SÃO PAULO (suspende a carteira!) – Foram duas horas de classificação. Precisamente 118 minutos, e mais um daqueles recordes esquisitos para se anotar nos anais da categoria. A coisa foi tão demorada, para se ter uma ideia, que para definir o grid do GP do Azerbaijão, em Baku, levou-se mais tempo do que a corrida do ano passado, que durou 93 minutos. Por quê? Porque foi um sábado de barbeiragens a granel, com recorde de bandeiras vermelhas em classificações: seis. Meia dúzia. Ou dozena, se preferirem. Isso aí mesmo que vocês estão lendo: seis interrupções por batidas nos muros da capital azeri. Ninguém se machucou. Ferimentos apenas na autoestima de cada um.
Quando tanta gente bate, é inevitável que de uma classificação assim saia um grid embaralhado, com algumas surpresas. Carlos Sainz, por exemplo, larga em segundo com a Williams. Liam Lawson, em terceiro com a No Pix Dou Desconto. Kimi Antonelli, da Mercedes, que andava sofrendo bullying na escola e tinha ficado de castigo semana passada, dois dias sem o celular, em quarto.
McLaren? Sétimo com Lando Norris, nono com Oscar Piastri.
Ferrari, que arrebentou a boca do balão ontem com os dois melhores tempos do dia? Décimo com Charles Leclerc, 12º com Lewis Hamilton.
Na pole, Max Verstappen. O holandês da Red Bull quebrou uma sequência de quatro poles de Leclerc no Azerbaijão. No seu caso, porém, ninguém deve ficar espantado. Se é verdade que Max não tem o melhor carro do grid neste ano, tanto que está distante da luta pelo título, não é menos verdade que fez mais poles do que qualquer um em 2025. Foi sua sexta na temporada, 46ª na carreira. E quando está no comando de qualquer objeto que tenha quatro rodas e saia do lugar, nunca deve ser descartado.
A galeria de fotos lá no alto mostra cada um dos sinistros atendidos pelas companhias de seguro no sábado nublado de Baku. E a coisa começou cedo. Nem todos tinha feito tempo ainda quando Alexander Albon tocou o muro com a roda esquerda dianteira na curva 1. Uma incomum demonstração de imperícia de um piloto que erra pouco. Quebrou a suspensão, e o Q1 foi interrompido com bandeira vermelha pela primeira vez no dia, para remoção de seu carro azul da cor do mar Cáspio. Retomados os trabalhos depois de alguns minutos, Leclerc era o líder com 1min41s982, com Verstappen em segundo e Norris em terceiro.
Foram apenas cinco minutos de carros andando, porém. Logo depois Nico Hülkenberg bateu, quebrando o bico de seu Sauber e deixando a asa dianteira pelo caminho. Nova bandeira vermelha para limpeza do local. Nico conseguiu levar o carro de volta aos boxes e o time trocou o nariz do automóvel. Ele não precisou abandonar a classificação.
Tudo limpo, pista liberada, os tempos começaram a cair vertiginosamente até uma terceira bandeira vermelha, quando o cronômetro estava perto de zerar e ainda tinha gente na pista para fechar volta. Franco Colapinto foi o autor da pancada. Segundos antes, Gabriel Bortoleto tinha conseguido sair da zona de degola. O argentino, no terceiro treino livre, já tivera seu carro atingido por uma robusta maçã verde, daquelas azedas. O fruto caiu de uma macieira, o que é óbvio, e ainda, no rebote, bateu no Aston Martin de Fernando Alonso.
O Isaac Newton da terra de Maradona acabou eliminado junto com Hulk, Esteban Ocon, Pierre Gasly e Albon. O carro de Ocon não passou na vistoria técnica (problema de flexão excessiva da asa traseira) e ele larga em último. Norris, com 1min41s322 foi o mais rápido do Q1, com Verstappen em segundo apenas 0s009 atrás. O primeiro segmento da classificação, com as três batidas, durou 40 minutos.
