Blog do Flavio Gomes
F-1

OS TEMPOS E O VENTO (3)

SÃO PAULO (bobeou) – Max Verstappen venceu o GP do Azerbaijão com um pé nas costas. Foi sua segunda vitória consecutiva na temporada, evitando a conquista antecipada do título pela McLaren – que precisava de uma dobradinha ou um primeiro e terceiro para passar a régua no Mundial de Construtores. O time teve seu pior […]

Verstappen: quatro vitórias no ano, 67 na carreira

SÃO PAULO (bobeou) – Max Verstappen venceu o GP do Azerbaijão com um pé nas costas. Foi sua segunda vitória consecutiva na temporada, evitando a conquista antecipada do título pela McLaren – que precisava de uma dobradinha ou um primeiro e terceiro para passar a régua no Mundial de Construtores. O time teve seu pior fim de semana desde o GP de Las Vegas de 2023, quando marcou dois pontinhos. Em Baku, fez apenas seis de um apagadíssimo sétimo lugar de Lando Norris. Oscar Piastri, o líder do campeonato, bateu na primeira volta. George Russel, da Mercedes, foi o segundo. E Carlos Sainz, da Williams, conseguiu seu primeiro pódio no ano e o primeiro da equipe desde o segundo lugar de Russel na “não-corrida” da Bélgica em 2021. Gabriel Bortoleto foi o 11º.

Norris perdeu uma ótima chance de reduzir bem sua diferença para Piastri na tabela. Era de 31 pontos quando ambos chegaram à capital azeri, agora é de 25. Ele segue tendo de descontar quatro pontos por fim de semana de GP em relação ao australiano para ser campeão. Faltam sete para acabar a temporada, três deles com corridas Sprint. Sua tarefa é tão difícil quanto era depois do GP da Itália, duas semanas atrás.

Sainz leva um troféu: primeiro pódio da Williams desde 2021

O domingo foi agradável em Baku, com termômetros na casa dos 21°C, céu nublado e nada de chuva. A largada foi muito tranquila e civilizada para todos, menos para Piastri. O líder do campeonato, irreconhecível, foi ultrapassado até pelo caminhão de lixo que trafegava por uma rua paralela. Seu carro entrou em ponto morto na hora da partida. O piloto admitiu, depois, que foi erro seu, mesmo. Desesperado, coisa rara num sujeito conhecido por sua frieza e capacidade de concentração, saiu que nem uma vaca louca para recuperar o terreno perdido e, na curva 6, foi direto no muro. “Oscar, você está OK?”, perguntou seu engenheiro pelo rádio. “Sim”, respondeu o piloto. E nada mais foi dito.

Piastri batido: chance para Norris diminuir a diferença

O safety-car foi acionado imediatamente. As seis primeiras posições do grid estavam mantidas por seus proprietários originais. Na volta 5, a relargada foi autorizada e, na turma da frente, só Russell perdeu posição, para Tsunoda. Norris, mais para trás, caiu para nono. Sabia que tinha uma missão: aproveitar o primeiro abandono de seu companheiro desde o GP dos EUA de 2023. Piastri interrompeu uma série de 44 provas vendo a bandeira quadriculada, tendo marcado pontos nas últimas 34. Esse número se eleva a 42 finais de semana pontuando quando se incluem as Sprints do período. O último fim de semana zerado tinha sido no Brasil em 2023.

Verstappen controlava a corrida com tranquilidade, como de hábito. Tinha pneus duros, contra médios de Sainz, o segundo colocado. Na largada, eram nove com os compostos mais resistentes de faixa branca e 11 com os de faixa amarela. No fundo, não fazia muita diferença. Quem tinha duros ia parar depois, e só. A performance entre os compostos era semelhante.

Com dez voltas percorridas, as coisas não tinham mudado muito, exceto pela ultrapassagem de Russell sobre Tsunoda, retomando o quinto lugar. Mais para trás, Norris e Lewis Hamilton superaram Isack Hadjar. Os outsiders Sainz, Liam Lawson e Kimi Antonelli se mantinham em segundo, terceiro e quarto. Max já tinha mais de 2s de vantagem sobre o espanhol da Williams.

Max no início da prova: se livrou rápido de Sainz

Na altura da 16ª volta, Russell entrou no rádio. Ele estava havia várias voltas muito perto de Antonelli, seu companheirinho na Mercedes. “Vejam bem, queridos. Vou ser breve porque estou debilitado desde sexta-feira. Sinto cansaço, meu corpo dói, devo estar gripado. Ou com alguma virose. Sabem como são os médicos, né? Quando não têm um diagnóstico claro, dizem que é virose. Bem, vamos falar da corrida e do meu amiguinho. Kimi é jovem, impetuoso, naturalmente estouvado. É da idade… Lembro bem de como eu era nessa época da escola. Um dia briguei com um menino que furou a fila da lanchonete. Dei-lhe uma canelada. Ficamos meses sem nos falar. Entendo as crianças. Mas, voltando à corrida, falemos de pneus. Os meus, observem, vão perdurar por mais tempo, o que me coloca numa boa posição para atacar o rapaz à frente que faz propaganda de cartão de crédito. Daí que poderíamos considerar a possibilidade de o amiguinho sair da minha frente. Eu mesmo explico à dona Veronica, se ela ficar enfezada.”

