SÃO PAULO (quem explica?) – Quem disser que não ficou surpreso com a pole-position de George Russell em Singapura estará mentindo. O inglês da Mercedes bateu todos os favoritos e larga na frente de um GP pela sétima vez na carreira, segunda neste ano – a outra foi no Canadá. A equipe alemã, embora ocupe a vice-liderança do Mundial de Construtores, não vem sendo exatamente uma protagonista da temporada. Ganhou apenas uma corrida – justamente em Montreal, onde George largou na pole – e somou oito troféus em 17 etapas. Não é ruim, mas também não é bom.
No circuito de Marina Bay, porém, o desempenho foi muito bom na noite deste sábado no Sudeste Asiático. Além de Russell na pole, o time colocou Kimi Antonelli em quarto no grid, repetindo a posição de largada da última corrida, em Baku. O jovem italiano vem reagindo depois de uma temporada europeia lamentável, com poucos pontos e muitas batidas.
Entre os dois carros da Mercedes estarão um da Red Bull, de Max Verstappen, e um da McLaren, do líder do campeonato Oscar Piastri. Lando Norris, vice-líder na tabela, larga em quinto. O brasileiro Gabriel Bortoleto, da Sauber, em 14º.
Verstappen, o único que no Q3 deu a impressão de que poderia bater Russell, reclamou ao final da classificação que foi atrapalhado por Norris na última curva. “É a Red Bull, eles sempre reclamam de alguma coisa”, desdenhou o inglês.
A noite foi quente e úmida em Singapura, o que não é novidade nenhuma. Termômetros na casa dos 30°C e umidade relativa do ar de 70%. São as condições esperadas para a corrida de amanhã, que começa às 9h de Taguatinga, 20h locais.
A definição do grid começou com alguns destaques interessantes no Q1. Isack Hadjar chegou a ficar em primeiro por um tempinho, com uma volta em 1min30s214. Só foi batido por Norris, o primeiro no fim de semana a fazer um tempo abaixo de 1min30s: 1min29s932. Oliver Bearman, da inconstante Haas, foi outro que apareceu bem. Esteve por alguns minutos em segundo lugar e acabou ficando bem colocado no final. Antonelli, igualmente novato, também andou na frente por um bom tempo, em seu melhor fim de semana depois que saíram as notas da escola – passou de ano sem recuperação.
Os últimos minutos da primeira parte da classificação foram complicados. Todo mundo foi à pista ao mesmo tempo e o tráfego chegou a atrapalhar alguns. Uma bandeira amarela localizada, com a quebra de Pierre Gasly, prejudicou outros. Lewis Hamilton fez uma voltaça em 1min29s765 e pulou para primeiro. Russell, Norris, Verstappen, Antonelli, Hadjar, Piastri, Charles Leclerc, Bearman e Yuki Tsunoda foram os dez primeiros. Os eliminados: Bortoleto, Lance Stroll, Franco Colapinto, Esteban Ocon e Gasly.
O brasileiro foi um dos que tiveram de dar uma aliviada no acelerador quando passaram pela bandeira amarela do francês da Alpine. Ele não ficava empacado no Q1 desde o GP da Inglaterra. Nas últimas cinco etapas, havia avançado à segunda parte da classificação. “Tive de tirar o pé e foi uma pena porque era uma volta boa que ia me levar fácil ao Q2”, disse à repórter da Band(eirantes) Mariana Becker, que acabou trabalhando hoje (leia nota mais abaixo, nas famosas e infames caixinhas coloridas).
O início do Q2 foi atrasado em alguns minutos justamente porque os comissários tiveram de checar nos vídeos e na telemetria se alguém fez volta sem tirar o pé do acelerador no ponto onde Gasly estava parado, desrespeitando a bandeira amarela. Vários pilotos foram investigados. Inquéritos, abertos. No fim, deixaram para analisar tudo depois da sessão. Eventuais punições seriam aplicadas a posteriori. O problema seria a dosimetria. O que fazer com quem eventualmente avançou ao Q2 infringindo as regras? No fim, ninguém foi punido.
Foram exatos 14 minutos de intervalo entre os dois segmentos, quando normalmente essa parada é de apenas cinco. Segue o jogo. Boxes abertos, Verstappen foi o primeiro a sair para fazer tempo, e fez: 1min29s747. Temporal, como diziam os antigos romanos nas corridas de bigas. Ou “temporale”, no original em latim – o imperador diria “magnum tempus”, porque não se misturava à plebe. Outro que fez um “temporale” foi Antonelli, mas o tempo foi cancelado por exceder os limites da pista na curva 2. “Porca puttana!”, gritaria das arquibancadas do Circus Maximus um tifoso mais exaltado.
