SÃO PAULO (vão dando mole, vão…) – Bom, vamos fazer contas. Oscar Piastri, quinto colocado no GP dos EUA disputado hoje em Austin, é o líder do Mundial com 346 pontos. Lando Norris, seu companheiro na McLaren, foi o segundo e agora tem 332. São só 14 de diferença. Max Verstappen, que venceu a corrida, agora soma 306. Para o primeiro na tabela de classificação, a desvantagem do holandês da Red Bull agora é de 40 pontos. Para o vice-líder, 26.
Seguimos fazendo contas.
Desde a volta da F-1 das férias, no fim de agosto, foram cinco corridas, incluindo uma com Sprint, justamente a deste fim de semana no Texas. Piastri, no período, fez 62 pontos. Norris, 57. Verstappen, 119.
Continuamos com a calculadora ligada – minha lindíssima Sharp Elsi Mate EL-8016R. Essa aí da foto.
Faltam cinco etapas para o fim do campeonato, duas delas com Sprints. 5 x 25 (pontuação para o vencedor de um GP) = 125. 125 + 16 (pontos possíveis nas duas Sprints) = 141. São 141 pontos em jogo, portanto.
Se fizer oito pontos por etapa mais do que Piastri até o fim do ano, os dois terminam o campeonato empatados. Aí vai ser preciso recorrer ao número de vitórias de cada um para desempatar. Por enquanto, o australiano tem sete. Max, cinco.
Mais algumas continhas.
Nos últimos cinco GPs, a média de pontos de Verstappen foi de 23,8. Piastri tem a média, no mesmo período, de 12,4. Norris, 11,4. Para fazer oito pontos mais do que Piastri por final de semana até o encerramento da temporada, Verstappen terá, provavelmente, de vencer corridas. O que faz imaginar que ele pode, sim, igualar o número de vitórias do australiano. Ele não depende só dele, porém. Ainda. Se vencer todas, inclusive as Sprints, o holandês bate nos 447 pontos. Se Piastri terminar todas em segundo, chega a 450.
Max tem um grande aliado nessa arrancada para um possível pentacampeonato. Ou aliada, no caso. A McLaren. Com Piastri e Norris separados por apenas 14 pontos, não faz sentido priorizar ninguém, agora. Do ponto de vista esportivo, seria condenável. Do ponto de vista interno, um desastre. Acabaria com o clima entre todos os integrantes da equipe, do moço que opera a cancela na entrada da fábrica ao mais gabaritado engenheiro, do rapaz que tira o pó dos carros no museu de Woking ao mais sanguinário sheik árabe que compõe o board do time.
O que parecia impossível está acontecendo. Na Holanda, a primeira corrida depois da pausa de verão da F-1, Piastri venceu pela última vez na temporada. Verstappen foi o segundo e Norris abandonou, quebra de motor. Oscar abriu, com o resultado, 104 pontos sobre o piloto da Red Bull. Era o caso de jogar a toalha e pensar em 2026.
Voltemos à Sharp.
Em quatro etapas, Max descontou 64 pontos. São 16 por etapa – estou usando “etapa”, em vez de “corrida”, por causa das Sprints. Se tirou 64 em quatro, por que não tiraria 40 em cinco?
Neste exato momento, dia 19 de outubro de 2025, Oscar Jack Piastri não é mais o favorito à conquista do título da F-1 deste ano. Nem Lando Norris.
Neste exato momento, dia 19 de outubro de 2025, ninguém pode ser censurado se disser que Max Emilian Verstappen vai levar a taça pela quinta vez. E, se conseguir, terá sido a maior virada da história da categoria. E a maior pipocada de uma equipe em todos os tempos. Uma vergonha. Um vexame. Uma desonra. Uma humilhação. Uma desgraça.