FIM DE LINHA – Colapinto está próximo da demissão. A Alpine está em momento de definição do segundo piloto para 2026 e o chefe Flavio Briatore já citou como candidatos Jack Doohan, que começou a temporada pelo time azul e foi sacado depois de seis corridas, e Paul Aron, estoniano, seu piloto de testes. Franco faz parte da lista, mas sua sequência de acidentes e maus resultados dificilmente será recompensada. Neste momento, e mais ainda depois de nova batida, Aron é o nome mais forte.
Mal começou o Q2 e a quarta bandeira vermelha do dia foi acionada. Oliver Bearman deu uma esbarrada no muro, quebrou a suspensão e parou o carro no meio da pista. Ninguém tinha fechado volta ainda. Diria Léo Batista, como disse quando a Lusa meteu 6 a 0 no Fast Clube em 1978: não perca a conta! Eram quatro interrupções até ali. E muito trabalho para os fiscais de pista para o serviço de limpeza e arrumação das barreiras de proteção. A classificação já passava de uma hora de duração e ainda faltava bastante coisa para acontecer.
O sol estava se pondo em Baku, que está sete horas à frente do horário de Ceilândia. Já passava das cinco da tarde enquanto os 15 mais rápidos do sábado aguardavam nas garagens para fazer suas voltas de classificação. A temperatura estava na casa dos 21°C e, no asfalto, caíra dos quase 40°C registrados nos treinos livres para 27°C. A série de bandeiras vermelhas, conhecidas como “red flags”, lindas, diga-se (amanhã veremos muitas pelo Brasil inteiro), tirou a concentração de muitos pilotos. Erros, rabeadas, escapadas, leves ósculos nos muros, voltas ameaçadas pelos limites de pista, tudo acontecia para atrapalhar uns e outros.
E, nessa sequência de intercorrências, quem dançou miseravelmente foi Lewis Hamilton, o mais rápido da sexta-feira. Ficou em 12º, atrás de outro veterano eliminado, Alonso. Depois deles empacaram no Q2, ainda, Bortoleto, Lance Stroll e Bearman. Lá na frente, quem colocou de vez o pescocinho para fora do engradado foi Verstappen, fazendo 1min41s255 e deixando todo mundo que sonhava com a pole – e não eram muitos – preocupado. Norris, Piastri, George Russell, Antonelli, Leclerc, Lawson, Isack Hadjar, Sainz e Yuki Tsunoda avançaram. Quatro equipes foram adiante com suas duplas (Red Bull, Mercedes, McLaren e Pode Parcelar em Três). Duas, com apenas um piloto (Williams e Ferrari).
Começa o Q3, temperatura caindo, asfalto mais frio, tempo fechando, Russell dá uma escapada, Verstappen entra no rádio e diz, já lançando a pergunta: “Está muito escorregadio, está chovendo?”. Não parecia. Chuva, de verdade, é outra coisa. Mas antes que o engenheiro rubro-taurino consultasse seus alfarrábios meteorológicos, veio quinta bandeira vermelha do dia: Leclerc foi direto na curva 15 e bateu de frente na proteção de espuma rígida. Naquele momento, Sainz, Lawson e Hadjar eram os únicos que tinham fechado voltas. Já na garagem, o espanhol da Williams comentou com seu pessoal: “Se chover mais forte podem começar a dançar aí”.
E não é que suas preces foram atendidas, como, esperamos, serão as de Alcione? OK, não era nenhuma tempestade capaz de levar o Datena a chamar o Comandante Amilton para filmar Corsas e Palios boiando em Osasco, Renegades com pane elétrica no Aricanduva e Unos passando pelas águas com escadas no teto sem nem engasgar. Longe, muito longe disso. Foram alguns pingos, nada mais. Se chovesse de verdade, Sainz ficaria com a pole. Quem não tinha tempo marcado ainda ficou torcendo para demorarem a arrumar a barreira onde Charlinho batera, para que o sol que se insinuava entre as nuvens, ainda que no poente, se encarregasse de secar os trechos que úmidos se apresentavam.
