
SÃO PAULO (nos arrastando…) – Foi uma sexta-feira daquelas absolutamente normais, em Monza. Dois treinos livres, a Ferrari andando bem no primeiro – Lewis Hamilton e Charles Leclerc nas duas primeiras posições – e a McLaren colocando ordem nas coisas no segundo – Lando Norris com o melhor tempo do dia. Um dia de sol e calor, temperatura na casa dos 27°C, com 40°C no asfalto, arquibancadas longe de sua lotação.
Aqui já falemos do que de mais importante aconteceu nesta semana, a entrevista de Stefano Domenicali, CEO da F-1, aos jornalistas italianos. Bem resumidamente, o dirigente disse que a categoria pensa em mudanças drásticas para o futuro. Os treinos livres estão aborrecendo o “neotorcedor” que acha que o mundo começou em 2019, com a primeira temporada de “Drive to Survive” na Netflix. Sprints em todas as etapas, talvez. Segundo Domenicali, quando elas foram instituídas, em 2021, 18 dos 20 pilotos eram contra. Hoje, 18 são a favor.
Ainda: pesquisas de opinião com os “xóvens” que estão descobrindo a F-1 indicam que eles só assistem aos melhores momentos no YouTube e que não têm paciência para um GP inteiro. “As corridas podem estar longas demais”, falou. “Eles não aguentam ficar quase duas horas vendo.” E, por isso, está no radar a possibilidade de reduzir sua duração. Tudo para não irritar os “xóvens”, cujos cérebros atrofiados não suportam nada nas telinhas de seus celulares que durem mais de 15 segundos.
OK, treinos livres talvez possam ser repensados para oferecer algo mais ao público que vai aos autódromos às sextas-feiras, ou a quem assiste às atividades de um GP pela TV. Hoje há outras formas de se preparar e acertar um carro em simuladores e com o uso da tecnologia. Talvez três treinos por fim de semana sejam um pouco demais, ainda que corrida de carro, por ser um negócio caro, limite muito os treinamentos, diferentemente de outros esportes. Normal, mexer nisso. A F-1 evolui, ninguém é contra mudanças. Quanta coisa mudou desde 1950? Disso não se pode acusar a categoria, que atualiza suas regras o tempo todo, revê calendário, horários das provas, altera formatos de classificação e mais uma porção de coisas. Afinal, F-1 é tecnologia pura, e tecnologia não se breca.
Agora… Se render à ditadura das redes sociais e da falta de paciência dos “xóvens”? Não sei com quais dados sobre seu público trabalha a F-1. Se fazem pesquisas apenas nas redes sociais, lamento muito. Porque fui pesquisar o que se chama de pirâmide etária dos 8,2 bilhões de habitantes deste planeta infeliz, e os dados apontam uma relevância muito maior dos “velhos” do que dos “xóvens”. Do ponto de vista econômico, principalmente.
Os números acabam distorcidos pela composição etária de alguns países muito pobres na África e na Ásia, cuja expectativa de vida é bem mais baixa do que em nações mais desenvolvidas. Mas vá lá. 16,3% da população mundial tem entre 10 e 19 anos de idade. 15% têm entre 20 e 29 anos. Acima dos 30, são 52,6% das almas vagando pela Terra. E são 16% entre 0 e 9 anos de idade, petizada que não tem dinheiro para pagar streaming nem comprar bonés das equipes. Assim, os “velhos” acima de 30 batem os “xóvens” de 10 a 29 por 52,6% a 31,3%. E não estão todos morrendo.
Peguemos os números de um país como o Brasil. Somos 13,6% de 10 a 19 anos e 15% de 20 a 29. Total de 28,6% entre 10 e 29, contra 58,7% acima dos 30. De zero a nove, 12,7%. São dados oficiais da ONU, antes que me perguntem, baseados nos censos de cada país. Isso significa que, num país como o Brasil, a F-1 está preocupada com a falta de paciência de 13,6% dos guris e gurias que não aguentam corridas de uma hora e meia. Se incluirmos na conta os nepo babies de 20 a 29 com seus iPhones, nós “velhos” acima de 30 ainda ganhamos de 58,7% x 28,6%. E, de novo, não estamos mortos.