Demorou tanto George para expor seus argumentos que, na 19ª volta, Antonelli foi chamado aos boxes para trocar pneus. “Venha, Kimi, senão ele não para de falar”, pediu Toto Wolff. O inglês, então, assumiu a quarta colocação. Começavam os pit stops para quem tinha largado de pneus médios, como o italiano. Charles Leclerc veio na volta seguinte. Lawson, na 21ª. Conseguiu voltar à frente de Antonelli, que tentara o famoso “undercut” – parar antes para ganhar a posição nos boxes. Mas já na volta seguinte Kimi passou o neozelandês da Equipe Que Faz Propaganda de Cartão de Crédito, assim batizada por Russell. Passou e foi embora. Estavam em nono e décimo, com vários carros à frente que ainda não tinham feito seus pit stops – os oito primeiros, de Verstappen a Bortoleto.

Russell ataca Tsunoda: piloto da Mercedes chegou em segundo

Chamava a atenção a durabilidade dos pneus médios de Sainz, segundo, e Norris, quinto. Não faziam menção de parar. Max, entrando na segunda metade da prova, cumpria seu destino cantarolando canções que escutava no rádio do carro enquanto seu engenheiro não dizia nada de muito relevante. De vez em quando ele entrava para informar que o ritmo estava ótimo, que sua pilotagem era brilhante, que sua filhinha Lily era linda, o que deixava o piloto ligeiramente irritado, já que ele estava ouvindo “Faroeste Caboclo” e impusera a si mesmo o desafio de terminar a corrida sem errar nenhum verso. Estava no trecho “(…) E lá chegando, foi tomar um cafezinho/E encontrou um boiadeiro com quem foi falar/E o boiadeiro tinha uma passagem e ia perder a viagem/Mas João foi lhe salvar/Dizia ele: Estou indo pra Brasília/Neste país lugar melhor não há/Tô precisando visitar a minha filha/Eu fico aqui e você vai no meu lugar”, trecho que gostava por causa de Brasília, e quase se atrapalhou com as baboseiras inúteis do engenheiro.

Sainz foi para os boxes na volta 28 para colocar pneus duros. Queria se proteger de Russell, que quando trocasse colocaria os compostos médios, mais velozes. George, na verdade, estava mais perto de terminar a corrida em segundo do que Pulgar. (Aqui se faz necessária uma explicação. Estou usando o último sobrenome de Sainz, Pulgar, para não ficar repetindo o tempo todo “Carlos”, “espanhol”, “piloto da Williams”. Ele se chama Carlos Sainz Vázquez de Castro Cenamor Rincón Rebollo Virto Moreno de Aranda Don Per Urrielagoira Pérez del Pulgar, o que abre várias possibilidades de utilização de sobrenomes diferentes. Não gosto de repetir palavras, mesmo que sejam nomes próprios, acho que vocês já perceberam isso.)

Com 30 voltas, Verstappen, Russell, Yuki Tsunoda, Norris, Hamilton e Rebollo eram os seis primeiros. Desses, apenas Cenamor tinha trocado pneus. A corrida não era grande coisa. Tirando o abandono de Piastri na primeira volta, os demais acontecimentos provocavam bocejos na audiência. É verdade que lá no fundão algumas disputas ocorriam, mas nada que alterasse a cotação do manat – a quem interessar possa, um manat (₼) comprava 3,13 reais (R$), pelo câmbio da sexta-feira.

Norris, em quarto, dava a impressão de que não tinha compreendido bem a oprtunidade que lhe caíra do céu com o abandono de seu parceiro. Apático, não ameaçava Tsunoda. Não dizia uma palavra pelo rádio. Não especulava estratégias diferentes, não pensava em nada que pudesse melhorar sua posição final. Nem cogitava um pódio. Seu engenheiro chegou a pedir que se aproximasse do japonês para tentar ganhar sua posição na parada. Não houve resposta.

Verstappen faz sua troca: liderou de ponta a ponta

Hamilton parou na 37ª volta. Naquele momento, restavam quatro na pista com os mesmos pneus da largada: Max, Russell (14s atrás), Tsunoda e Norris. O vice-líder do Mundial foi chamado, finalmente, na volta 38. A parada da McLaren foi lerda, 4s1 – o pneu dianteiro direito demorou um pouco para ser fixado. Voltou em oitavo. Na 39ª, Tsunoda fez seu pit stop e voltou em quinto, sendo ultrapassado imediatamente por Lawson, que tinha pneus mais aquecidos.

