreu à franqueza para acrescentar: “Não dá para reclamar, Charles fez um trabalho melhor, talvez tenha arriscado um pouco mais. Fizemos boas voltas, mas não foram boas o bastante.”
Leclerc, Piastri, Norris e Russell ficaram com as quatro primeiras posições. As diferenças entre eles foram mínimas. Oscar ficou a 0s026 de Leclerc. Lando, a 0s041. George, a 0s053. Depois vieram, pela ordem, Alonso, Stroll, Bortoleto, Verstappen, Lawson e Hadjar. A volta de Gabriel foi 0s353 pior que a de Leclerc e 0s003 melhor que a de Max, um de seus melhores amigos no grid. Um resultado excelente que coloca o brasileiro em plenas condições de pontuar na corrida de amanhã.
Claro que largar na pole na Hungria muda a perspectiva de qualquer piloto. Se Leclerc nem sonhava com uma vitória, agora pode. Precisa largar bem e manter a frieza durante 70 voltas, porque vai ter gente colada na sua caixa de câmbio o tempo todo. Há os pit stops, também, que permitem algum jogo estratégico. E a possibilidade de pista molhada.
Se a McLaren estivesse na pole, seria fácil fazer um prognóstico para essa corrida: sumiria na frente e pronto, seria só uma questão de escolher qual dos dois ganharia. Mas tem uma pedra no meio do caminho. Vermelha e inesperada. O que, quer saber?, salvou esse GP da Hungria.
