SÃO PAULO (é rapidinho!) – Max Verstappen fez hoje em Monza a volta mais rápida da história da F-1. Com o tempo de 1min18s792, o holandês da Red Bull conquistou a pole-position para o GP da Itália desbancando os favoritos da McLaren e os sonhadores da Ferrari – que depositavam suas esperanças no veloz Charles Leclerc, apenas, já que Lewis Hamilton chegou à 16ª etapa do Mundial carregando uma punição de cinco posições no grid por uma infração na Holanda.
É uma façanha e tanto. Max cravou a pole com uma média de velocidade de 264,682 km/h, superando os 264,363 km/h registrados por Hamilton na mesma pista em 2020, quando fez a pole para a corrida italiana pela Mercedes, com 1min18s887. Monza é o circuito mais veloz da F-1, e por isso todos esses recordes de velocidade acabam sendo estabelecidos por lá.
O segundo colocado no grid para a prova de amanhã é Lando Norris, da McLaren. Sua volta, 1min18s869, foi durante alguns segundos a mais rápida de todos os tempos, com média de 264,423 km/h. Até Max batê-la nos instantes finais da classificação para arrancar a fórceps, diante de adversários mais fortes, sua 45ª pole na carreira – tornando-se também o maior “poleman” da história da Red Bull, ao superar as 44 de Sebastian Vettel.
Os dois velocíssimos partem da primeira fila num GP da Itália que pode ser bem interessante, já que atrás deles estão dois carros com plenas condições de vencer a prova: Oscar Piastri, líder do campeonato com a McLaren, e o supracitado Leclerc. O monegasco ganhou a corrida no ano passado e, como se sabe, o time de Maranello sempre chega inflamado a sua etapa caseira, empurrado pelos torcedores, pela imprensa local e pelo papa, onde quer que ele tenha nascido.
O grid tem outras atrações. Na terceira fila, por exemplo, George Russell e Kimi Antonelli, dupla da Mercedes. O jovem italiano, finalmente, teve um dia produtivo e, se não fizer nenhuma bobagem, briga por coisa boa correndo em seu país e diante de seu público. Na quarta fila, criatura e criador: Gabriel Bortoleto, da Sauber, e Fernando Alonso, da Aston Martin. O brasileiro repete sua melhor posição de largada, sétimo, como na Hungria. Do lado dele, o veterano espanhol, que administra a carreira de Gabriel. OK, “criador & criatura” não é expressão que se aplica exatamente aos dois, Alonso não criou Bortoleto. Foi só para dar um ar literário à crônica. Fechando os dez primeiros, Yuki Tsunoda, da Red Bull, e Hamilton – que tinha feito o quinto tempo, mas larga em décimo por causa do pênalti também supracitado no primeiro parágrafo. Essa quinta fila não tem atração nenhuma.
A pole de Verstappen é histórica. Não porque foi inesperada, zebrinhas acontecem de vez em quando. E nem se pode dizer que tenha sido um resultado completamente fora de esquadro, longe disso. Foi sua quinta pole no ano (as outras foram obtidas em Suzuka, Jedá, Miami e Silverstone), mesmo numa temporada dominada por um time rival. Max consegue, graças ao seu talento acima da média, bater carros mais fortes de vez em quando. Pode não fazer milagre, mas incomoda. O “histórico”, aí, refere-se à média de velocidade mais alta já registrada na F-1. Pode ser um recorde de longa duração. Não se sabe se os carros da categoria no ano que vem serão mais rápidos. Dizem que sim, mas é melhor esperar para ver. Toto Wolff, outro dia, disse que eles vão chegar a 400 km/h – receio que tenha exagerado, ou falou qualquer coisa só para encerrar alguma entrevista chata.
Em todo caso, anotem de novo o número: 264,682 km/h. De média. Tem como jogar isso aí no bicho, ou na Loteria Federal? Ou usar 26, 46 e 82 numa cartelinha da Megasena? Ou daquele Viva Sorte, de um gordinho que usa uns tênis enormes na TV e, parece, está bilionário?
Vou pesquisar. Enquanto isso, vocês leem aí embaixo como foi a classificação para o GP da Itália, realizada num sábado ensolarado e quente na Lombardia, com 26°C de temperatura onde os seres humanos respiram e 44°C no asfalto, onde pisam.
No Q1, Russell e Antonelli foram para a pista com pneus médios, com a Mercedes surpreendendo os analistas de borracha. De cara o inglês entrou na casa de 1min19s, uma marca interessante – afinal, seus adversários, com pneus macios, andavam na mesma toada. O melhor tempo do fim de semana até então era de Norris, 1min19s331, marcado no terceiro treino livre, algumas horas antes.