Mas o bambino não se abalou. Fez uma segunda volta em 1min29s649, sendo superado logo depois por seu companheiro Russell, 1min29s562. “Caspita!”, exclamaria nosso torcedor das corridas de biga, animado com o garoto do time prata. Os tempos caíam rapidamente – a pista de Singapura tem essa característica, de melhorar bem na medida em que o asfalto vai emborrachando. Verstappen também fechou uma volta boa e colou em Russell, apenas 0s010 atrás. A Mercedes entrou na briga. Caíram Nico Hülkenberg, Alexander Albon, Carlos Sainz, Liam Lawson e Yuki Tsunoda. A dupla da Williams, e isso saberíamos apenas horas depois de encerrados os trabalhos de pista, foi desclassificada e larga do fundo do grid. Motivo: asa móvel abrindo mais do que o regulamento permite
Avançaram ao Q3 as duplas de Mercedes, Ferrari e McLaren. Juntaram-se a elas, para a parte final da sessão, representantes de Aston Martin, Haas, Red Bull e Se Preferir Tem o QR Code. Sete times diferentes entre os dez primeiros, o que é legal de ver. Alpine, Sauber e Williams ficaram fora da festa.
1min29s165 foi o primeiro tempo de Russell em sua primeira volta rápida no Q3, um tempo espetacular. Antonelli fechou sua volta inaugural a 0s372 dele. Foi superado por Verstappen e Piastri. “Britanni celerrimi sunt, eo magis cum cum curribus Germanicis certant”, admirar-se-ia o magnânimo imperador instalado no camarote vip do Circus.
Seria difícil tirar a pole do britânico e seu carro alemão. O primeiro a tentar foi Norris, que fechara a primeira leva de voltas rápidas em quinto. Não conseguiu e ficou onde estava. Russell, para dificultar ainda mais a vida dos rivais, conseguiu baixar um tiquinho: 1min29s158. Foi um balde de água gelada nos outros. Depois disso, ninguém melhorou foi nada. Sobrava Verstappen. Era o último com alguma possibilidade de desbancar o piloto da Mercedes, mas tirou o pé no fim da volta quando pegou Norris pela frente. Larga na primeira fila ao lado do #63. Piastri e Antonelli estão na segunda, como já informado. Norris, Hamilton, Leclerc, Hadjar, Bearman e Fernando Alonso fecharam as dez primeiras posições. “Magnum fuit spectaculum aurigarum, sed duo currus rubri imbecilli sunt… Nimis tardi erant. Occidere eos potes. Utrumque lupis proice una cum obeso domino eorum. Noli oblivisci bonum condimentum ad eos sapidiores reddendos”, seriam as últimas palavras de nosso majestático imperador romano ao final da sessão.
Russell, que bateu o carro ontem no segundo treino livre, disse que sua primeira volta decente no fim de semana foi a última do Q2. Ali, percebeu que tinha chance de fazer alguma coisa que prestasse no fim de semana. Seu medo, amanhã, é o ritmo de corrida. Não fez nenhuma simulação, por causa do acidente. E a largada também lhe causa arrepios: “Max larga muito bem. Vamos ver o que consigo fazer”.
NO AR – Quem acompanhou a transmissão do terceiro treino e da classificação pela Band(eirantes) notou que, diferentemente de ontem, a repórter Mariana Becker entrou no ar. Sem cinegrafista, e pelo telefone – minha experiência nessas coisas garante. Houve uma única aparição em “falso vivo”, como a gente chama: um vídeo gravado com celular que entrou no ar na abertura da transmissão da classificação como se fosse ao vivo, e não era porque dava para ver o céu ainda claro, e já era noite. “Non heri natus sum”, diria o imperador.
EXPLICAÇÃO – E o que aconteceu? Segundo a jornalista Julianne Cerasoli, do UOL, a emissora “resolveu as pendências” com a equipe, embora produtor e cinegrafista não tenham viajado para Singapura. Não há detalhes. Por isso, me permito acreditar que o canal tenha sido alertado pela FOM de que poderia ser multado ou perder os direitos se não tivesse alguém “in loco” no ar. Os contratos de direitos de transmissão obrigam os detentores a terem pelo menos um repórter nos locais das corridas para produzir conteúdo editorial. “Quicumque anum habet, timet”, diz o velho ditado romano.
LINGUIÇA – Sem material gravado em Singapura ou possibilidade de sua repórter entrar ao vivo com imagens, o famoso “pré-hora” da Band(eirantes) foi preenchido com vídeos enlatados e datados, que qualquer um pode ver nas redes sociais da F-1. Para amanhã, a transmissão que às vezes é aberta uma hora antes da largada vai começar às 8h30, 30 minutos depois do normal. Não se sabe qual será o esquema da emissora nas demais etapas do campeonato, que incluem viagens custosas para três corridas na América do Norte (Austin, México e Las Vegas) e duas para o chamado mundo árabe (Catar e Abu Dhabi). Ainda o imperador: “Quod fecerunt fuit farcimen farcire”.
PLACAR – Querem saber como está o placar das classificações neste ano? Vamos lá, com as siglas dos nomes dos pilotos para ver se vocês estão afiados. ALO 18-0 STR, RUS 16-2 ANT, VER 16-0 TSU, LEC 13-5 HAM, HAD 12-3 LAW, BOR 11-7 HUL, PIA 10-8 NOR, BEA 10-8 OCO, SAI 9-9 ALB, GAS 7-5 COL. Alonso e Verstappen são os únicos que ainda não perderam nenhuma para seus companheiros de equipe.