O placar em Austin, depois da Sprint de ontem e da corrida de hoje, foi Verstappen 33 pontos x Norris 18 x Piastri 10. O holandês fez duas poles, da minicorrida e do GP principal, e venceu as duas provas. Com a autoridade de sempre. Max, nesta tarde, largou como a bala que matou Odete Roitman. Não deu a menor chance a ninguém de tentar alguma coisa e foi embora. Charles Leclerc, com pneus macios, pulou para a segunda posição – ele, Gabriel Bortoleto e Lance Stroll escolheram esse composto; Esteban Ocon, Alexander Albon e Isack Hadjar foram de duros; o resto, de médios.
Não houve incidentes na primeira volta, exceto um toca-toca entre Bortoleto e Albon. O tailandês se deu mal e caiu para último. Na quarta volta, o tetracampeão já impunha seu ritmo. Tinha mais de 2s5 sobre Leclerc, que era perseguido de perto por Norris. Lewis Hamilton, Piastri, George Russell, Kimi Antonelli, Carlos Sainz, Yuki Tsunoda e Oliver Bearman eram os dez primeiros.
Charlinho funcionava como escudo para Verstappen, uma ajuda providencial. Enquanto Norris tentava passar o monegasco, Max ia abrindo. Hamilton também chegava, para incomodar Lando. Piastri idem, para chargear Lewis. “Briguem, desgraçados!”, gritou no rádio – esse áudio não foi levado ao ar, mas me contaram que ele falou, mesmo.
Na volta 7, incidente. Antonelli e Sainz se tocaram na luta pelo sétimo lugar. A culpa foi do espanhol da Williams, que mergulhou por dentro sobre o italiano para tentar a ultrapassagem na curva 15, esquecendo que o jovem da Mercedes tinha de contornar a mesma curva. Carlos abandonou. E ainda foi punido com a perda de cinco posições no grid da próxima corrida, no México.
Kimi voltou à pista e chamou o veterano de “idiota do caralho filho da puta de merda”. Sua mãe, dona Veronica, telefonou para Toto Wolff e mandou o chefe da Mercedes dizer ao menino que não gostava de xingamentos, muito menos de palavrões. “Ele é desbocado, dona Veronica”, desculpou-se o dirigente. “Aprendeu aí, porque aqui em casa não fala nada dessas coisas!”, respondeu a mãe de Antonelli, batendo o telefone na cara de Toto. O safety-car virtual foi acionado. O real, um Mercedes vermelho, permaneceu na garagem na 500ª corrida de um carro de segurança da marca alemã, história que começou em 1996 na Austrália.
Recolhida a viatura de Sainz, a prova foi retomada na nona volta. Verstappen, Leclerc, Norris, Hamilton, Piastri, Russell, Tsunoda, Bearman, Nico Hülkenberg e Fernando Alonso eram os dez primeiros. As coisas se estabilizaram e na volta 13 Max já tinha 4s de vantagem sobre o inglês da McLaren. Mas ele estava feliz, mesmo, com a incapacidade de Piastri de subir na classificação. O australiano era o quinto colocado, com uma corrida mais discreta que a vida pessoal de Tony Ramos.
Na 14ª volta, Bortoleto fez o primeiro pit stop normal da corrida (Albon, no início, parou por causa do toque com o brasileiro). Colocou pneus médios. Enquanto isso, na ponta, Norris atacava Leclerc. “Sai da frente!”, berrava. “Você não tem mais nada pra fazer nesse campeonato!” O monegasco respondia: “Com esse carro eu já seria campeão! Bundão!”. Esses áudios, igualmente, não foram divulgados. Mas me contaram. O #16 da Ferrari não pipocou.
Verstappen, claro, aproveitava a briga entre segundo e terceiro colocados para abrir ainda mais. Na volta 17, a vantagem dele para Leclerc batia na casa dos 7s. Lando continuava brigando pelo rádio. “Você tem menos seguidores que eu no Instagram!”, bradava. “E eu tenho mais no TikTok!”, devolvia Charles. “Você compra seguidores!”, acusava Norris. “Seu cu!”, encerrou Leclerc.