Assim, fecho fileiras com o que declarou Fernando Alonso sobre as diatribes de Domenicali: “Isso [a falta de paciência dos ‘xóvens’] não é um problema do esporte, é um problema da sociedade e da juventude”. Um jogo de futebol tem 90 minutos, gostem os “xóvens” ou não. Um filme no cinema, duas horas. Um show de música, outras tantas. Um livro tem muitas letrinhas e palavras. Uma trepada bem dada, meia hora do começo ao fim – desculpem o exemplo. Jovens, envelheçam. Obrigado, Nelson Rodrigues.
Voltemos à sexta-feira de Monza. Alguns errinhos, uns passeios na brita e o maior prejuízo para Kimi Antonelli. No segundo treino livre, com dez minutos a sessão teve de ser interrompida porque o italiano da Mercedes atolou na brita na segunda perna de Lesmo. O menino vive um inferno astral interminável desde Ímola. Em todas as etapas europeias do campeonato, até agora, o jovem Kimi só fez ponto na Hungria, com um décimo lugar. Isso depois de pontuar em cinco das seis primeiras etapas do campeonato. Nesse intervalo, desde o GP da Emilia-Romagna, foi ao pódio em uma corrida, no Canadá. Alguém precisa conversar com ele. Na última prova, na Holanda, foi punido depois de bater em Leclerc. Mas a Mercedes segue apoiando o garoto incondicionalmente. Em Zandvoort, Toto Wolff falou que quer ver seu pupilo pilotando de forma agressiva, em busca de todas as oportunidades possíveis. “Queremos um monstro!”, decretou o dirigente.
A bandeira vermelha durou pouco. Com os trabalhos retomados, a McLaren se mantinha em primeiro e segundo, com Norris na frente de Oscar Piastri. Mas os tempos caíam rapidamente, na medida em que a pista ia melhorando.
Norris entrou na casa de 1min19s na parte final da sessão, com 1min19s878. Carlos Sainz era o segundo, a 0s096 dele – a Williams, tradicionalmente, anda bem em Monza. Leclerc passou o espanhol logo depois, com um tempo apenas 0s083 pior que o do inglês da McLaren. A Ferrari, como sabemos, também costuma se virar quando corre em casa. Charlinho venceu a prova no ano passado. Antigamente diziam que a equipe italiana roubava nos treinos, andava abaixo do peso e com gasolina de foguete da NASA para garantir as manchetes dos jornais e chamar mais público para o autódromo. Pode até ser. Mas isso era antigamente, hoje ninguém trapaceia desse jeito porque os controles são muito rigorosos. Nem tem jornal, mais. Fica no folclore.
Ao fim e ao cabo, Norris fechou o dia na frente, com Leclerc a 0s083 dele e Sainz em terceiro. Piastri e Hamilton completaram a lista dos cinco primeiros. De Landinho a Liam Lawson, o 17º, todos andaram no mesmo segundo. Gabriel Bortoleto foi o 12º com a Sauber.
A outra notícia do dia foi o anúncio de Daniel Ricciardo de que se aposentou das pistas. Ontem, as redes sociais ficaram todas excitadinhas com uma foto que o australiano publicou ao lado de um carro da Ford, junto com o anúncio de que a montadora americana criou a divisão Ford Racing para cuidar de suas operações no automobilismo. Já veio um monte de gente, setorista de Instagram, dizer que Ricciardo poderia voltar à Red Bull, que terá motores Ford no ano que vem.
Ricciardo, na verdade, será embaixador da marca e não vai correr mais de nada. Deixa as pistas com um currículo de 257 GPs na F-1 por HRT, Toro Rosso, Red Bull, Renault, McLaren e AlphaTauri/VISA-qualquer-coisa. Conseguiu oito vitórias, três poles e 32 pódios numa carreira bonita, que começou promissora em 2011 e ficou meio errática quando resolveu deixar a Red Bull ao perceber que perdia espaço para Max Verstappen. Foram duas demissões antes de terminar temporadas na McLaren e na VISA-qualquer-coisa, a última delas no ano passado. Seu tempo passou. Fica a imagem de um cara que poderia ter sido mais do que foi, mas que sempre tratou a profissão com dignidade.
Amanhã tem mais treino livre às 7h30 e classificação às 11h. O GP da Itália, domingo, terá 53 voltas e começa às 10h de Ceilândia.