A sessão foi reiniciada com exatos 7min07s de tempo disponível e sete dos dez finalistas sem voltas cronometradas. Eram 17h37 locais, 10h37 em Taguatinga. Assim que foram à pista, deu para perceber que a macumba climática de Carlos e do druida James Vowles não iria funcionar. Não tinha mais chuva nenhuma, a pista estava sequíssima. Mas…
Mas o santo do piloto da Williams é forte e guerreiro, assim como as feitiçarias do seu chefe. Piastri bateu na curva 3. Alô, Léo Batista! Estava estabelecido o recorde de seis bandeiras vermelhas numa classificação. Nunca antes neste país, o Azerbaijão, nem em país algum algo assim fora registrado em 75 anos de Fórmula 1.
Faltavam 3min41s para a quadriculada. Ninguém fechou volta. Seguiam nas três primeiras posições Sainz, Lawson e Hadjar, os únicos com tempos registrados. Verstappen vinha numa volta boa, capaz de bater o tempo do espanhol, mas como a bandeira vermelha foi acionada antes, foi abortada.
Eram 17h54 em Baku, 10h54 em Taguatinga, quando os boxes foram abertos de novo. Eu, se fosse Sainz, batia de propósito, provocava uma bandeira vermelha – uma a mais, uma a menos… — e acabava com aquela agonia. (Brincadeira, não se deve bater de propósito nunca.) Norris foi o primeiro a sair para a pista. Carlos, o segundo da fila. Chover, mesmo, não chovia. Pneus novos já não havia para todos.
Norris não conseguiu bater Sainz – lambeu o muro, quase arrebentou o carro. Russell tampouco. Sainz não melhorou sem tempo. Lawson fez uma bela volta e subiu para segundo. Antonelli, idem, deixou de lado a semana difícil (teve um moleque que colou chiclete na mochila dele) e foi para terceiro. Mas tinha Verstappen na pista. E o cara fez uma volta em 1min41s117. “Quem estava na minha frente?”, perguntou Max pelo rádio. “Carlos Sainz Vázquez de Castro Cenamor Rincón Rebollo Virto Moreno de Aranda Don Per Urrielagoiria Pérez del Pulgar”, respondeu seu engenheiro. “Você foi 0s478 melhor que ele”, continuou, mas Verstappen nem ouviu porque desligou o rádio depois de Rincón.
Resumindo, depois de duas horas de classificação, seis bandeiras vermelhas, várias barreiras de proteção estragadas e muitos carros arrebentados, os dez primeiros no grid de Baku foram Verstappen, Sainz, Lawson, Antonelli, Russell, Tsunoda, Norris, Hadjar, Piastri e Leclerc. A Williams não tinha um carro na primeira fila desde o infame GP da Bélgica de 2021, com Russell em segundo naquela corrida que nem aconteceu. A McLaren teve sua pior classificação desde o GP do Bahrein do ano passado.
Com cinco carros de escudo entre ele e o primeiro papaia dos líderes do campeonato, Verstappen tornou-se instantaneamente o favorito à vitória amanhã. Mas a julgar pelo nível da pilotagem demonstrado hoje (todo mundo culpou o vento), é possível que a corrida tenha outras batidas, intervenções de safety-car, maçãs voadoras. Até chuva andam dizendo que pode ter. Aguardemos.
O GP azeri começa às 8h. Bom motivo para levantar cedo amanhã. Depois, às 14h, rua para todo mundo. Tem Chico, Gil e Caetano em Copacabana. E Lenine, Maria Gadu e Djavan. Se você não quiser ver a corrida e mora em Salvador, Daniela Mercury às 9h. É de Brasília? Chico César às 10h. Impressionante como somos muito melhores. Se fosse do outro lado, veríamos Latino, Gustavo Lima (tem umas letras dobradas no nome desse aí, não sei quais) e Leonardo. Talvez até aquele sanfoneiro que foi ministro não sei de quê e toca mal pra caralho.
Às vezes não entendo sequer a existência desse lumpesinato que insiste em estragar o Brasil.
