Blog do Flavio Gomes
F-1

À MILANESA (3)

SÃO PAULO (engraçadinho) – Max Verstappen ganhou rindo o GP da Itália hoje em Monza. Rindo porque, claro, é legal vencer uma corrida – ainda que esteja acostumado com isso, foi sua 66ª na F-1. Depois, porque fazia tempo que ele não sabia o que era um troféu de primeiro lugar. Desde Ímola, em maio, […]

Vitória 66 na carreira de Verstappen: terceira no ano, terceira em Monza

SÃO PAULO (engraçadinho) – Max Verstappen ganhou rindo o GP da Itália hoje em Monza. Rindo porque, claro, é legal vencer uma corrida – ainda que esteja acostumado com isso, foi sua 66ª na F-1. Depois, porque fazia tempo que ele não sabia o que era um troféu de primeiro lugar. Desde Ímola, em maio, quase quatro meses atrás. Mas o holandês riu, mesmo, da McLaren.

Lando Norris foi o segundo e Oscar Piastri, o terceiro. No final da prova, após as paradas de seus pilotos, a McLaren viu o australiano na frente do inglês. Tudo porque no pit stop de Norris a roda dianteira esquerda demorou um pouco para ser fixada. Ele voltou atrás do companheiro, depois de andar a corrida toda em segundo.

Tal qual um Alexandre de Moraes com cabelo e sem toga, Andrea Stella, que comanda as operações de pista do time papaia, decidiu fazer justiça. Com a anuência, claro, de Zak Brown, chefão da equipe, solicitou a Piastri que devolvesse a posição a Norris. Lembrou que na Hungria, no ano passado, algo parecido fora feito, permitindo que Oscar vencesse a corrida.

Piastri, terceiro colocado: nem reclamou da ordem do time

Oh, quanta civilidade. Pelo rádio, a Red Bull contou a Max o que a equipe rival tinha feito atrás dele. Bem atrás, diga-se. A informação não tinha nenhuma utilidade para o tetracampeão, já que a dupla da McLaren estava a quase 20s de distância. O holandês, então, gargalhou. “Hahahaha! Só porque a parada dele foi lenta?”, questionou.

O papo furado entre Verstappen e seu engenheiro nas últimas voltas da corrida mostra como foi fácil para o #1 da Red Bull vencer pela terceira vez na temporada, terceira também em Monza – as outras foram em 2022 e 2023. A pole de ontem foi uma prévia do que aconteceria nas 53 voltas do GP da Itália. Seu carro tinha um ritmo consistente e estava muito rápido nas retas, o que dificultaria ações de ultrapassagem de quem viesse atrás. Na prova, Max não gastou pneus além daquilo que a Red Bull imaginava. É um piloto que cuida bem da borracha. Sua única dificuldade no domingo quente e ensolarado de Monza (27°C) foi se estabelecer na liderança no começo da corrida porque, como de hábito, as largadas na pista italiana são tensas e sujeitas a atritos.

E foi exatamente o que aconteceu hoje. As duas primeiras voltas, com todo mundo muito próximo e com o pé cravado no porão, foram ótimas. De cara, nos primeiros metros, Verstappen deu uma espremida não muito discreta em Norris, que teve de colocar duas rodas na grama antes de chegar à chicane. Na freada, porém, Lando entrou na frente, deu uma esparramada para a esquerda e Max, para evitar uma batida, teve de sair da pista e acabou cortando a variante, mantendo a liderança. Mais atrás, Piastri passou Charles Leclerc, que tinha largado bem, e recuperou o terceiro lugar original do grid.

Lando xingou Max de idiota e Max disse que seu adversário não freou de propósito na chicane. Troca de gentilezas muito comum na F-1. A Red Bull, pelo rádio, mandou o holandês entregar a posição para o britânico, o que aconteceu na reta dos boxes, por via das dúvidas. Vai que os comissários punem o rapaz, a corrida estaria perdida…

Leclerc repassou Piastri em seguida, em ritmo frenético, empurrado pela torcida ferrarista. Kimi Antonelli, que tinha largado em sexto, caiu para décimo. Gabriel Bortoleto, sétimo no grid, perdeu a posição para Fernando Alonso, mas depois passou o espanhol e retomou o sexto lugar. Na terceira volta, o brasileiro foi para cima de George Russell, mas não conseguiu superar o inglês da Mercedes. Na quarta volta, Verstappen atacou Norris, foi por fora na entrada da chicane e voltou à liderança. O #4 da McLaren não ofereceu muita resistência. Na luta pelo título, preferiu evitar maiores confrontos.

O andamento da prova era alucinante, como sempre em Monza. Piastri recuperou a terceira posição ao passar Leclerc na sexta volta. Lewis Hamilton, com a outra Ferrari, superou Alonso e Bortoleto e, uma volta depois, já aparecia em sexto.

