A IMAGEM DA CORRIDA
SÃO PAULO (melhor que a encomenda) – Como atrasei no nosso rescaldo do GP da Holanda, o texto de hoje não terá nenhuma pretensão literária e será meio telegráfico. Estamos sem tempo! Domingo já tem corrida de novo, amanhã é “media day” em Monza, vamos acelerar.
Por que Charles Leclerc e não Isack Hadjar para abrir o “Sobre ontem…”? Porque neste rescaldo, vocês sabem bem, a imagem escolhida para marcar a corrida nem sempre retrata o que de mais importante aconteceu no GP. Às vezes é um clique esteticamente espetacular. Em outras, uma imagem dramática. Sorrisos, abraços, lágrimas, acidentes, tudo vale. Desta vez, a curiosidade suplantou a relevância do pódio do francês, que será contemplado mais abaixo. Por causa do celular. O que fazia Charles Leclerc com um celular depois de abandonar a corrida? Estava no bolso do macacão?
Não, não estava. Piloto não pode levar objeto algum dentro do carro. O aparelho foi entregue a ele pelo fotógrafo Antoine Truchet, que presta serviços particulares ao monegasco. Se vocês clicarem na foto aí no alto, vão cair na página do moço no Instagram e poderão acompanhar o dia a dia de Charlinho, sua namorada, seu cachorro, sua vida cheia de glamour. Gente fina é outra coisa. Ou, como a gente falava antigamente para fazer graça, gente coisa é outra fina.
Nunca entendi esse gracejo.
Claro que o pódio de Hadjar foi a coisa mais bacana de Zandvoort, uma corrida que saiu bem melhor que a encomenda (uso muito esse clichê…). A quebra de Lando Norris no fim foi a cereja do bolo emocional, já que colocou o inglês numa situação bem complicada — precisa descontar quatro pontos por etapa de Oscar Piastri até o fim do campeonato se quiser ser campeão.
Faltam nove corridas e três Sprints. Ainda tem muito ponto em jogo. Mas os 34 que o australiano abriu sobre o companheiro são consideráveis. Lembram muito (o sujeito oculto da frase é “os 34 pontos”, não queiram me corrigir) a diferença que Nico Rosberg abriu para Lewis Hamilton em 2016. Chegou uma hora, na reta final da temporada, que o alemão botou o regulamento debaixo do braço e foi só somando pontos, enquanto o inglês se esgoelava para tirar a diferença. Rosberguinho acabou campeão.
Pronto, está aí o que todos queriam!
Na galeria, várias imagens do pódio de Zandvoort com a alegria de Hadjar, a satisfação de Max Verstappen pelo segundo lugar e a conhecida euforia de Piastri, o vencedor. Abaixo teremos mais fotos ainda de Isack festejando com sua equipe, a gloriosa Débito ou Crédito. Gostei da maneira como o francês recebeu o terceiro lugar. Sem se debulhar em lágrimas, como se tivesse operado algum tipo de milagre.
Não foi. Foi uma grande corrida, que começou com uma ótima classificação. O quarto lugar no grid, sim, merece a alcunha de quase-milagre — não chega a tanto porque o time bateu no Q3 com seus dois pilotos pela terceira vez seguida no ano; ou seja, o carro não é uma porcaria e se mostra competitivo. Depois, como Hadjar disse, surpresa mesmo foi ter permanecido em quarto a corrida toda, com Mercedes, Ferrari e Red Bull babando atrás. “Que seja o primeiro de muitos”, falou, quando o entrevistador tentou arrancar algumas lágrimas do menino citando “sonho de infância” e bobagens do gênero.
Pensando bem, a última foto aí em cima poderia, tranquilamente, ser a imagem da corrida desta postagem. Mas agora é tarde, não vou reescrever tudo. Isack quebrou o troféu quando foi tirar o retrato oficial da equipe, mas não por culpa dele. A base simplesmente se soltou (clique na foto para ver o vídeo) da copa.
A Royal Delft, empresa que fabricou a taça, já avisou que vai mandar outra para ele.