Vigésima volta, Max já tinha mais de 9s de diferença na ponta. Não perderia mais a corrida. Só lhe restava torcer para que alguém ameaçasse Piastri, para roubar dele mais alguns pontinhos. Contava com Russell, o sexto colocado. Ficou na torcida. Nada de muito agudo acontecia lá atrás.
Foi só na volta 21 que Norris passou Leclerc, com muita categoria. Demorou, mas foi bonito. Verstappen ganhou um novo amiguinho para monitorar. Na liderança, estava 11s à frente. Leclerc parou na volta 23, depois de dificultar a vida de Hamilton. Seus pneus macios tinham acabado. Colocou médios e caiu para a nona posição.
Sendo bem honesto, era uma corrida bem mais ou menos, a de Austin. Mesmo no fundão, lá na rabeira, no cu da cobra, como dizem de forma muito deselegante alguns amigos meus, era uma pasmaceira danada. Na metade da prova, Verstappen, Norris, Hamilton, Piastri, Russell, Tsunoda, Bearman, Leclerc, Hulk e Alonso eram os dez primeiros. Com pneus novos, o ferrarista passou o haasista (se existe ferrarista, podem existir haasista, redbullista, mercedista, sauberista e williamsista) e começou a recuperar terreno. Na 30ª volta, superou Tsunoda e foi para sexto.
Pelo rádio, a Red Bull perguntou a Max se ele precisava de alguma coisa. “Um açaí”, respondeu o holandês. “Com leite em pó?” “Sim, e leite condensado.” “Copy”, finalizou o engenheiro. Volta 31 e Piastri parou. Colocou pneus macios e voltou em sétimo. Hamilton, o terceiro, fez seu pit stop na volta 32. Mesma coisa: pneus macios para a reta final da corrida. Norris também colocou os pneus macios na volta 33. E perdeu a posição para Leclerc de novo.
A parada de Verstappen aconteceu na volta 34. Nem perdeu a liderança, porque Russell veio logo depois dele. Com todo mundo de pneu novo, Verstappen, Leclerc, Norris, Hamilton, Piastri, Russell, Tsunoda, Bearman, Hülkenberg e Albon – que teria de parar de novo — eram os dez primeiros.
A briga entre Norris e Leclerc pelo segundo lugar iria se repetir em poucas voltas. Charlinho tinha pneus médios e Lando, macios. O inglês se aproximava rapidamente. Para o monegasco, a única estratégia possível era se manter na frente até os pneus do #4 da McLaren começarem a perder rendimento. Bem atrás, registre-se a segunda parada de Bortoleto, na volta 37. Caiu para a última posição. Enquanto seu companheiro flertava com os pontos, o brasileiro amargava um de seus piores finais de semana do ano.
Foi na volta 40 que Norris, aparentemente, começou a desistir da briga. “Meus pneus acabaram”, resmungou. “Pode vir, influencer da Shopee!”, gritou Leclerc pelo rádio – de novo a transmissão não levou ao ar, mas me disseram que foi assim mesmo. E, de fato, Charles se descolou do britânico. Na volta 42, a diferença subiu para 2s. Game over.
Over?
Que nada… Na volta 50, depois de um tempinho dando um refresco para a borracha, o inglês voltou à carga. Se aproximou da Ferrari e na volta 51, na curva 1, mergulhou para cima do #16. Passou, mas tomou o X. Algumas curvas adiante, porém, superou o rival. Ganhou a segunda colocação, importantíssima para ele nessa altura do campeonato.
E nada mais de relevante se verificou até o fim da prova. Verstappen pediu para tirarem o açaí do congelador, que ele gosta um pouco mais cremoso. Conheceu a iguaria nos Lençóis Maranhenses, embora a origem da fruta seja amazônica – mas já tem sido cultivado em outros Estados, também, e o Maranhão é um deles. Venceu pela quinta vez no ano, 68ª na carreira, e festejou com absoluta serenidade. Norris e Leclerc foram com ele ao pódio. Hamilton, Piastri, Russell, Tsunoda, Hulk, Bearman e Alonso fecharam a zona de pontos.
O monstrinho está vivo. Semana que vem, morde de novo.