A primeira parte da sessão foi muito equilibrada. Faltando seis minutos para o fim, meros 0s865 separavam o líder do momento, Russell, do último, Liam Lawson. O que era mais espantoso: o piloto da Mercedes tinha seu tempo, 1min19s414, registrado ainda com pneus médios – ele não colocou macios. Com tempos tão próximos, ninguém se sentia 100% garantido no Q2. Por isso, todo mundo foi para a pista na reta final do Q1 – exceto George, tranquilão. Pierre Gasly, Antonelli, Franco Colapinto, Esteban Ocon e Lawson eram os degolados do momento. Bortoleto ocupava uma ótima quinta colocação.
Ao final da última bateria de voltas, alguns se safaram e outros se atiraram no abismo. E foram eliminados Isack Hadjar, Lance Stroll, Colapinto, Gasly e Lawson. Isack caiu no Q1 pela primeira vez na temporada, seis dias depois de conquistar seu primeiro pódio na F-1. Gasly, o penúltimo, arrumou um jeito pouco empolgante para comemorar a renovação de seu contrato com a Alpine por mais três anos, até o fim de 2028 – ele chegou ao time francês em 2023. Os melhores do primeiro segmento da classificação foram Russell, Verstappen, Norris, Tsunoda e Carlos Sainz. Gabriel terminou em sétimo.
No Q2, Verstappen cravou 1min19s140 em sua primeira volta, batendo o melhor tempo do fim de semana até então. A primeira saída de Bortoleto também foi muito boa, levando o brasileiro temporariamente à terceira colocação. Russell, já de pneus macios, era o segundo. Problemas vivia Norris. Antes de terminar sua volta, foi chamado para os boxes por seu engenheiro. A equipe recolheu o carro para a garagem e começou a fazer um check up. “Troca o giclê!”, gritou alguém. “É vela!”, berrou outro. “Tem de assentar pastilha, eu já tinha falado!”, alertou um terceiro. Lando voltou à pista faltando cinco minutos para o fim, orientado pela McLaren a fazer o possível para não ser eliminado antes do tempo. Depois veriam o que tinha de errado no carro.
Lando fechou sua volta desesperada em sétimo. Não era uma posição segura. Como de hábito, todos saíram dos boxes para uma última tentativa. Àquela altura, os cortados eram Oliver Bearman, Alonso, Esteban Ocon, Alexander Albon e Nico Hülkenberg. Bortoleto estava provisoriamente em quarto.
A fase final do Q2 foi aquele pega-pra-capar tradicional de Monza, com os pendurados numa enlouquecida caça ao vácuo, de modo que pudessem salvar o pescoço da guilhotina. Norris arrancou uma volta do fundo da alma e subiu para quinto. À frente dele avançaram Verstappen, Antonelli – uia! –, Piastri e Russell. Atrás, fechando os dez primeiros, Leclerc, Bortoleto, Alonso, Hamilton e Tsunoda – uia também para o japonês, apagadinho o ano inteiro. Dançaram, pela ordem, Bearman, Hülkenberg, Sainz, Albon e Ocon. A diferença do primeiro ao décimo: 0s293. Do primeiro a 15º: 0s567. Uia! Bortoleto, pela quarta vez no ano, passou ao Q3. A Williams, que chegou toda pimpona a Monza, foi a decepção e não levou nenhum carro à fase final da classificação.
A fila para sair dos boxes na abertura do Q3 foi puxada por Norris, que teve seu carro virado do avesso de novo pelos mecânicos da McLaren. “É platinado!”, assegurou um deles, mais experiente. “Completa a água antes de sair, toda hora tem de ver isso!”, advertiu outro. “Coloca uma estopa molhada em cima dessa bomba de gasolina rápido!”, ordenou um terceiro.
Lando fez sua primeira volta rápida em 1min19s433. Nada muito emocionante. Piastri veio em seguida e cravou 1min19s056. Aí a torcida se levantou com Leclerc, que passou todo mundo e pulou para a pole provisória com 1min19s007. A alegria durou pouco, porém. Do nada, ele que estava quietinho no seu canto, surgiu Verstappen para fazer 1min18s923, 0s084 melhor que o monegasco. O “primeiro tempo” do Q3 terminou com Max, Leclerc, Piastri, Hamilton, Russell, Bortoleto, Norris, Antonelli, Tsunoda e Alonso no top-10. O tempo do holandês era um absurdo: primeiro a entrar na casa de 1min18s, muito perto do recorde de Hamilton de cinco anos atrás, quando o mundo ainda vivia uma pandemia e todos usávamos máscaras, exceto aqueles com histórico de atleta (que hoje, coitados, não podem sair de casa porque têm crises de soluço, vomitam o tempo todo e precisam carregar a tornozeleira na tomada).
