Blog do Flavio Gomes
F-1

MAX IN MEX (3)

SÃO PAULO (emoção até o fim) – O Mundial de Fórmula 1 tem um novo líder. Lando Norris venceu o GP do México, 20ª etapa da temporada, e ultrapassou na tabela seu companheiro de McLaren Oscar Piastri, quinto colocado na prova disputada no autódromo Hermanos Rodríguez. O inglês foi a 357 pontos, contra 356 do […]

Norris, novo líder: um ponto à frente de Piastri

SÃO PAULO (emoção até o fim) – O Mundial de Fórmula 1 tem um novo líder. Lando Norris venceu o GP do México, 20ª etapa da temporada, e ultrapassou na tabela seu companheiro de McLaren Oscar Piastri, quinto colocado na prova disputada no autódromo Hermanos Rodríguez. O inglês foi a 357 pontos, contra 356 do australiano. Isso mesmo: um mísero pontinho separando a dupla papaia. Charles Leclerc foi o segundo colocado na corrida mexicana, com Max Verstappen em terceiro.

O holandês poderia ter terminado em segundo, não fosse um safety-car virtual – desnecessário – na penúltima volta, quando ele chegava para atacar o monegasco da Ferrari e, provavelmente, jantá-lo com guacamole e chili. O resultado levou o piloto da Red Bull a 321 pontos no campeonato.

Com quatro etapas restantes, duas delas com Sprints, são 116 pontos em jogo. Se vencer tudo, Verstappen pode chegar a 437. Norris, por sua vez, não precisa mais ganhar nenhuma, nessa briga direta com o tetracampeão. Terminando todas em segundo, atingiria a marca de 443 pontos.

Mas ainda tem Piastri na briga, claro, e o mesmo raciocínio matemático aplicado a Norris vale para ele: se chegar em segundo em todas, alcança 442 pontos. Líder desde a quinta etapa, na Arábia Saudita, Oscar levaria vantagem sobre os dois rivais hoje no número de vitórias: sete, contra seis de Lando e cinco de Verstappen. Ou seja: o campeonato está absolutamente aberto. Do jeito que a gente gosta. Para Max as coisas se complicaram um pouco. É verdade que ele chegou ao México 40 pontos atrás do líder – no caso, Piastri – e está saindo agora com um déficit de 36 – para Norris. Tirou alguma coisa, mas não o bastante. Precisaria, agora, descontar nove pontos por etapa para empatar com o atual primeiro colocado. Não é tarefa das mais fáceis. Até porque está claro que a McLaren continua com um carro muito bom. Se deu uma espanada nas quatro provas anteriores, foi mais por conta dos pilotos que do equipamento.

O GP do México foi divertido, disputado e interessante, Norris à parte – o inglês dominou a corrida com enorme autoridade e recebeu a quadriculada mais de meio minuto à frente do segundo colocado. Teve um grande destaque, o inglês Oliver Bearman, da Haas, que largou em nono e terminou em quarto – sua melhor posição na F-1. E o brasileiro Gabriel Bortoleto também pode ser orgulhar do décimo lugar que conseguiu a partir de um distante 16º no grid, marcando um pontinho para a Sauber num fim de semana difícil para ele desde o início dos treinos, na sexta-feira.

A largada foi selvagem, como sempre acontece nessa pista. Difícil descrevê-la com precisão, tantas foram as tentativas de pegar vácuo nos 767 metros da pole até a freada da primeira curva. Verstappen, por exemplo, mergulhou como se fosse o último dos astecas pelo lado de fora, passou pela grama, entrou na pista de novo e estava em quarto quando voltou ao leito carroçável do circuito. Norris foi ultrapassado por Leclerc, mas retomou a ponta porque o monegasco também pegou um atalho pela grama e devolveu a posição antes que fosse punido. Lewis Hamilton se segurou em terceiro. Bearman pulou de nono para sexto. Piastri caiu para nono. Mas ninguém bateu.

George Russell, originalmente quarto no grid, caiu para quinto e ficou indignado com a excursão de Max pela área verde do autódromo. Foi imediatamente ao rádio. “Considero tal manobra ridícula. Se não pelo gramado em si, um atentado ao meio-ambiente às vésperas da COP30, mas também porque somos orientados a pilotar pelo asfalto, ainda que o próprio asfalto seja uma ameaça à biodiversidade do planeta, visto que sua produção gera muita emissão de carbono. Vocês devem estar sabendo do cachorro-vinagre, espécie em extinção no Pantanal… Mas, voltando ao que ocorreu agora há pouco, o rapaz o carro energético encurtou a pista, que já é curta, em alguns metros. E isso, todos viram, valendo-se de flagrante ato de desmatamento. Ninguém vai fazer nada? Cadê a Marina, nessas horas?” Toto Wolff perguntou ao engenheiro de qual Marina ele estava falando. “Lima”, respondeu o engenheiro, seco. “Aquela cantora.” “Pensei que era a Marina morena…”, falou Toto, cantarolando: “…você se pintou…”. O engenheiro olhou para ele e lembrou que o chefe da Mercedes tinha corrido no Brasil anos atrás, numas Mil Milhas. Entendeu tudo na hora. Toto desconversou e pediu para alguém dar uma olhada nessa história de vinagre com cachorro, que lhe escapara em meio às doces lembranças tropicais.