Na volta 10, Verstappen já tinha se aprumado depois dos perrengues das primeiras voltas e abria mais de 3s sobre Norris. Piastri, Leclerc, Russell, Hamilton, Bortoleto, Alonso, Yuki Tsunoda e Antonelli eram os dez primeiros. O duelo da vez era George x Chaleclé. Mas ninguém conseguia passar ninguém. Em Monza, é embaçado. A asa móvel não serve para muita coisa, porque os carros andam praticamente sem nada de aerofólio, mesmo. As “curvas-curvas” são longas e velozes, é difícil seguir de perto o carro que está na frente. Nas freadas para as duas primeiras chicanes é onde dá para tentar algo. Mas o risco é grande, porque se o carro da frente ocupa o meio da pista, muito estreita, quem está atrás não passa nem que a vaca tussa.

Antonelli passa Tsunoda: italiano terminou nos pontos

Na volta 19, finalmente uma ultrapassagem: Antonelli sobre Tsunoda, assumindo o nono lugar. Lá na frente, Verstappen acelerava sem dó. Já tinha mais de 5s6 sobre Norris na 20ª volta. Aí começaram os pit stops. Primeiro, Oliver Bearman. Depois, Tsunoda. A maioria dos pilotos tinha largado com pneus médios. Alexander Albon, Esteban Ocon, Lance Stroll, Isack Hadjar e Pierre Gasly, com duros – os dois últimos saíram dos boxes. Liam Lawson, de macios. Um, coitado, nem largou: Nico Hülkenberg, chamado pela Sauber para recolher o carro no fim da volta de apresentação, com um problema hidráulico detectado pela telemetria.

Na volta 21, Bortoleto e Alonso pararam juntos. A Aston Martin foi mais rápida no pit stop e devolveu o espanhol à pista na frente do brasileiro da Sauber, que também foi ultrapassado por Lawson assim que saiu dos boxes. Gabriel caiu para 17º, mas não perdeu tempo e, na volta seguinte, passou o neozelandês da Pix Pode Parcelar Agora, partindo para cima de Alonso.

Mas nem precisou passar. Na volta 25, o asturiano ficou lento na pista e abandonou. A suspensão traseira direita de seu carro estourou sobre uma zebra. “Inacreditável”, lamentou Fernando, que pelo menos não rodou, nem bateu. Conseguiu levar o carro aos boxes, permitindo que Bortoleto ganhasse uma posição, subindo para 15º.

Bortoleto, oitavo: quarta vez nos pontos em 2025

Do pessoal da frente, Russell foi o primeiro a trocar pneus, na volta 28. Mas os pneus médios estavam durando bastante e os engenheiros de todas as equipes começaram a fazer contas: será que daria para estender o primeiro stint até onde desse e terminar a corrida com pneus macios? Não foi o que a dupla da Mercedes fez, de qualquer forma. Tanto George quanto Antonelli, na volta seguinte, colocaram duros.

A McLaren, sem esconder nada de ninguém, consultou Norris e Piastri sobre a possibilidade aventada acima. A questão, basicamente, era: dá para seguir em frente e deixar para fazer a parada lá no bico do corvo? “Bico do corvo?”, perguntou Lando. E seu engenheiro teve de explicar a origem da expressão. Abriu o Google, e leu para o piloto: “Está na Bíblia, no Antigo Testamento. No Livro dos Reis, o profeta Elias dependia do pão e da carne que os corvos lhe traziam no bico para sobreviver, em uma época de muita seca. Elias estava escondido no riacho de Querite”. “Escondido de quem?”, perguntou Norris. “Sei lá, isso não é relevante para a história. O que importa é que alguém no bico do corvo está em situação difícil ou à beira da morte.” “Ah, entendi”, falou o piloto. “Então tenho de parar lá no final, quando os pneus estiverem morrendo, é isso?” “Isso”, confirmou o engenheiro.

No outro lado da mureta, o engenheiro de Piastri observou o edificante diálogo e perguntou o mesmo ao australiano, preparando-se para repetir a explicação bíblica. “Vamos parar no bico do corvo, Oscar?” “Sim”, respondeu o líder do Mundial, sem demonstrar grande interesse pelo assunto. “Você não quer saber quem era o Elias e onde ficava o riacho de Querite?” “Sim.” “Mas se eu te explicar agora não vai te atrapalhar?” “Sim.” Zak Brown pediu ao engenheiro que deixasse Piastri em paz.

Na volta 34, Leclerc fez seu pit stop. Verstappen, Norris, Piastri, Hamilton e Albon eram os cinco primeiros, todos sem paradas. O monegasco da Ferrari voltou em sexto. E reclamou com o time. “Se ninguém estava ameaçando a gente, por que me pararam?”, arguiu. “Falamos sobre isso mais tarde”, sugeriu o engenheiro. “Mais tarde quando? No jantar, comendo um risoto de funghi secchi? No enterro do Giorgio Armani? No próximo Conclave? Quando o Bologna for campeão de novo?”