Hamilton tomou cinco posições no grid de Monza porque infringiu uma regra de bandeira amarela antes da largada, nas voltas de instalação. Estava muito rápido na entrada dos boxes. O pênalti foi anunciado depois da corrida. Inferno astral, que chama.
Já Piastri fez seu primeiro “Grand Chelem”, ou “Grand Slam”, como alguns chamam. Que vem a ser pole-position, melhor volta, vitória e todas as voltas na liderança de um GP. Parabéns a ele.
E Oliver Bearman conseguiu um excepcional resultado depois de sair dos boxes. Assim como Hadjar, não se derreteu em choro compulsivo evocando seus tempos de menino, quando andava de carrinho de rolimã nas ruas de Havering, nas franjas de Londres, e ralava o joelho. Disse, com muita sinceridade, que “deu sorte” na prova. Ficou com o mesmo jogo de pneus até a 54ª volta (largou com duros) e ganhou uma parada de graça por causa de um safety-car. Voltou dos boxes em 11º. Aí, com pneus melhores, passou Gabriel Bortoleto, Fernando Alonso e Pierre Gasly. Norris quebrou. E Kimi Antonelli foi punido. Noves fora, deu um sexto lugar. Seu companheiro Esteban Ocon tinha estratégia igual, mas deu azar. Parou na volta 53, uma antes do safety-car. Terminou em décimo. Pela quarta vez no ano a Haas fez pontos com seus dois pilotos.
A FRASE DE ZANDVOORT
“Queremos que ele seja agressivo e busque todas as oportunidades que tiver na pista. Foi o que fez hoje.”
Toto Wolff, chefe da Mercedes, sobre Kimi Antonelli
A favor de Antonelli, que segundo Toto Wolff tem de ser “um monstro” na sua carreira que mal começou, diga-se que ele se desculpou com Leclerc. Faz parte. E, sendo honesto, foi o menor dos erros do menino nos últimos tempos. Tentou ultrapassar. Normal. Acontece. Na pista, chegou em sexto. Com as punições (10s pelo toque em Charlinho, 5s por excesso de dnos boxes), caiu para 16º.
O problema é que nas últimas nove corridas Kimi só pontuou em duas. Desde Ímola vem muito mal, instável, nervoso, afoito. Teve um terceiro lugar no Canadá nesse período, é verdade. Mas em quase todas as provas europeias zerou — a exceção foi um décimo lugar na Hungria. Nos últimos nove GPs, só marcou pontos em dois. Nos seis primeiros do ano, pontuara em cinco.
O que está acontecendo com o jovem italiano?
O NÚMERO DA HOLANDA
7
…corridas sem pontuar era a sequência de Yuki Tsunoda até o GP da Holanda. O japonês da Red Bull terminou a prova na nona colocação e fez dois pontinhos. Titular do time desde a terceira etapa do campeonato, Tsunoda tem apenas 12 pontos marcados em 13 GPs. Hadjar, seu companheiro na É Aproximação? nas primeiras duas corridas do ano, já marcou 37. Liam Lawson, que foi rebaixado para a filial de Faenza, fez 20.
Agora, em ritmo de agências internacionais, vamos dar uma atualizada nas coisas da F-1 de hoje — e para o fim da semana. Depois voltamos com o indefectível “Gostamos & Não gostamos”.
HERTA – A Cadillac anunciou Colton Herta como seu piloto de testes e reserva para a F-1 em 2026. O norte-americano de 25 anos estava na F-Indy desde 2019 e na Andretti desde 2020. Foi vice-campeão da categoria no ano passado. A Andretti pertence ao mesmo grupo que vai tocar a operação da Cadillac na F-1, a TWG Motorsports. Herta deixa a Indy e o time fundado pelo clã Andretti, que já correu para preencher a vaga com o veterano Will Power, 44, que acabou de deixar a Penske depois de 16 anos de serviços prestados. Para a Cadillac, ter um piloto dos EUA no elenco era quase mandatório. A marca, agora, corre para preencher uma vaga em sua operação no WEC, com a saída de Jenson Button. Mick Schumacher foi sondado, mas disse não — negocia com a McLaren para 2027 na categoria de provas de longa duração. Felipe Drugovich, que correu duas vezes em Le Mans e uma em Daytona pela Cadillac é nome considerado.