Na sexta volta, Verstappen tentou passar Hamilton e gerou uma confusão gigantesca, que levou o inglês a cortar a pista no Foro Sol. Os dois quase se estapearam. O inglês da Ferrari se manteve em terceiro, mas talvez fosse punido. Max também passeou pela grama de novo. Bearman, com isso, assumiu o quarto lugar – um início de prova brilhante para o menino da Haas. Russell se atrapalhou com a briga à sua frente e caiu para sétimo.

Festa do #4 da McLaren: 14 provas atrás de Piastri na tabela

Com dez voltas, Norris, Leclerc, Hamilton, Bearman, Verstappen, Kimi Antonelli, Russell, Yuki Tsunoda, Piastri e Esteban Ocon eram os dez primeiros. Bortoleto aparecia em 12º. Ele era um dos seis que haviam largado com pneus médios – Verstappen, Tsunoda, Isack Hadjar, Carlos Sainz e Pierre Gasly foram os outros; Alexander Albon e Franco Colapinto começaram a prova com pneus duros e os demais, com macios.

Norris era absoluto. Na 16ª volta, tinha quase 6s de vantagem para Leclerc. Naquele momento, a direção de prova avisou: Hamilton seria mesmo punido com 10s por ter cortado a pista auxiliar no estádio, quando disputava posição com Verstappen. Na 21ª, Landinho abria mais de 9s sobre o monegasco da Ferrari. Era um passeio.

Bearman, em quarto, com Verstappen no retrovisor, se transformava no nome da corrida. Mais atrás, Piastri tentava provar ao mundo que ainda era aquele menino admirável do começo do ano, brigando com Russell pelo sétimo lugar – já tinha passado Tsunoda. Lewis, pelo rádio, reclamou da punição. A equipe disse que concordava com ele, mas que não tinha muito o que fazer.

Os pneus macios até que estavam durando bastante, mas quem tinha largado com eles teria de parar logo. Antonelli foi aos boxes na volta 23 e colocou médios. Voltou em 13º. Hamilton parou na 24ª. Pagou a multa e voltou em 14º. Bearman e Piastri, na 25ª. Quem largou de médios se mantinha na pista. Era um interessante jogo estratégico. Alguns fariam duas paradas. Outros, apenas uma – a maioria.

Com 30 das 71 voltas completadas, Norris, Leclerc, Verstappen e Tsunoda eram os quatro primeiros, sem pit stops. Bearman aparecia em quinto, seguido por Antonelli – dois novatos que, nessa prova, enchiam os olhos. Russell, Piastri, Hadjar e Bortoleto fechavam a turma dos dez primeiros.

Leclerc parou na volta 32. Voltou em terceiro. Bearman passou Tsunoda e assumiu a quarta posição. Norris foi chamado para sua troca na volta 35. Colocou pneus médios e continuou em primeiro, mais de 8s à frente de Verstappen, que ainda tinha de fazer seu pit stop. Era uma das corridas mais tranquilas de sua vida.

Na volta 38, Verstappen parou. Voltou em oitavo. Russell, em quinto, começou a reclamar que tinha mais ritmo que Antonelli. Queria atacar o italianinho pelo quarto lugar. A equipe relutava em dar alguma ordem. “Vejam bem. Ele é jovem, tem a vida inteira pela frente. Tenho mais ritmo. Olho no espelho e vejo uma McLaren atrás de mim. Querem que eu deixe a McLaren passar? Posso fazê-lo. São nossos clientes, afinal. Kimi é um bom menino, mas vejam… E a escola? E as provas? Vocês têm monitorado as notas dele? Talvez seja o caso de…” “Mandem ele calar a boca”, pediu Toto Wolff.