Max finalmente parou na volta 38. Colocou pneus duros, sem inventar demais. Faltavam 15 voltas. Se a McLaren resolvesse arriscar com os macios para a parte final da prova, poderia ter alguma chance, caso acontecesse algo extraordinário como um safety-car. Fora isso, nem por milagre. A dupla papaia estava muito distante do holandês no momento do pit stop – Norris a 5s, Piastri a 11s. Hamilton parou na volta seguinte. Voltou em nono. Max retomara a corrida em terceiro, 12s atrás de Oscar.

Bortoleto, na 40ª volta, ocupava a 12ª posição com boas chances de voltar aos pontos porque alguns à sua frente ainda precisavam fazer seus pit stops. Na volta 41, quase aconteceu a bandeira amarela sonhada pela McLaren. Sainz tentou passar Bearman e os dois se tocaram. Rodaram, mas conseguiram voltar à pista. “Ele é uma piada!”, bradou, sobre o jovem inglês da Haas. Carlos estava irritadíssimo. Ameaçado por uma investigação no início da prova – cortou a segunda chicane e voltou à pista de forma irregular –, depois reclamou da bateria de seu carro – “uma piada!” –, do calor em Monza – “uma piada!” –, da qualidade atual do jamón serrano – “uma piada!” – e do sistema de emissão de passagens da Iberia – “uma piada!”. “O que aconteceu na Iberia?”, perguntou, curioso, o engenheiro da Williams. “Não conseguem colocar meu nome inteiro no voucher, uma piada!”, respondeu o piloto, que se chama Carlos Sainz Vázquez de Castro Cenamor Rincón Rebollo Virto Moreno de Aranda Don Per Urrielagoiria Pérez del Pulgar.

Albon, seu companheiro, que se chama Alexander Albon Ansusinha e quando viaja coloca na passagem Mr. Ansusinha, parou na 42ª passagem. Voltou em nono com pneus médios. Tinha largado de duros e a estratégia estava se pagando. Norris e Piastri, os dois primeiros, ainda nem cogitavam trocar pneus. O engenheiro de Oscar resolveu provocá-lo mais uma vez. “Vamos até o fim sem parar”, disse. “Sim.” “Mas você sabe que não pode, né?” “Sim.” “Mas vamos assim mesmo, e você será desclassificado.” “Sim.” Zak Brown pediu novamente para o cara parar de perturbar o piloto. “Estou zoando, Oscar”, concedeu o engenheiro. “Sim.” “Você vai parar e colocar só três pneus para o carro ficar mais leve.” “Sim.” Zak Brown irritado, disse que se ele continuasse a atormentar o menino, teria de viajar ao lado dele no avião para Baku. O engenheiro se calou.

Piastri parou na volta 46, quando estava cerca de 3s atrás de Norris, líder provisório da corrida. Trocou os quatro pneus, claro. E colocou macios, voltando 17s atrás de Verstappen, que retomaria a ponta assim que Lando fizesse seu pit stop – o que aconteceu na volta 47, colocando pneus macios, também.

Mas Norris voltou atrás do companheiro, pela já mencionada confusão com o pneu dianteiro esquerdo no pit stop. Ao sair dos boxes, era o terceiro colocado. Max, novo líder, tinha 18s sobre Piastri, o segundo, que por sua vez estava 1s5 à frente do parceiro. Aí a McLaren, toda boazinha, pediu para o australiano tirar o pé e entregar o segundo lugar a Landinho. “Na Hungria fizemos isso”, lembrou o engenheiro. “Sim.”

A papagaiada seguiu no rádio, com a equipe dizendo que os dois estavam livres para disputar, desde que com serenidade e zelo pela amizade mútua e pela paz entre os povos, e que a história da McLaren é essa, nunca reprimir seus pilotos, mas operar no mais alto senso de justiça e camaradagem e solidariedade e amor ao próximo. Depois que Verstappen riu gostosamente da fofura papaia, o time pediu que ele se concentrasse na tarefa do dia. “Não temos nada com isso, mantenha o foco e vamos ganhar a corrida.”

Max estava mais do que sossegado e focado. Ganhou a corrida com estilo e autoridade. Norris chegou 19s2 atrás dele, em segundo. Piastri fechou o pódio. Leclerc, Russell, Hamilton, Albon, Bortoleto, Antonelli e Hadjar foram os que pontuaram. O brasileiro chegou atrás de Kimi na pista, mas o italiano foi punido com 5s por espremer Albon e perdeu uma posição, sendo deslocado para nono. A diferença de Norris para Piastri na classificação caiu de 34 para 31 pontos – 324 x 293.

Na real, não mudou nada.