NOVATOS – Paul Aron, pela Alpine, e Alex Dunne, pela McLaren, serão os novatos do primeiro treino livre em Monza. O primeiro é estoniano e já andou duas vezes neste ano, emprestado à Sauber — que não tem jovens pilotos para colocar em seus carros quatro vezes ao ano, como manda o regulamento. O segundo, irlandês, já andou pela McLaren na Áustria. Aron vai usar o carro de Franco Colapinto; Dunne senta no de Piastri.
50 ANOS – A Ferrari celebra os 50 anos do título de Niki Lauda em 1975 neste fim de semana em Monza com várias ações. Foi na mesma pista, e no mesmo dia 7 de setembro, que o austríaco chegou em terceiro e assegurou a taça contra seu mais direto concorrente, Emerson Fittipaldi, da McLaren. Era a penúltima das 14 etapas daquele campeonato. Para alegria ainda maior dos torcedores italianos, o outro carro da Ferrari, com Clay Regazzoni, venceu o GP da Itália. Lauda tinha sido contratado no começo de 1974 por indicação do próprio Regazzoni a Enzo Ferrari, que viu o piloto pela TV barbarizando no GP de Mônaco de 1973 com a pequena BRM — abandonou com problema no câmbio quando estava em terceiro. Decidiu contratá-lo na hora. A equipe vai usar camisetas e bonés azuis (Lauda usou macacão azul algumas vezes; tem uma foto aí em cima, mas não tenho certeza se é de 1975) e a pintura do carro será toda especial: branco sobre a cobertura do motor, asa traseira pintada de alumínio (material usado na época), números pretos dentro de quadrados brancos, nomes dos pilotos em letrs cursivas, rodas douradas, logotipo retangular nos uniformes. Tudo como na 312T de 1975. Além de Lauda, Jean Alesi será homenageado pelos 30 anos de sua única vitória na F-1, no Canadá em 1995. O francês vai dar umas voltas com o carro da época, a 412T2, última Ferrari a disputar o Mundial com um motor V12.
DETIDO – Tarso Marques, lembram dele, foi detido domingo em São Paulo por dirigir um Lamborghini sem placas, com débitos de R$ 1,3 milhão em impostos e mais algumas centenas de milhares de reais em multas. Disse que o carro não era dele e que não sabia que estava sem placas (clique na foto da direita, acima, para ler a reportagem no Grande Prêmio. Foi solto com pagamento de fiança. Em 2011, foi pego no antidoping quando corria da Stock, em escândalo revelado pela “Revista Warm Up”. Na época, este blogueiro que vos fala recebeu ameaças de morte pela publicação do caso. Como se nota, o blogueiro ainda não morreu.
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS… de ver Lance Stroll sair lá do fundão, penúltimo no grid (porque Bearman largou dos boxes) para chegar em sétimo. O rapaz foi um dos primeiros a parar para trocar pneus e sua estratégia funcionou perfeitamente. Ainda teve de lidar com um carro danificado por um toque na largada e foi muito combativo para terminar onde terminou. Isso depois de dois acidentes na sexta e no sábado. Fernando Alonso também foi bem e chegou em oitavo, mas era o décimo no grid. Stroll, tão criticado aqui no Brasil, tem 32 pontos no Mundial. Alonso tem 30. A Aston Martin pontuou em seis das últimas sete corridas.
NÃO GOSTAMOS… da Sauber, que vinha de seis corridas seguidas nos pontos e acabou perdendo a oportunidade de se colocar entre os dez primeiros por causa da má classificação de Hülkenberg e da largada ruim de Bortoleto. Uma prova muito apagada depois de uma ótima sequência desde a Espanha, quando estreou seu novo pacote aerodinâmico.