Na volta 41, para estancar as lamúrias do inglês, a equipe pediu para Antonelli trocar de posição com o #63. George passou, mas não foi embora. Dona Veronica telefonou. Toto atendeu, mas antes mesmo de dizer “alô”, teve de ouvir: “Nem aqui em casa a gente faz essas coisas com o Kimi! Vou mudar ele de escola! Digo, de equipe!”. Toto pediu desculpas e disse que iria ver direito o que tinha acontecido, porque estava fora da cidade. “Mentira, vi você na TV!”, gritou dona Veronica. Toto suspirou.

Apesar da tranquilidade de Norris na ponta, havia uma corrida entre Russell, quarto, e Hamilton, oitavo. Antonelli, o quinto, segurava Piastri, que via Verstappen chegando. Mas, na volta 48, alguns pilotos foram para uma segunda parada: Piastri, Antonelli e Hamilton trocaram pneus novamente. Max subiu para quinto. Russell também parou, na volta 49, assim como Bearman. E o holandês escalou o pelotão, para terceiro.

Com 50 voltas percorridas, Norris, Leclerc, Verstappen, Bearman, Russell, Piastri, Antonelli, Hamilton, Ocon e Hadjar eram os dez primeiros. Lando humilhava a concorrência. Tinha mais de 20s de vantagem sobre Chaleclé. Max estava sossegado em terceiro e começava a armar o bote para passar o ferrarista no final, já que tinha pneus macios, contra médios do adversário.

Na volta 60, Max já tinha reduzido sua diferença para Leclerc a 5s2, podendo mesmo sonhar com um segundo lugar na prova. Mais atrás, Piastri conseguiu passar Russell numa bela manobra, meio de lado, meio na marra. Lembrou o Oscar que conhecemos no começo do ano. Antonelli, na hora, entrou no rádio. “E aí? Ele me devolve a posição agora ou vai ficar por isso mesmo? Tem uns moleques na escola que gostariam muito de me ver na frente dele de novo…”, ameaçou. “Tenho amigos. E eles não são conhecidos pelo bom comportamento…”

Bortoleto: de 16º para décimo em ótima corrida

Na volta 63, Bortoleto fez uma bonita ultrapassagem sobre Hadjar entrando na zona de pontos. Um prêmio para a persistência do brasileiro, que largara em 16º. A Mercedes, com medo dos moleques da escola de Antonelli, mandou Russell sair da frente do fedelho. “Eles são violentos”, justificou Toto. Dona Veronica mandou mensagem: “Quem tem, tem medo”, escreveu, enigmática. “Quem tem o quê?”, perguntou Toto ao engenheiro. “Cu”, respondeu o técnico, esgotado mentalmente.

Na volta 64, a sete do final, a Red Bull entrou no rádio de Verstappen para elogiar o piloto. “Seu ritmo está insano, meu jovem. Vamos terminar o trabalho”, conclamou seu engenheiro, num discurso digno de coach do Instagram. Max estava, de fato, encostando em Leclerc. A diferença caíra para menos de 3s. E só diminuía. “Terminar o trabalho” era, evidente, passar a Ferrari e concluir a corrida num mui honroso segundo lugar.

Em quinto, Piastri encostava em Bearman. Àquela altura, lutava por qualquer pontinho, sabendo que Norris daria um salto na classificação. Na penúltima volta, Verstappen atacou o ferrarista de vez. Mas o safety-car virtual foi acionado. Sainz tinha rodado e estacionado num lugar seguro, mas mesmo assim a direção de prova promoveu o maior anticlímax do ano, já que todo mundo teve de tirar o pé. Uma tristeza. A relargada aconteceu com meia volta pela frente ainda, mas aí o holandês não tinha o que fazer. Nem Piastri. Nem ninguém.

Norris venceu com 30s324 de vantagem para Leclerc, o segundo. Verstappen completou o pódio. A turma dos pontos teve ainda Bearman, Piastri, Antonelli, Russell, Hamilton, Ocon e Bortoleto.

No Foro Sol, o estádio onde fica o pódio e são feitas as primeiras entrevistas com os três primeiros colocados, Norris foi vaiado pelo público mexicano. Não deu para entender direito. Como entender o povo, não é mesmo? Ainda mais esse povo que vai aos autódromos. Sei lá, não entendo nada. Ficou um certo mal-estar no ar. Na coletiva com a imprensa, depois, um jornalista mexicano disse que a torcida queria que ele devolvesse os três pontos que ganhou de Piastri com a troca de posições em Monza, meses atrás. Falou que seu jornal, ou site, ou sei lá o quê, tinha feito uma pesquisa e chegou a essa conclusão.

Lando, agora com dez vitórias no currículo, respirou fundo e disse que as pessoas podem pensar o que bem entenderem. Pegou seu troféu e foi embora para o hotel como líder do campeonato. Foda-se o público mexicano, pensou. Se não pensou, penso por ele.