Na segunda e derradeira saída dos boxes, surgiu uma ligeira treta na Mercedes. “Creio que estamos com os pneus macios, não?”, perguntou Russell. “Exatamente”, respondeu o engenheiro, achando que estava abafando. Mas o inglês acabou com suas ilusões. “Pensei que eu tinha sugerido os médios. Aqueles com as letras amarelas, amarelas como ouro. E observo, daqui, que elas, as letras, são encarnadas. E não amarelo-ouro. Fiquei com o ouro dos tolos”, concluiu, melancólico. Então, depois de um suspiro e uma pausa dramática, George pareceu entrar numa espécie de transe e começou a cantarolar pelo rádio, deixando todos no pitwall enternecidos com a riqueza poética daquela letra desconhecida. “Eu devia estar contente, porque eu tenho um emprego, sou o dito cidadão respeitável, e ganho quatrocentos mil euros por mês… Eu devia agradecer ao Senhor por ter tido sucesso na vida como piloto, eu devia estar feliz porque consegui pilotar uma Mercedes dois mil e vinte e três… Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis, mas confesso, abestalhado, que eu estou decepcionado… Porque foi tão fácil conseguir, e agora eu me pergunto: e daí? Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado… Ah, mas que sujeito chato sou eu, que não acha nada engraçado, Mercedes, iate, dinheiro, TikTok, Instagram, eu acho tudo isso um saco…”
O engenheiro, então, olhou para Toto Wolff sem entender nada, meio constrangido, até. Mas antes que dissesse alguma coisa em sua defesa notou que o chefe olhava para o horizonte, balançava o pezinho direito no ritmo da canção, e ao final do último verso de Russell ainda emendou, baixinho: “Eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar… Porque longe das bandeiras quadriculadas que separam quintais, no cume calmo do olho do Marko que vê, assenta a sombra sonora dum Max voador…”
Foi um momento bonito, que infelizmente as câmeras de TV não flagraram, mas me disseram que foi assim. Como bonito foi o duelo inesperado dos últimos segundos do Q3. Primeiro fecharam suas voltas os pilotos da Ferrari, ficando onde estavam, sem melhorar seus tempos. Aí veio Norris, de giclê trocado, vela limpa, pastilha assentada, platinado lixado, água completada (desmineralizada, sempre) e bomba de gasolina resfriada com estopa molhada para fazer 1min18s869 contra todos os prognósticos, depois do susto no Q2 e da primeira volta mequetrefe no Q3. Pole com recorde mundial de velocidade média na história do universo em todos os tempos desde o Big Bang!
Nada…
Faltava Verstappen, cujo carro mostrava um estranho recorte na asa traseira — foi cortada, mesmo, para reduzir o arrasto aerodinâmico. Ele, de quem ninguém mais falava, relegado ao ostracismo, que não ganha uma corrida desde maio — imaginem: quando Max venceu um GP pela última vez, Trump ainda nem tinha mandado sua carta para o Lula.
O holandês, em sua segunda volta rápida, conseguiu encontrar mais alguns décimos de segundo em algum canto do Parco di Monza, batendo o cronômetro em 1min18s792, 0s077 melhor que o inglês do capacete amarelo. Uma pole fantástica. Piastri, em terceiro, ficou 0s190 atrás do tetracampeão. Do resto já falei e o grid está aí em cima.
O GP da Itália começa às 10h e terá 53 voltas. Se você é “xóvem” e não tem paciência para ver uma corrida longa, esta é sua chance. Normalmente a prova de Monza tem coisa de uma hora e 15 minutos de duração, a mais curta da temprada. É rapidinho. Mas não dá para ver muitos vídeos no TikTok entre a largada e a chegada. Se não tiver paciência de jeito nenhum, aproveite o tempo entre a primeira e a última volta para ler um livro. Sim, livro. Aquele negócio cheio de páginas e letrinhas, de papel. Se tampouco tiver paciência para ler, que tal lavar o carro do seu pai? Ou passear com o cachorro? Ou arrumar seu quarto, que está uma zona?