A Mercedes, então, chamou Russell para tentar ganhar, nos boxes, a posição de Vázquez, que era o terceiro, já de pneus trocados. O que acabou acontecendo. O inglês colocou pneus médios e voltou à frente do Williams #55 de Aranda. Por fim, na volta 41, Verstappen fez sua parada. Estava um ano na frente de Russell, voltou à pista com seis meses de vantagem. Saiu dos boxes com o rádio aberto, cantando: “Não é que o Santo Cristo estava certo?/Seu futuro era incerto e ele não foi trabalhar/Se embebedou e no meio da bebedeira/Descobriu que tinha outro trabalhando em seu lugar/Falou com Pablo que queria um parceiro/E também tinha dinheiro e queria se armar/Pablo trazia o contrabando da Bolívia/E Santo Cristo revendia em Planaltina…” “Quem é Pablo?”, perguntou o engenheiro. “Planaltina é longe?”, continuou, interessado. Mas Max não respondia, para não se perder na letra.

As estratégias de pneus foram particularmente bem executadas pela Mercedes. Russell, após as paradas, subiu para a segunda posição – tinha largado em quinto. Antonelli conseguiu superar Lawson, que largara à sua frente e caíra para quinto. Rincón perdeu o segundo lugar original e ficou em terceiro, mas estava de bom tamanho – um trofeuzinho ao alcance de suas mãos, quem poderia imaginar?

Norris, a cinco voltas do final, era o sétimo colocado, com boas possibilidades de passar Tsunoda e, com algum esforço, superar Lawson, também. Descortinava-se, finalmente, a possibilidade de um bom combate nos estertores da corrida – desde que os envolvidos se dispusessem a lutar. Hamilton, em oitavo, chegou para a festa e se posicionou logo atrás do McLaren #4.

O problema é que ninguém estava muito a fim de briga. Ficaram todos num trenzinho até a bandeira quadriculada. Max venceu com 14s609 de vantagem para Russell, o segundo colocado. Virto Moreno foi o terceiro e, feliz da vida, se emocionou no rádio com o pessoal da Williams. Antonelli, Lawson, Tsunoda, Norris, Hamilton, Leclerc e Hadjar fecharam os pontos.

Norris, apagado: sétimo lugar, apenas seis pontos

No rádio, a Red Bull parabenizou Verstappen, que venceu pela quarta vez no ano e 67ª na carreira. O holandês declamava os últimos versos da música que tocava no seu ouvido. “E João não conseguiu o que queria/Quando veio pra Brasília com o diabo ter/Ele queria era falar pro presidente/Pra ajudar toda essa gente que só faz/Sofrer!”, e esticou a última sílaba, satisfeito de ter terminado antes de chegar aos boxes.

O mais feliz de todos, claro, era Urrielagoira. “Mais feliz do que em meu primeiro pódio”, garantiu. Russell, segundo colocado, terminou a prova abatido fisicamente, porque chegou a Baku doente, meio acabado, como já sabemos por seus relatos no rádio. Max, por sua vez, foi dar sua primeira entrevista como se tivesse acabado de jogar uma partida de damas contra uma criança de seis anos. A única dificuldade, reconheceu, foi quando teve de cantar que roubava o dinheiro das velhinhas na igreja, e “de escolha própria, escolheu a solidão”. Achava aquele trecho especialmente triste, a infância e a adolescência precocemente perdidas, a entrada no mundo do crime, um caminho sem volta.

O resultado de Baku levou a Mercedes à vice-liderança do Mundial, com 290 pontos. A Ferrari caiu para terceiro com 286 – o time italiano fez medíocres seis pontos com seus dois pilotos, contra 30 dos prateados. Com 272, a Red Bull está na briga pelo vice, principalmente se Tsunoda engatar uma boa sequência de pontos. Não chega a ser uma disputa empolgante para o grande público, mas internamente os times brigam muito por essas posições.

Max, pela sexta vez na carreira, fez o que na F-1 se chama de Grand Chelem, ou Grand Slam, a saber: pole, vitória, melhor volta e todas as voltas na liderança. Empatou com Hamilton nesse item das estatísticas. Ambos só estão atrás do recordista Jim Clark (1936-1968). O holandês da Red Bull ganhou pela quarta vez no ano, 67ª na carreira. Em dois GPs, saiu de um déficit de 104 pontos para o líder da temporada para 69. Ainda há 199 em jogo.

Não, Max não será campeão. A McLaren precisaria de vários finais de semana desastrosos para seus pilotos perderem o título. Esse tipo de coisa não acontece com frequência no automobilismo, menos ainda na F-1 atual. Seria uma virada inédita e quase inacreditável, uma derrota para fechar as portas dos derrotados. Mas que a dupla papaia está cabisbaixa, está. Foram duas pancadas doloridas no queixo.

Verstappen, como se diz, vai morrer atirando.